sábado, 26 de março de 2016

As mãos, a pena e o sangue

Deixem-me ser patriota quanto baste, envergando contudo o fato à prova de bala. Doze portugueses, entre milhões, que andavam pelo mundo fora à procura de trabalho que resultasse em pão que alimenta famílias do peito e do sangue, morreram na estrada num acidente aparatoso, estúpido como são quase todos, e doloroso como nem Deus devia querer. Eram doze. E no meio dessa tragédia que eliminou de imediato tal magote de gente humilde, trabalhador, contavam-se pessoas muito jovens, com muita esperança de vida pela frente. Uma tragédia é sempre uma tragédia, com mais ou menos horror, independentemente de conter cadáveres sem idade para se meter à estrada. Mas a vida difícil que cada um vive à porta de casa, de um país secularmente pobre, expulsa-os para longe e a tanto os obriga. Procurar sustento. Porém, as notícias em Portugal, relatam repetidamente e até à exaustão, outros acontecimentos, que não sendo de minorar e são de alerta, não deviam sobrepor-se nesta hora, à tragédia sofrida por mais de um terço dos mortos - que recolhiam a casa vindos da Suíça, para passar no seio da família, uma festa feliz, a Páscoa em Portugal, cheios de fé e de muita alegria - do número total de mortos nos atentados na Bélgica, que merecem também respeito rigoroso. Mas a Comunicação Social faz contas também, por rosários diferentes do nosso, que trazemos entre-mãos. Dá relevo e acompanha a política assassina que os governos ergueram e da qual recolhem agora os frutos semeados pelos Salah Abdeslam &Cª, por terrenos inesperados e sempre debaixo do terror da suspeição, numa de guerra de audiências, por vezes, ou se preocupa mais em dar notícia da beleza do Ronaldo, do que veste e calça aqui e despe por Marrocos e onde andam outros camelos, ou da deslocação do seu “boneco em bronze” na ilha bananeira. Para que a tragédia não se fique só por isto, agravêmos-la com a junção dos mais de 500 emigrantes lusos perdidos pelo Luxemburgo que passam as agruras do inferno e que têm de recorrer, enquanto não soçobram de todo, às cantinas sociais nas Embaixadas e (des)Consulados, por falta de pensões condignas e vítimas de emprego precário, aonde vão pedir pão e outros apoios, que os não há ou onde só encontram o vazio. Deixem-me ser patriota.
Eram doze os portugueses que pereceram estropiados na estrada maldita, e nenhum deles andava a por bombas de destruição e de morte, mas antes, andavam a colocar pedra sobre pedra a construir e a reconstruir cidades e pontes, que une povos e culturas e a tornar possível um mundo melhor para todos. É deles que devemos falar já e agora, e das condições que nos são dadas para sobreviver pelo nosso país cinzento e a navegar à vista, e em risco de encalhar a qualquer abalo. Nesta Páscoa, já nada será igual em muitos lares e nessas mesas, vão estar lugares por preencher e lavadas em lágrimas. Oremos por eles!
                 

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