sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O grito mudo das cotovias




O grito mudo das cotovias


*Cristiane Lisita
                                                                  

           

           

        As cotovias possuem por habitat planícies, de coberto vegetal herbáceo, que derivam do acúmulo de elementos rochosos e orgânicos carregados pelos mares, pelos rios, a exemplo da planície do Tejo que se junta à do Sado. Essas aves vivem desde os campos às altitudes. Fazem-se presentes, ainda, nas turfeiras cujos ecossistemas de zonas húmidas são comuns no interior dos Açores exibindo solos impermeáveis, o que provoca o aparecimento de pântanos. Nas charnecas, onde os matos são secos, com predominância de uma grande biodiversidade da fauna, esses pássaros se estendem sobre o amarelo a colorir o chão de abril.

            Na proximidade do inverno migram abandonando as zonas frias, buscando o sul da Europa ou norte da África e Médio Oriente. São alhandras cujos voos ondulantes as conduzem ao infindável, nas ascensões lentas e declinadas rápidas, e, outra vez, ondeantes ascendem até se reduzirem a alguns pontos no céu. Os sonidos harmoniosos duram minutos de alegria. Em um de seus poemas, Shelley escreveu sobre a cotovia: “Mais alto ainda, sempre mais alto, De nossa terra tu te arremessas, Qual vapor inflamado; Tua asa vence o abismo azul, E sobes, cantando e subindo cantas sempre”. Uma prece à vida, que se elevaria a Deus.

Em Michelet a cotovia se converte numa insígnia moral e política: a alegria de um ser invisível que almejaria galardoar o mundo. Manifesta-se como a imagem do trabalhador, em especial o lavrador, que germina o sulco da terra, a explodir em florejas tal qual útero a conceber o feto.  Assim, a ave esconde seu ninho numa cova no chão, sob as ervas, construindo-o com ramos e folhas, cuidadosamente atapetado com penas.  Bachelard assinala que a cotovia transforma-se, deste modo, em alegoria "de transparência, de dura matéria, de grito".

O grito mudo das cotovias ecoa, agora, entre as chamas que ardem em Portugal. Dezenas e dezenas de focos de fogo se esparramam nesse mês de agosto, destruindo parte da fauna, da flora, de tantos significativos sistemas como o Parque Nacional da Peneda- Gerês  tido pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera. Trata-se de uma preciosa beleza paisagística, com acentuado valor ecológico e etnográfico. Do mesmo modo, as chamas atingem áreas de Vila Real situada na Região Norte e sub-região do Douro e na antiga província de Trás-os-Montes e Alto Douro, encravada em um local privilegiado das Escarpas do Corgo, com suas casas abrasonadas, cintilando ao fundo a serra do Alvão e a do Marão, esta, um dia cantada em versos e prosa por Miguel Torga.

O grito mudo das cotovias denuncia o fogo, muitas vezes alvitre da mão humana inconsequente, alastrado pelo Peso da Régua, Caldas da Rainha, Loures, Peniche, Aveiro, Travanca, Lisboa, Viana do Castelo, Godim e tantas outras regiões, mas igualmente em razão das altas temperaturas e do vento da exclusão social latente, sucumbindo os agricultores nas suas lavouras de subsistência. O uso da terra na sua função social precípua, e, ademais, a efetividade das políticas agrárias estão aquém das necessidades daqueles pequenos e médios produtores que fornecem alimento à mesa de milhões de cidadãos. O despovoamento em decorrência do êxodo rural, o envelhecimento da população, a redução nos ofícios da agricultura pela agroindústria diante da propalada crise, a falta de estímulo para um turismo rural sustentável, e a memória camponesa tendente a desaparecer, afetam sistematicamente o mundo rural, acarretando circunstâncias drásticas, entre elas os incêndios que ora decorrem.

O grito mudo das cotovias quer se revelar nessa “dura matéria” de Bachelard, denunciando que ainda há um canto de alegria.  As aves anseiam subir ondeantes e flamejantes no cerúleo espaço: onde possam contemplar e desfrutar dos rios de água cristalina, onde a vista descansa entre outeiros, choupos, sobreiros e giestas. Querem observar seus ninhos a suscitar vida no solo fecundo.  Ainda, como prevê Michelet, hão de laurear a terra. Pretendem ser a imagem do lavrador a cuidar da alfombra verde da vegetação atlântica, e da vegetação mediterrânea no sul do Tejo, sob o perfume dos alecrins. O grito mudo das cotovias aspira ecoar, descortinar da fumaça negra, as asas, quiçá, no devir dourado de outro rural.

*Cristiane Lisita é escritora, jornalista, advogada.


6 comentários:

  1. Desculpe-me este desabafo: o meu 'grito' também já ninguém ouve.

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  2. Esta, é mais uma espécie em vias de extinção devido à acção predadora humana. Havia tantas aqui há 30/40 anos! Parabéns à autora do excelente texto!

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  3. Parabéns pela percepção e inteligência textual. Magnífico!

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  4. Belo texto. Conhecedora da realidade rural, evoca um grito que precisa ser escutado. Muito bem.

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