terça-feira, 10 de maio de 2016

RAÍZES DA SABEDORIA

                                                                 DOS LIVROS DA SAGESA
Algumas das primeiras obras da literatura egipcia são uma “doutrina da sagesa”. Estes autores apreciavam, sobretudo, a inteligência prática. “Deve conservar-se o sentido da medida; é preciso saber estar calado junto daqueles que são incapazes de guardar um segredo; é preciso não ser presumido, pois ninguém sabe o que lhe reserva o destino.”
Outro sage célebre do Antigo Império foi um vizir que viveu na 5ª dinastia: “Quando fores convidado para um repasto em casa de um homem que te é superior, come o que te oferecerem; não fixes o olhar nos pratos que o teu anfitrião tem diante de si; ocupa-te do que está no teu próprio prato; mantém os olhos baixos até que agrade ao teu anfitrião saudar-te e não fales senão quando ele te dirigir a palavra. Se queres conservar a amizade de uma família que te recebe, evita aproximar-te das mulheres da casa.
Quando alcançares a abastança casa-te e ama a tua mulher mais do que a tudo no mundo; se te tornares rico e poderoso depois de teres sido pobre e insignificante, não esqueças o passado; não te fies nos teus tesouros, que são um dom de Deus.
Uma outra doutrina da sagesa, que data provavelmente do séc. XX a.C. apresenta um interesse muito particular por ser um dos mais notáveis monumentos da cultura egípcia. O seu autor, Amenemope, escreveu o livro para o seu filho mais novo, recomendando-lhe modéstia e sensibilidade:
 “Estende a mão ao homem em desgraça e alimenta-o com o treu pão; sê calmo na presença dos teus adversários e inclina-te diante de quem te ofende; não te vingues de quem te odeia; apoia-te no braço de Deus, e a tua humildade e doçura abaterão os teus inimigos; não cobices o bem alheio e sê justo em tudo o que empreendes; sê bom quando receberes os impostos e não empregues medidas falsificadas quando pesares o trigo; não desloques nenhum marco quando medires um campo nem toques nos marcos do campo de uma viuva.
Um pouco de pão todos os dias e um coração contente vale mais que riqueza com remorso. Sê piedoso para com os pobres e os estrangeiros: Deus prefere quem honra o pobre àquele que leva às núvens os poderosos da Terra; todos os dias Deus destrói e constrói. Sê, portanto, humilde! Aquele que dobra a espinha não quebra os rins. Não te gabes junto de outro homem nem separes o teu coração da tua língua; não sejas amigo do tagarela nem te separes da tua dignidade.”


                      Transcrito por Amândio G. Martins

3 comentários:

  1. A sabedoria, o bom senso, o respeito pelo semelhante e o desejo de uma certa ordem social, são valores que se cultivam desde as sociedades mais antigas. Contudo, tal como hoje, as vozes mais sensatas não são ouvidas suficientemente. É bom trazer à luz do dia estes fenomenais documentos, que nos ajudam a perceber a evolução do pensamento humano. Obrigado ao Amigo Amândio, sempre atento, por mais este contributo para iluminar o nosso conhecimento.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Realmente, senhor Tapadinhas, são tantos os ensinamentos que nos chegaram de tempos tão distantes que é difícil perceber como ainda estamos tão atrasados

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