quinta-feira, 9 de outubro de 2014

VERMES




Há seres que são humanos, mas não são pessoas. Ser pessoa, implica a consciência de si, estar revestido da sua pessoalidade, igualmente reconhecer a existência do outro – estabelecendo ligações de comunicação que criam o entendimento, a identificação - como alguém parecido e diferente, um outro individual.

Há seres que são humanos, mas na realidade são vegetais com pernas que andam. E andam por aí, soltos, a causarem muitos danos.

Que pessoas humanas aguentam a desfaçatez, a prosápia, a injustificável frieza de não serem competentemente capazes e aparecerem como vermes e dizerem impávidos, o impossível de dizer?

Esses seres, que nem vegetais são, são não seres primevos e malcheirosos.

São estes os seres que nos mandam, e nós, patetas bem mandados, aceitamos.

Olhamos para a televisão e ficamos empolgados com a coragem dos miúdos em Hong Kong, a dizerem não com um banal chapéu de chuva na mão. 

Sensibilizamo-nos com o sofrimento, a injustiça, a opressão, a omissão, a arbitrariedade, a soberba, a arrogância, a sobranceria, o snobismo: dos outros.

Mas todas essas incomodidades não impulsionam suficientemente a voz para expulsar um NÃO assertivo.

Todas essas indelicadezas são vividas, como espectadores diletantes, no doce recato do lar à hora do jantar e enquanto passam esses folhetins nos noticiários televisivos.

A seguir saciamo-nos com outras misérias, nas doses sub-terapêuticas de veneno diário, nas histórias de vida das novelas, ou nas novelas dos comentários desportivos.

E é suficiente para irmos dormir, cansadíssimos, mais ou menos entediados com a existência madrasta.

Invariávelmente vamos acordar no dia seguinte com a filosofia pindérica e muito portuguesa, que hoje ouvi no comboio da Linha de Sintra:
“Oh mulher parece que estás a dormir?”
“ E estou! Sou acordo às seis, quando saio do trabalho…”

Ela, ele, eles, nós, andamos a esconder-nos uma coisa relevante: não só não acordamos às seis (e somos incompetentes se somos assim, porque mesmo não gostando da forma como se ganha a vida, deve-se dar o melhor, pela dignidade, bem precioso), como nem às oito nem há meia-noite, nem nunca.

Se despertássemos alguma vez, no dia a seguir aconteceria a revolução que nunca aconteceu.

Somos uns cobardes encostados a coçar as costas nas paredes, assobiando para o ar, esperando que alguém faça um passe de mágica, que só nós poderíamos fazer para mudar o estado do Estado.

Exemplos de como isso seria possível? Se todos os professores neste país – colocados e solidários com os outros - não derem uma única aula, se todos os funcionários judiciais não mexerem num único processo, se todos os profissionais de saúde só executarem os actos médicos essenciais à preservação da vida humana e nada mais, se os policias deixarem de proteger os políticos, os banqueiros, e outros, se tudo isto for feito um único dia, no dia a seguir, temos um mundo novo.

A grande questão é: e no dia a seguir?

As sociedades – a história tem muitos exemplos desses – na imitação dos seres vivos – ou estes no seu exemplo - criam mecanismos que aparentemente não existiam até fazerem falta: estratagemas de recriação, de reequilíbrio, de sustentação, de regulação interna.

Talvez o dia seguinte não fosse um drama, mas só se pode saber isso se algum dia se vier a tentar

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