quinta-feira, 7 de julho de 2016

FUNDAMENTOS DO CRISTIANISMO PRIMITIVO E SEUS ANTIGOS REDUTOS


Embora já existisse no extremo oriente (Índia-China) uma cultura religiosa de profunda sabedoria milênios antes do nascimento de Jesus, o povo hebreu, tido como o primeiro a professar o monoteísmo, foi quem recebeu inicialmente a mensagem cristã, mas, por estar mergulhado num intransigente fanatismo, não a aceitou em seu conteúdo essencial.
O Divino Mestre, mesmo diante do grande antagonismo, persistia em cuidar primordialmente dos israelitas, deixando para segundo plano outras nacionalidades, os chamados gentios, não obstante ter encontrado entre estes um militar romano que o encantou com enorme demonstração de maturidade espiritual, quando lhe suplicou a cura de um servo seu e, ao se dispor a atendê-lo em sua casa, dele então, com muita surpresa, ouviu o seguinte: Não é preciso e nem sou digno de tão honrosa visita, basta dizer ao verbo que meu empregado está enfermo e ele será curado.
Analisando o texto do Evangelho (Mateus, C.8 V.8), Huberto Rohden, um dos maiores pensadores cristãos contemporâneos, falecido em 1981, de quem tive a honra de ser aluno, afirma que o centurião romano não vê o Mestre apenas como o simples Jesus de Nazaré, mas como a encarnação do Cristo de Deus, por isso não lhe pede para proferir alguma palavra em benefício do doente distante, conforme as traduções vulgares, mas para dirigir um apelo ao Verbo divino nele encarnado que, em sua onipresença, curaria o servo, sem precisar de ir à sua residência, como de fato aconteceu.
É que o vocábulo latino Verbo, em grego Logos, se refere ao filho de Deus, o primogênito de todas as criaturas segundo o apóstolo Paulo, a própria razão espiritual, com todo o poder da divindade. Tanto no texto grego do primeiro século, como na tradução para o Latim, está escrito: “Dize ao Verbo”, porque a palavra aparece no caso dativo e não no acusativo (Logo e não Logon, Verbo e não Verbum).
A mensagem primitiva do cristianismo é uma doutrina universal de libertação de consciência que lembra Platão e jamais um tratado de organização hierárquica de cunho aristotélico. É, sim, Religião, mas na própria acepção da raiz da palavra, ou seja, religação, elo de ligação entre a criatura e o Criador, sem qualquer ritual sacramentalista ou crença em derramamento de sangue salvífico, que tenta substituir o sacrifício do bode expiatório do judaísmo pelo do cordeiro divino, à guisa de resgate de todos os pecados.
Enfim, o Cristo que se proclamou “o caminho, a verdade e a vida” não fundou seita religiosa, mas criou um roteiro de religiosidade libertadora, que, palmilhado pelo ser humano, com seu próprio esforço e ajuda divina, através dos anjos da espiritualidade (Espírito Santo) leva-o à autorrealização (salvação), na prática do amor a Deus e ao próximo como a si mesmo, que, segundo Jesus, resume todos os mandamentos da lei e dos profetas, conforme bem demonstra o símbolo da pequena cruz (+), que é mais na Matemática, positivo na Física e redenção religiosa, porquanto traduz o encontro da vertical da mística do amor a Deus com a horizontal da ética do amor ao próximo.
Na casa de retiro espiritual dirigida por Rohden, em Jundiaí S.P. estava escrito na parede do refeitório: “Realiza a mística de Deus, através da ética dos homens, na estética da natureza”.
O caminho é a prática da caridade, considerada como fundamental pelo chamado apóstolo dos gentios (I Coríntios, C.13, V.13), a qual, entretanto, não se confunde com meros atos de filantropia oriundos da vaidade humana, mas de uma permanente atitude de amor, sem o que não ocorre a redenção da criatura humana, conforme proclama Alan Kardec, o codificador da doutrina espírita (“Fora da Caridade não há salvação”).
O Cristo deve eclodir em cada criatura, na experiência individual do ser humano feito à imagem e semelhança de Deus, sem nenhuma necessidade de aguardar um suposto retorno do Divino Mestre, a chamada parusia. Ele nunca foi, está latente dentro de nós. Pode até voltar, mas em visão materializada, quando seu reino se estabelecer na Terra, e jamais em uma nova encarnação, como infantilmente apregoam alguns segmentos religiosos.
Através do apóstolo Paulo, o Cristianismo expande-se na Grécia, por toda a Ásia Menor e Europa. Cartas são dirigidas à Roma, Éfeso, Corinto, Filipos, Tessalônica, Colossos e à Galácia. O último livro bíblico, Apocalipse, que retrata uma visão profética do discípulo S. João, faz referência a sete comunidades cristãs da Ásia Menor, para cujos dirigentes registram-se mensagens da espiritualidade superior, com censuras a algumas visando ao seu aperfeiçoamento. São elas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia.
Esta última teve o seu pastor severamente acusado de não ser frio nem quente, mas apenas morno, e por isso poderia ser vomitado da boca divina, isto é, excluído, por causa de sua tibieza, indiferença, do rol dos escolhidos para o comando dos trabalhos em prol da evolução da humanidade.
Trata-se de uma antiga cidade da Frígia, cujas ruínas se encontram, atualmente, nas proximidades de Desnizli, perto de Éfeso na Turquia. Foi fundada, nos meados do século III A.C., por Antíoco II, em homenagem à esposa Laodice, que mais tarde o teria assassinado com veneno, conforme alguns historiadores, inclusive Cesare Cantú.
Uma outra Laodiceia, em cujas imediações (apenas 6 ks. ao norte) floresceu Ras-Shanra, sede do reino de Ugarit, um notável sítio arqueológico da antiguidade que remonta aos tempos dos fenícios, 1.800 anos A.C. descoberto em 1929, é a atual cidade de Latakia, capital de um Estado do mesmo nome, o mais importante porto da Síria, cuja fundação  se deu, no século IV A.C., pelo rei Seleuco Nicátor, em homenagem à sua mãe Laodice, bisavó de Antíoco II e da esposa assassina, que tinha o mesmo nome.
O citado rei, personagem real da peça teatral “El Rei Seleuco”, do famoso poeta clássico Camões da literatura portuguesa, foi general de Alexandre e depois da morte deste, tornou-se o soberano do reino da Síria, que abrangia toda a Ásia Menor e a Mesopotâmia. Por ele foram edificadas outras 34 cidades, entre as quais a Antioquia síria, um dos maiores núcleos da cristandade primeva, que, a partir de 1939, passou a pertencer à Turquia e se chama atualmente Antákia. Aí nasceu S. Lucas, autor do terceiro evangelho, que melhor retrata o nascimento de Jesus, como protótipo da nova humanidade (o “FILHO DO HOMEM”-  uma geração tipicamente humana causada por auras espirituais, que gera um corpo imortal). Por isso, o credo da Igreja Católica de Roma proclama que Jesus foi gerado e não feito (genitum et non factom), através da Virgem Maria, a tão querida N. S. Aparecida no Brasil e de Fátima em Portugal.  
A antiga Laodiceia síria – um nome tão bonito, mas que devido à pronuncia gutural da consoante “c” dura (som de K) da língua árabe, acabou se transformando em Laudkia e, finalmente, Latakia, em seu aportuguesamento. Esta cidade, que sofreu influência dos egípcios, gregos, bárbaros oriundos da Ásia Menor, romanos, bizantinos e dos chamados “cristãos” das cruzadas, erigiu-se mais tarde em grande núcleo de famílias cristãs, que sofreram grandes perseguições do domínio turco, sobretudo sob a ditadura cruel do sultão Abdul Hamid II (1876-1909).

Artigo publicado no jornal Diário da Manhã de Goiânia, Goiás- Brasil do dia 07/07/2016, pag. 6, caderno Opinião Pública, podendo ser visto no site: www.dm.com.br.
A autor é escritor e professor aposentado de história e de língua portuguesa no Brasil.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Caro(a) leitor(a), o seu comentário é sempre muito bem-vindo, desde que o faça sem recorrer a insultos e/ou a ameaças a quem quer que seja. Não serão considerados os comentários anónimos. Obrigado.