sexta-feira, 4 de março de 2016

HAJA CLARIVIDÊNCIA

                                                    ATORMENTAR CONSCIÊNCIAS
Vivemos um tempo em que muitos idosos são sistematicamente destratados, quer nas suas  familias quer nos pretensos lares que mais não são que depósitos onde vegetam até que a morte os liberte, ao mesmo tempo que se apoderam dos recursos que possam ter.
E é num quadro destes que a famigerada “eutanásia” se torna algo tenebroso, podendo servir de cobertura, se legalizada, para famílias sem escrúpulos e hospitais “saturados” se livrarem de pessoas fragilizadas que só lhes dão “problemas”, esquecendo facilmente quanto lhes devem.
Em “Novos Contos da Montanha”, de Miguel Torga, há um quadro horripilante que descreve como as famílias que tinham em casa um moribundo se livravam dele, recorrendo a uma figura sinistra que vivia recolhida num ermo da aldeia, o “Alma Grande”, cuja função era estrangular os enfermos que se revelassem resistentes a passar para outra dimensão.
Mas ajudar a morrer com dignidade uma pessoa que, senhora das suas faculdades mentais, mas em estado terminal de vida, pede para não a deixarem sofrer mais, não pode ser vista com aquela carga negativa que a palavra “eutanásia” transmite.
Parece-me relevante, sim, é que esta decisão não esteja ao arbítrio de um só médico, ou enfermeiro, mas respaldada no critério de uma comissão de ética que, segura de que nada mais pode ser feito pela sobrevivência do doente, e sendo vontade deste abreviar o sofrimento, lhe seja ministrado o medicamento adequado para se “apagar” tranquilamente.
É evidente que esta solução nem se equaciona para aqueles que, por questões de fé religiosa, crêem ser sua obrigação levar a cruz ao calvário, sofrendo até ao fim por amor ao seu Deus…


                                        Amândio G. Martins

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