sexta-feira, 6 de maio de 2016

UMA SEMANA NA COREIA DO NORTE

A Coreia do Norte não é tão má como a pintam, nem tão boa como nos querem fazer crer. Esta é, para mim, a frase que melhor define a minha semana no país. Logo à chegada, no aeroporto, ficam-me com o telemóvel, um livro e o material de reportagem. Pedem-me para chamar o guia que eu não conheço. Quando ele chega explica que estou lá como jornalista. Percebem então o porquê do gravador, verificam que o livro é em português, devolvem-me tudo e abrem-nos a porta para o Estado mais fechado do mundo. Logo ali começa o meu dilema entre o que sei e o que vejo. Como conseguir o equilíbrio?
Na Coreia do Norte a dinastia Kim está presente em todos os aspetos da vida e não é raro ver gente ajoelhada em frente às estátuas ou fotografias dos líderes desaparecidos. No Palácio do Sol, onde estão os corpos embalsamados de pai e filho, há quem chore ainda as mortes que aconteceram em 1994 e 2011 - e todos somos obrigados a fazer três vénias perante os mausoléus.
Há nos coreanos uma ingenuidade que me parece pura, mas que pode também ser uma forma de não serem penalizados pelo partido. Cada um deles quer ser o que mais elogia os líderes, o que mais conviveu com eles e, por isso, fica a sensação que não são capazes de tomar uma decisão sem a ajuda de um dos Kim. Decisões como colocar um espelho numa parede ou auscultadores num computador tiveram de ser tomadas por Kim Jong-un.
Não há conversa que não comece sem uma referência ao presidente eterno, ao general ou ao marechal. Ao fim de uns dias, estas constantes referências tornam-se sufocantes, porque é impossível sair do hotel sem qualquer controlo, passear sozinha ou mesmo pensar alto no quarto. O hotel que, por sinal, não tinha 5.º andar e que há quem diga que é onde estão os serviços de escuta.
A Coreia desperta emoções contraditórias: por um lado sabemos da opressão e da loucura de Kim Jong-un, por outro (apesar de todos os exageros) é impossível não gostar do povo coreano, que é simpático, afável e hospitaleiro.
Visitei durante os sete dias locais que ficam à margem dos circuitos turísticos como escolas, hospitais, centros tecnológicos, uma biblioteca, uma fábrica e um lar. Foi esta última a que mais me marcou com as utentes a dançarem e a juntarem-me a elas. De lá trago um pedido de uma anciã: diga ao mundo que nós somos felizes.
Em Pyongyang, ao contrário do que me tinham dito, há carros novos e de marcas estrangeiras a circular nas grandes avenidas, há lojas e existem produtos de primeira necessidade. As pessoas são como nós, choram mas também se riem.
É a capital que serve de montra aos estrangeiros. Ali quer-se mostrar que o regime funciona e o povo acaba por ser favorecido.
Nas ruas vejo milhares de pessoas a circular e muitas outras a ensaiar para o desfile que marca a abertura do congresso do partido - que começa precisamente hoje. É uma altura em que os cidadãos são convidados a trabalhar com afinco em prol da comunidade. Há, por isso, soldados a lavrar os campos, cidadãos a apanhar ervas daninhas, outros a varrer o lixo que quase não existe - e há quem vá ao extremo de limpar o asfalto com um pano.
No dia em que começa o congresso do Partido dos Trabalhadores, trouxe sons e imagens da Coreia do Norte. Para ouvir e ver o que eu vi, ao longo do dia, na TSF.


Crónica  de Margarida Serra, Jornalista da TSF e transcrita nos Jornais DN e JN de hoje, 06.05.2016

 

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