sábado, 7 de maio de 2016

DOS PENSADORES III

                                               CONTINUANDO COM ROGER GARAUDY

Do séc. XVI ao séc. XX o desenvolvimento da nossa civilização ocidental foi comandado por três postulados. Primazia do trabalho – é agindo sem descanso que o homem manifesta toda a sua grandeza; puritanos ou jacobinos, tiveram a religião do trabalho. Primazia da razão – a razão pode resolver todos os problemas e os únicos problemas reais são os que a ciência pode resolver. Infinito quantitativo – em nome deste postulado pode crer-se num aumento sem fim do crescimento e definí-lo como puramente quantitativo da produção e do consumo.
 É em nome deste postulado que as nossas sociedades funcionam, como se tudo que é tecnicamente possível fosse desejável e necessário, quer se trate de fazer armas nucleares cada vez mais poderosas, automóveis ou aviões que se deslocam cada vez mais depressa, mesmo que seja para chegar a parte nenhuma. Estas sociedades ditas desenvolvidas funcionam segundo o princípio de criar necessidades e desejos os mais artificiais e nocivos para produzir em seguida os meios de os saciar.
Crescimento do lucro ou desenvolvimento do homem? É preciso escolher. Hoje opõe-se os países ditos “desenvolvidos” e os países “subdesenvolvidos”, que chamamos em vias de desenvolvimento, quando cada um sabe que as diferenças entre as duas categorias não pára de aumentar. É fácil demonstrar que desenvolvimento e subdesenvolvimento se condicionam e engendram um ao outro, porque o desenvolvimento do Ocidente teve por condição necessária a pilhagem e transferência das riquezas, sendo o Ocidente quem subdesenvolveu o que hoje chama Terceiro Mundo.
O facto da Europa ter passado do feudalismo ao capitalismo estimulou o estudo das leis da natureza para a sua exploração económica. A superioridade europeia não se deve a uma superioridade de cultura, mas à vantagem na marinha e nas armas, tendo começado a grande razia das riquezas do mundo.
Na África, a cultura dos cereais, o uso dos utensílios de ferro e a cerâmica remontam aos primeiros séculos da nossa era: cultura em terraços, rotação de culturas, adubação vegetal, alternância de culturas. A ocupação colonial impõe monoculturas em função dos seus interesses, o que conduziu a grandes fomes.
O capitalismo europeu, tornado o centro de um sistema mundial, criou a escravatura, deportando milhões de seres humanos, transformando a África num entreposto comercial para a caça aos “peles negras”, marcando a aurora sangrenta da era capitalista e condenando à regressão o continente africano, pela hemorragia dos seus melhores braços.
Este tráfico odioso não se “limitou” à deportação de alguns milhões de homens e mulheres porque, por cada cativo, contavam-se geralmente dez mortos; calculando, no mínimo, em dez milhões o número de escravos deportados, significa cem milhões de seres humanos destruídos. Jamais o mundo conhecera semelhante genocídio.
Seria fácil traçar a genealogia das grandes dinastias capitalistas. O célebre Barclay´s Bank foi fundado por David e Alexandre Barcaly, traficantes de escravos, e com o lucro do seu tráfico, em 1756. Os criadores da Lloyds, rainha mundial dos seguros, eram proprietários de pequenos cafés quando se lançaram no tráfico de escravos, que fez a sua primeira fortuna. James Watt exprimiu o seu reconhecimento eterno aos negreiros que financiaram os seus estudos sobre a máquina a vapor, tal como Malthus imagina a sua “Teoria da População” que inocenta os crimes dos patrões.

Transcrito por Amândio G. Martins



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