quarta-feira, 22 de junho de 2016

Europa

Ficar na Europa ou sair dela? A poucos dias do referendo no Reino Unido a questão faz tremer muita gente e deixa os mercados à beira de um esgotamento nervoso. Os lideres europeus clamam a importância de pertencer à Europa, de contribuir para o fortalecimento do projecto europeu, de fazer nossos os Valores da Europa. Pessoalmente, não poderia estar mais de acordo com os nossos queridos lideres mas… que projecto, que Valores, que Europa?

                Olhando para a União Europeia fico confuso; o que une todos estes povos, que força contribui para que possam sonhar com um futuro comum, que raio de coisa faz de nós “europeus”? É uma questão cultural? Resumir-se-á a uma matriz religiosa? Ser “europeu” é uma imposição dos mercados? Creio que quando o debate se desenvolve são as questões económicas que ganham protagonismo. Os Valores são muito bonitos mas não criam dinamismo empresarial, o cristianismo resume-se a uma ladainha para acalmar os rebanhos, aquilo que realmente mexe com as consciências parece ser o vil metal. Mais nada.

                O que une um eslovaco a um português, um húngaro a um espanhol, um sueco a um cipriota, um inglês a um irlandês do Norte? O que haverá em comum que possa unir todos estes cidadãos? Está visto que o Valor da solidariedade não serve, que o amor pelo próximo é coisa sem o mínimo sentido, que o estudo da cultura clássica se esgotou há séculos; o património imaterial europeu é olhado com desdém, é uma treta. Já se falarmos de património material a coisa pia mais fino. A Economia parece ser a cola que vai pegando as partes que constituem esta nossa Europa. Mas é uma cola produzida com a saliva dos lideres que discursam perante as câmaras de televisão e agem na sombra fresca dos gabinetes. Esta Europa está colada com cuspo.

                Ficar na Europa ou sair dela? Regredir para um estádio medieval ou encarar a possibilidade de uma imensa nação do futuro? Talvez a questão seja outra, talvez devamos perguntar: o que é a Europa? Parece que antes de ser a designação de um continente foi nome de uma princesa fenícia que despertou a gula de Zeus que se transformou em touro e a raptou (terá isto alguma coisa a ver com aquele touro em Wall Street?). Se conseguirmos responder a esta pergunta talvez depois possamos questionar os povos sobre a sua vontade de pertencer ou não ao que quer que isto seja. Enquanto procuramos a resposta, um referendo como o britânico não passa de uma anedota de muito mau gosto.


Carta enviada à Directora do Público

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