sábado, 9 de julho de 2016

REPELENTE






Enquanto o povo come caracóis e tremoça o tremoço, roendo unhas, perdigotando impropérios à mãe do árbitro, limpando a fuça no cachecol comprado no chinês com as quinas invertidas, na posição errada, ele assiste ao jogo, ele faz e decide o resultado dos jogos, esparramado com aprumo numa poltrona nos píncaros do mundo, numa penthouse de um arranha-céus tão subido nas alturas que faz cócegas aos deuses quando estes, distraídos ou entorpecidos deixam os pés nus descaírem das nuvens.
Barrigudo, narciso mal jeitoso, poderosíssimo e prémio de melhor entrada para o vocábulo “egotista” no dicionário dos sinónimos.
Nas tintas para tudo isso, que o achem assim, que lhe lancem asneiras e chamem nomes inadequados. Ele é um vampiro, e estes alimentam-se de sangue dos homens não de sentimentos, e não ouvem, muito menos os sussurros do mundo.
Senhor de um planeta que não vive os seus melhores dias: desanimou, embeiçou, sepiou-se de castanho deprimindo.
Que nome se dá a quem abandona o irmão entubado e ligado à máquina da miséria, para se ir governar fora daqui? Que apelido pode ter quem se une a um bando que urde uma falácia para fazer mais uma guerra lucrativa no mundo? É o quê o ser que do alto de um púlpito azul carregado de estrelas falsas, discursa e discursa e vê o seu povo, ser violentado – fodido e a doer muito, que não há outra forma de o dizer - olhando para o lado porque não é nada com ele?
Se este povo tem nomes de homens e mulheres que pelo seu exemplo são o orgulho do seu cartão de identidade, este, é dos que se alguém perguntar, só fica bem dizer que se desconhece. Português não é, não somos gente dessas laias.
Sabemos que os tempos andam epiléticos, põem as palavras doidas – ou drogadas - perdem os seus significados. Já não valem o que diziam querer dizer. “Irrevogável”, “traição”, “trapaça”, “diz-que-disse”, são das mais aloucadas, nem se acreditam a elas próprias.
“Vergonha na cara”, que não é uma palavra mas uma frase complexa, bateu no fundo, não significa nada, zero.

Chega o momento que a poeira da dúvida enevoa o pensamento. O que está certo? O que está errado? Mas é precisamente agora que devemos afinar a nossa máquina de teclar pensamentos. Só a nossa autonomia crítica nos pode assegurar conforto e honestidade, tudo o resto é de desconfiar, e só criando as condições para dar ao maior número possível de pessoas essa capacidade crítica, que é o afinar da máquina, se podem desligar as incubadores desses seres horrendos e com halitose que ditam os resultados dos jogos lá no cimo das suas poltronas. 

2 comentários:

  1. Caro Luís,
    Parabéns pelo belo e claríssimo texto. Fez-me lembrar Karl Valentin, a quem se perdoa o exagero artístico: E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LO?
    Abraço.

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