terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Tridente e o Arpão triunfam

Escreve neste jornal um membro da comissão política nacional do CDS, Miguel Alvim, de sua graça. Na passada terça-feira assinou um texto intitulado “O Potemkin falhou”, texto esse, a meu ver, um pouco insultuoso para quem, como eu, é simpatizante dos partidos de esquerda com assento na Assembleia da República. Começa a sua prosa colando esses partidos a “levantamentos, revoluções de massas e fuzilamentos sumários um pouco por todo o mundo” nos últimos 60 anos. Não cai lá muito bem ler uma afirmação deste calibre, mais gratuita que um copo de água ao balcão de uma tasca; o que pretende Alvim insinuar? Talvez seja apenas fraca capacidade de comunicação mas é chato. Prossegue o texto desancando forte e feio no Bloco de Esquerda e no PCP com agreste deselegância mas, em boa verdade, não consta que a elegância seja apanágio dos trauliteiros de serviço, sejam eles de esquerda ou de direita.


Escuso-me a comentar certas pretensas lições sobre Democracia que o escriba vai oferecendo ao leitor para me fixar na ideia extraordinária de que “Em Portugal o salazarismo estatista chama-se hoje maioria de esquerda. Mas é preciso tempo para amadurecer e interiorizar esta verdade (…)” . O que Alvim parece ignorar é que, da mesma forma que ele vê em cada esquerdista um putativo herdeiro dos pelotões de fuzilamento, os esquerdistas vêem-no a ele como um putativo herdeiro dos vampiros exploradores das classes trabalhadoras que medraram à sombra tutelar do ditador de Santa Comba Dão. Os estereótipos incomodam toda a gente. A incapacidade governativa que Alvim descortina na “geringonça” foi já amplamente demonstrada pelo CDS, partido minoritário que se vai chegando aos cadeirões do conselho de ministros parasitando a proverbial incongruência política do PPD/PSD. E, em termos comparativos, Paulo Portas, sempre demonstrou tiques de liderança bem mais salazaristas do que os que Alvim delirantemente vislumbra nas bancadas da actual maioria. Mas, pronto, uma mudança de líder num partido cuja grande vocação é o poder e a principal linha de orientação política é uma mistura de Deus-nos-valha com depois-logo-se-vê, constitui uma promessa de grandes feitos e inestimáveis serviços prestados às classes trabalhadoras e aos desfavorecidos do sistema. Não sei se Alvim pertencia à comissão política nos tempos de Paulo Portas mas, sinceramente, tinha uma certa curiosidade em saber o que fazia essa assembleia quando o chefe chefiava.

carta enviada à direcção do Público a 2 de Agosto de 2016

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