terça-feira, 30 de agosto de 2016

A TERRA DOS MANUÉIS E AS UNIVERSIDADES DE VERÃO, NOVELA APAIXONADA





Episódio 1

“Caro Manuel é um gosto recebê-lo. Em nome de todos dou-lhe as boas-vindas, esta é a sua casa.”
“Caro Manuel o prazer é meu.”
“O bom senso trouxe-o para junto de nós, verá que a nossa verdade, que é inabalável, é a que melhor lhe convém.”
“Sem dúvida Manuel anseio conhecer-vos melhor, estar ao nível das vossas expectativas, contribuir com o meu empenho para o nosso sucesso.”
“Em nome dos nossos correligionários agradeço Manuel, isto é uma irmandade e estamos aqui para as vitórias e as derrotas, que praticamente não as temos.”
“É uma lisonja pertencer a este colectivo, que nos orgulha a todos.”
“Na sessão desta noite faremos a sua apresentação, nada de muito formal.”
“Entretanto pode passar pela secretaria, o Manuel secretário completa a sua inscrição. O seu contributo, Manuel, é fundamental. Só sobrevivemos das quotizações de alguns beneméritos de grande generosidade e dos votos nas urnas.”
“Darei o meu melhor, sinto-me honrado por pertencer ao grupo dos manuéis e já agora, se me é permitido, digo que é uma boa política, justa, o Estado subvencionar os votos.”
“Sem dúvida Manuel vejo que estamos em sintonia, as suas ideias vão ser de grande utilidade. O voto é a fonte dos nossos proveitos: quantos mais, mais recebemos e por sua vez melhores campanhas podemos fazer para animar as pessoas a votarem em nós – é isso a democracia.”
“Confrade Manuel posso tratá-lo assim? No que puder contem comigo para passar a palavra. É certo que não somos deuses, mas na terra é como se o fossemos, e assim temos a missão que é como um desígnio superior de encaminhar as pessoas no caminho certo, para o seu bem e o da cidade.”
“Ficamos muito contentes com as suas sábias palavras. Todos os manuéis devem ser nossos. São poucos os que ainda não se inscreveram, por preguiça, mas temos os seus contactos e em breve estarão connosco.”
“Folgo em saber que estou no sítio certo.”
“Graças a si Manuel, e aos que se juntaram a esta nobre causa, podemos dizer que a nossa sociedade entrou definitivamente na fase de maturidade democrática.”
“Sim, o povo é sábio, sabe bem o que melhor lhe interessa, e é com os manuéis, que os manuéis estão bem.”
“Temos Manuel! Esse slogan é bom!”
“Nesta fase inicial, até que nos conheçamos melhor não diga muito, vá ouvindo. É a ouvir que se aprende. E se aprender bem, tem um futuro de oportunidades pela frente.”
“Sou todo ouvidos, não estou aqui para outra coisa!”
“Trate então da sua inscrição que a nossa secretaria fecha impreterivelmente às seis horas em ponto.”
“E logo cá o esperamos pelas 21h00, não se pede que venha a rigor, mas alguma contenção na fatiota, que isto não é nenhum regabofe.”
“A sessão vai ser orientada pelo nosso Secretário-Geral, o Senhor Doutor Manuel, que vai falar de um tema muito importante: A comunicação social e a sociedade.
“A nossa agremiação tem ideias límpidas, como água, sobre este assunto, e felizmente que os nossos confrades as entendem e interiorizam convenientemente, mas nunca é de mais relembrar a delicadeza deste tema. Uma comunicação sem uma supervisão atenta é uma bomba relógio, pronta a explodir a qualquer momento. Pode causar estragos irreparáveis na nossa pacífica sociedade e isso não queremos, porque somos cuidadores.”
“O que as pessoas precisam não é saber dos andamentos do mundo, elas querem é uma história bem contada. Até mais logo Manuel.”
À hora marcada Manuel entrou no grande salão, com um fato cinzento que não compromete e uma gravata da mesma cor monótona. Um lenço com flores de tons quentes a despontar da lapela do casaco, assinalava um pequeno apontamento de irreverência.
A sala estava à cunha de manuéis, animados na repetição dos cânticos e dos slogans do partido, ao mesmo tempo que esvoaçavam as bandeirolas com a sigla do grupo, um grande M, a preto num fundo azul água.
“Esses lugares estão reservados.”
“Convidados?”
“Não, é para os candidatos a sucessores do líder.”
Sentou-se bastante mais atrás entretendo-se entrementes com a dinâmica da sala.
Se os decibéis diminuíam, no palco, um jovem assertivo, mantinha em alta os níveis de excitação do instante.
Manuel reconheceu vizinhos, colegas de trabalho, clientes do café que frequentava, varrendo com o olhar o auditório, absorvendo toda aquela novidade, o seu encontro no partido, a sua iniciação para um mundo novo, que era obrigatório pertencer, cheio de expectativas e ilusões.
Do nada, a gritaria agora disforme, atingiu limites obscenos, com os manuéis histéricos a aplaudirem o mestre que entrava em apoteose acenando com uma mão convencida e uma cara séria para os apaniguados.
Tomou lugar no púlpito, rodou ligeiramente um copo com água meio cheio, deu indeléveis pancadas com o dedo indicador no microfone e disse:
“Estimados concidadãos, a liberdade de expressão é um caminho perigoso. Perdem-se mais amigos do que se ganha simpatia. Se um individuo se descontrola a dizer tudo o que lhe apetece dizer, por impulso, arrisca-se a causar muitos danos a todos os que o rodeiam, a ofender gratuitamente, a derramar ignomínia como ácido corrosivo. Um comportamento assim causa desarmonia na vida social. É a ofensa, a punhalada, a jactância, o vernáculo a cheirar a enxofre. Nós não podemos tolerar essa expressão doentia de uns poucos, e por isso fizemos regras e fazemos por que se façam cumprir. Os meios de comunicação, os jornais, as rádios, as televisões devem ser rigorosos e seguir o manual das boas práticas, porque apesar da nossa cuidadosa supervisão há sempre uma notícia que passa desconforme e que se não for travada a tempo pode geral a maior das confusões.”
“O povo sabe que estamos aqui para transformar a sua vida num passeio de belos prazeres. Mas para que isso seja assim, tem que depositar toda a sua confiança em nós para podermos realizarmos o trabalho de bastidores, que vai abrir caminho para que num futuro próximo ele possa gozar essa vida despreocupada e farta.”
“A liberdade, é boa a conta-gotas. Se for a mais causa anarquia, e esta põe nos a todos muito nervosos, porque é um veneno para a sociedade.”
“A bem da nação, a comunicação social só deve passar as notícias boas, as más cá estamos para as purgar.”
“É por concordarem, concordarmos, nas acções do governo, sem discussão nem bota-abaixo, que podemos trabalhar folgadamente, na construção de um mundo melhor, que é o que já estamos a viver.”
A casa a dar sinais de vir abaixo, uma ovação estrondosa, pessoas a abraçarem-se emotivamente, desfalecimentos de emoção, ou do calor que era elevado.
O homem tem o dom da palavra, é um hipnotizador, e sabe disso.
“Reflictam bem nas minhas palavras e compreendam que não há necessidade de criticar, nem de dar opiniões que confundam as mentes mais fracas. O mundo não precisa de opiniões, precisa de dogmas feitos por homens que saibam guiar.”
“Os tempos em que os jornais ocupavam espaço com as cartas dos leitores e outras rubricas envelhecidas terminaram. Esses jornais não sobreviveram aos tempos modernos. O Presente pede e exige uma escrita descomprometida, feita por gente jovem, sem preconceitos e ideias bafientas, que saiba veicular correctamente as mensagens, que siga a norma e os cânones instituídos.”
“As pessoas se quiserem dar uma opinião – e já o disse – que nos enviem através das redes, e deixem os jornais para quem sabem, e para o que servem: transmitir os acontecimentos sem emoção, mas com informação. E se a noticia não for fácil de dar, mais uma vez, cá estamos nós para compor o texto, torná-lo claro e entendível a todos.”
Agora é que a casa se abate.
“O Manuel é o maior, o Manuel é o melhor”, grita-se em climax.

O Manuel, eu, sinto-me preenchido, feliz. Inscrevi-me a tempo e não estou nada arrependido, na universidade de verão. Nos próximos dias temas sensíveis vão ser abordados por manuéis influentes, homens e poucas mulheres, de carreiras sólidas na política e no empreendedorismo. São eles os melhores exemplos que dispomos de abnegação pela causa pública. Por isso estou  curioso pelas prelecções dos próximos dias, de que vos darei conta.

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