quarta-feira, 25 de maio de 2016

Os meninos das mamãs

Os meninos das mamãs

 
Joaquim A. Moura
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A vontade de escrever é muita, e a revolta ainda é maior. Já outros o fizeram, mas se mais vozes cheias de palavras prudentes ecoarem que nem vacas voadoras, talvez a intenção e o propósito que anima o actual governo mais se afirmará, e não voltará atrás nem cede, com o projecto de acabar com a mama e o assalto aos contribuintes que pagam os luxos dos papás e dos meninos amarelos, que andam de casa para o colégio privado em topo de gama, ou em bólide bem estimado, e não sofra qualquer recuo havendo como há, alternativa com qualidade e à vontade do freguês, na Escola Pública. Quem observar como quem vê bem dos dois olhos, e com o cérebro, constata que naquela mole de crianças ungidas e arrebanhadas, e de pais arrogantes que se manifestam em defesa dos privilégios que têm sacado ao erário público, criado pelos contribuintes, empunhando cartazes feitos a régua e a esquadro, e coloridos pela cor que alerta para uma febre aburguesada, não se vêem entre eles operários da construção civil, mulheres de limpeza, rurais, precários de toda a ordem, mal pagos, assalariados do RSI, que se deslocam em bicicleta de pedal, mas antes rostos de quem é oriundo de empregos sem salários com atraso, funcionários de serviços bem remunerados, e até estatais ou autárquicos. Não há naquele ajuntamento de pais e filhos, gente com mãos grossas, gretadas, nem rostos cansados, angústiados por dívidas da luz e da água, rendas de casa, condomínios por saldar, mas donos de frigoríficos vazios e a cheirar a mofo por não funcionamento, e com os vedantes da porta apodrecidos, mais o fogão enferrujado e sem tacho ao lume. Esta gente que agora se manifesta é a mesma que nunca saiu à rua para defender outros estabelecimentos de ensino, professores, nem encerramento de serviços médicos, tribunais, ou postos de trabalho fabris, etc. Muito menos para o encerramento de "lixeiras educativas", excepto aquelas que os incomoda ao pé da porta, e por não ter qualidade e ser pública. Que não lhes serve, mas que estão bem para os outros. Agora que a mama dos subsídios, que os alimenta e os mantém num estatuto incompreensível, inadmissível, à custa do zé povinho, parece estar ameaçado, soltam o verniz e enfileiram-se com as crianças pela mão e mostram o lado malcriado e ofensivo em plena rua e para câmara de tv divulgar, abençoados pela igreja solidária e defensora também dos seus privilégios e pecaminosos aproveitamentos. Agora de hábito preto e não de amarelo. Nos colégios consagrados com nomes de santos que eles frequentam, julgamos nós que a primeira lição que lhes devia ser administrada, é aquela que os esclareceria de que, quem quer luxos paga-os. Os impostos que eles reclamam pagar para reivindicarem o direito a escolha e àquele ensino particular, são menores do que aqueles que nós outros pagamos ao Estado, para manter de pé o Ensino Público e o que eles pretendem manter em igualdade à nossa custa. Eles podem continuar a escolher o tipo de ensino que quiserem, mas que o paguem do seu bolso, e não através da exploração do zé varredor, que mal ganha para a côdea e anda a pé, e que mesmo assim conseguiu formar e licenciar os filhos nas Universidades. Alguns de muito gabarito e grande prestígio!

2 comentários:

  1. E quando se diz que a escola pública é mais barata, façam as contas às contas finais e juntem-lhe o que se paga em explicações para pôr os meninos a saber o que deveriam aprender na escola. Nos colégios os meninos vêm para casa com os TPC feitos; na escola pública os pais são chamados a colaborar com tempo e conhecimento, roubando ao convívio familiar muitas horas de acompanhamento pedagógico, que se deveria restringir ao espaço escolar.

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  2. Que bela fotografia amigo Mouraria! Uma fotografia com arte. Está lá tudo sobre esta sociedade ainda tão desigual. Os privilegiados a baterem-se para que o continuem a ser, à conta dos que o amigo, também, tão bem focou.

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