segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A mansão está à venda


O Engenheiro Geraldo completou o curso num percurso de enormes dificuldades. Numa casa modesta cresceu e viveu, na companhia dos pais e dos irmãos, que labutavam, sem horários, para manter uma vida digna. Geraldo sonhou e conseguiu, após anos de trabalho honesto e poupança, a casa dos seus sonhos. A casa enorme, com todos os requintes de bem-estar, jardins, piscina, garagem e apartamento de apoio, é agora o lar desse sonhador e amigo da família, pois os seus velhos pais também a habitam.
Os sonhos quando passam a realidades, por vezes, tornam-se demasiado onerosos. A casa, que foi crismada de mansão, com todas as modernices que a compõem, que ocupou dezenas de operários e artistas na sua construção, tudo gente honesta a quem o Estado cobrou os impostos e taxas, já ultrapassa o valor de um milhão de euros e paga às autoridades um IMI brutal, ou seja uma taxa correspondente. Para manter “saudável”, prestimosa e útil a mansão, são necessárias reparações de manutenção e pessoal permanente nos jardins e piscina, na cozinha e na segurança, tudo dependente do rendimento que o engenheiro aufere na empresa donde é sócio.
O Governo, sequioso de impostos, e porque não tem em conta o bem-estar dos cidadãos, resolveu saquear a propriedade com uma taxa de 5%, sobre o valor estimado em 1.200.000€, de que resulta um encargo de 60.000€ anuais, mais propriamente 5.000€ mensais. Para fazer frente ao encargo fiscal, Geraldo despediu o jardineiro, o motorista e reduziu os serviços externos nos contratos a que estava ligado. O encargo social do desemprego tem agora mais dois componentes. A empresa, da qual o engenheiro é administrador, está em dificuldade económica, devido à crise generalizada do sector e, possivelmente, entrará em processo de falência.
Geraldo é um cidadão honesto, uma espécie quase rara na sociedade actual, e quer vender a mansão, porque não pode suportar os encargos com a sua manutenção. Já anunciou a venda em tudo o que é sítio, mas dado o seu elevado preço, acrescido de IMI, mais brutal imposto mensal de 5.000€, só um louco a compraria. Sem comprador, sobrecarregada de impostos vencidos, e com juros e multas acrescidas, a mansão irá degradar-se e, com o decorrer do tempo, ficará para o Estado.
Esta efabulação pode ser um retrato de algumas situações que o futuro reserva na vida portuguesa, e que é consequência da ganância cega das autoridades que nos governam, que não olham a meios e não respeitam os cidadãos. Já taxavam e criavam impostos em tudo quanto mexe, mas querem ir mais longe, entrando na casa do contribuinte, que tem de pagar, escandalosamente, uma taxa extra, sobre a casa onde habita, desde que seja confortável ou bem localizada.

Joaquim Carreira Tapadinhas, Montijo – BI 9613 – TM 962354823 

4 comentários:

  1. Sem comentários,mesmo!!!

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  2. Boa efabulação. Apesar de tudo o que aconteceu aos portugueses e ainda virá a acontecer, acho que ninguém espera que a taxa máxima do IMI passe de 0,5% para 5% (aumento de 1.000 por cento?). Também acho muito difícil que um engenheiro de baixa extracção social, em Portugal, consiga meter-se no meio dos cerca de 8 mil portugueses que têm esse tipo de casa, tanto mais que a maioria destes, como bem sabemos, tem riqueza antiga e herdada. Mas que a efabulação é boa, é sim senhor.
    Um abraço.

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  3. O que se deseja salientar nesta "história" é a cegueira na cobrança exagerada de impostos e taxas, pois o nosso país está no podium na cobrança destes e os governos não têm em conta os rendimentos que os contribuintes auferem. Confrontamos na carga fiscal a Suécia, a Dinamarca, a Alemanha, etc., mas não os salários que nesses países são pagos, tal como benefícios sociais, que, nalguns casos, vão até ao ensino universitário gratuito. Desde as cúpulas às bases, o nosso aparelho governamental é demasiado oneroso, pois tem excesso de departamentos e secções paralelas, que aumentam a burocracia e mais não são que refúgio, para albergar as clientelas políticas e partidárias. O rol é enorme, mas pouco adianta fazer a leitura, porque, aos responsáveis, não interessa reduzi-lo. Um abraço à "rapaziada", que continua a lutar, na esperança de um mundo melhor.

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  4. Publicado, hoje, dia 1 de Outubro, no jornal "Expresso", com ligeiros cortes, na coluna de Opinião - Cartas dos Leitores.

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