segunda-feira, 4 de abril de 2016

Frase feita

Sempre que morre alguém com notoriedade, ou até sem ser por aí além, mas que deu nas vistas numa ou noutra coisa mais ou menos controversa, ou singular, e enquanto nessa função deu a "mamar" aos amigos algum ouro, ou dele tiraram protagonismo e proveito, aparecem logo oriundos dessa banda, uns outros a lamentar tal morte, com elogios bem badalados, do género - "com o seu desaparecimento, o mundo fica mais pobre". Esta frase que me anda aqui no ouvido a incomodar faz tempo, e que já não de lá sai, nem com cotonete embebida em bagaço forte, tem-me feito reflectir sobre o valor da pessoa que partiu e o que fez com brilhantismo em vida, e do daquele que profere tal frase feita saída da boca, que de outro berço ou alma seria difícil, quando interrogado por um meio de propaganda social, à entrada ou à saída do luto florido que o cangalheiro encenou com pompa. E a frase tem razão de ser, certamente. Se o gentio que feneceu era poderoso e tinha influência, conseguindo por sua actuação mexer os cordelinhos na área que dominava e com isso se enchia de importância, mais o parceiro oportuno, que disso tirava proveito, este "mamão" não tem mais do que tecer loas ao falecido e gabar-lhe a obra deixada ou mal explicada, e todos os dotes que com ele se foram, e que a partir de agora deixaram de contar para a soma do já arrecadado. Pelo contrário, se aquele que morre, não tinha aonde cair morto, anónimo como enquanto espermatozóide, sobre ele não se ouvirá uma frase feita ou por fazer, excepto, o adivinharmos que alguém largue uma lágrima por ele na hora do adeus e por dentro do escuro da tristeza. E mesmo isto não é certo. Sendo assim, não custa aceitar que a morte de alguns tornam o mundo mais pobre, e com a morte de outros, a maioria, o mundo fica mais rico. Eu esclareço. Se por exemplo morre um vigarista, que fez fortuna à custa de golpes e trapaças, mas com essa prática encheu ainda os bolsos do núcleo de amigos, estes lamentam a sua morte pois o seu apagamento é ao mesmo tempo a morte da riqueza que ele gerava e dele sobrava, e fazia a alegria e as delícias dos comparsas.
Mas se morre um pobre, não há nada para esperar, e muito menos a herdar, por isso a lamentar. Como é pobre e banal, tal “como uma frase batida”, que riqueza perde o mundo com o seu fenecimento? Se assim é, conclui-se que o mundo ficará sempre menos pobre se só morrerem os indigentes, sem vintém, e sem qualquer interferência nos "tachos" que há para arrebanhar e distribuir pelos amigos, e que só estão sob tutela e à guarda da legião a que pertencia o vilão muito considerado e agora velado. No exemplo que perseguimos, podemos também concluir, que, embora os ricos e personalidades tais como banqueiros criminosos, dirigentes de organismos desportivos criminosos, políticos de vários graus com cargos de chefia que cometem fraudes, administrativos corruptos ao serviço da causa pública, em mar, no ar e em terra, etc. quando morrem, têm sempre algum personagem ou até um bando deles a vir a terreiro, discursar, bater palmas, ainda o cadáver não arrefeceu, a tecer-lhe os maiores encómios, loas, elogios, enaltecimentos, proezas, heroicidades que em nenhum cartapácio cívico está descrito, mas que eles sabem ser fundamental entoar para limpar alguma suspeita e lixo que se tenha pegado ao defunto de renome sem saída limpa. Quer isto dizer que sempre que se prende ou morre um destes figurões, surge ou é imediatamente eleito outro, que lhe segue o percurso e o imita na acção. Aqui está a solução abreviada, para que o mundo nunca fique mais pobre. Pelo contrário, temos a garantia que com estes substitutos e oradores com dotes demonstrados em congressos, reuniões de negócios à porta fechada, assembleias aonde se elegem piratas, ou se confirmam lideranças, o mundo ficará sempre mais rico. Pobres para que vos quero, se em vós só vejo braços para me servirem, agitando bandeiras e enquanto colam cartazes?
                 
* têxto hoje publicado no DNotícias

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