terça-feira, 8 de março de 2016

"Festa brava e rija"

O Aníbal vai de calcantes. O Cavaco, solidário com o marchante com quem alinhou no trilho que nos esmagou e nos pôs a deitar os bofes pela boca, segue-o, guiado pela ilusão de que ambos fizeram história. Não se lhes conhece o trajecto, mas crê-se, tracem o caminho que traçarem, que não serão retidos em nenhuma fronteira de arame farpado, nem recorrerão a desviarem-se por mar em bote a esfrangalhar-se para atingir "a paz, o pão, habitação, saúde, educação", e o mais que o Sérgio nos cantara num cenário emigratório para idêntica selva, e muito antes das actuais multidões se terem de atirar aos mares de morte, ou de chegarem aos acampamentos lamacentos, gelados, desumanos, e que não se erguem no alentejo profundo nem nas praias aonde ambos passam férias à custa de proventos acumulados. Aníbal e Cavaco, não sabem caminhar sobre os pedregulhos que a vida tece, mas apenas galgar pé ante pé nas areias quentes e macias, sempre bem perto da comodidade do lar e dos bens conseguidos sem muito esforço reconhecido, e dos jeitos que os amigos proporcionaram durante largos anos. Aníbal e Cavaco formam com o senhor Silva um só personagem, que o povo quer ver de costas há muito, e no entanto foi esse mesmo povo que lhe deu a cadeira ilustre do Poder, e que por ele andou às turras. Matéria para especialistas freudianos, estudar. Hoje, sabendo-se da sua partida sem retorno, chegamos de novo ao 25 de Abril do ano de toda a esperança, já que enquanto estivemos sob o seu jugo, retrocedêramos ao 24,5 de 74. A juntar ao afastamento de Coelho e de Portas, respira-se agora em Portugal, um frio bom, porque oxigenado por um vento de mudança, e Abril reapareceu enroupado no ânimo que nos quer de novo esperançados. Preparemos uma festa brava e rija. Abramos champanhe, bebamos medronho com figos do algarve, que o momento é merecedor, e que o baile ou o corridinho dure até às tantas. Montemos uma tenda de refugiado e aonde caibam os seus amigos enriquecidos e laureados à socapa, em memória do pior governante e presidente que o antes e o depois de Abril de 74 nos impôs, e deixêmo-los nela repousarem para sempre. Para sempre não perdoados e jamais esquecidos!

   

1 comentário:

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