segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O DESPERTAR DA FÊNIX







O despertar da fênix 

*Cristiane Lisita




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         A fênix ocupa espaço no imaginário coletivo como símbolo de imortalidade e de renascença. Uma ave de penas brilhantes, douradas e avermelhadas, descrita pelo poeta persa sufista Farid al-Din Attar, em  A Conferência dos Pássaros, de 1177:  “Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas.”

Muitas vezes é preciso seguir o exemplo da fênix. Lembrar que “cada nota lamentosa que emite é uma evidência de sua alma imaculada”, quiçá do seu passado, de glórias escarlates, nunca esquecido. Também é uma evidência do “sopro da última trombeta” que instiga a deixar a efemeridade das coisas, mas igualmente convida a ouvir a agonia dos pássaros que aqui jazem ao perceber a morte da fênix.  Nesse paralelo, diante da crise, que se nos defronta, sob ventos ardis que aumentaram as labaredas da fogueira, a ave pranteia, mas no seu alento quer reverdecer, içar suas asas depois de o berço chamejar.

É preciso saber o quão se está disposto a se comprometer com a nova marcha política e socioeconômica. Não ser indiferente nessa ‘Conferência’. O que dizer, por exemplo, da construção naval, atividade que outrora empregou mais de 26 mil trabalhadores e, quatro décadas posteriores, reduziu esse número a mil, devido à interferência dos construtores asiáticos, sobrando tão somente os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, com uma intensa perda operacional acumulada? O que dizer dos 500 mil jovens que abandonaram o país, nos últimos anos, por falta de oportunidades de trabalho?  Representam eles a menor parcela na pirâmide social, abaixo dos 20%.

O que dizer das escolas públicas encurtadas pela metade nos derradeiros 15 anos e de tantos outros postos de trabalhos fechados, como o de jornalista, desde o início da segunda década do século XXI, em quase 20%? Os campos desertificados com o incansável êxodo, nos quais os encanecidos camponeses não veem seus filhos, hoje, em algum lugar de qualquer cidade. O país a se endividar.

O que dizer do canto triste, “na amarga dor da morte”? Poetizaria aquele autor: a esperança nunca tem fim. É tempo de fortalecer! Parece-me escutar o cântico da fênix, imbuída de mirra dourada e pedaços de canela, a buscar o seu ressurgir, demudando o dramático episódio em virtude, conhecimento, leveza. Tal como os pássaros de Farid, sobrevoemos as sete colinas, e os sete vales, para alcançar o ‘Monte Qaf’, e quem sabe, enfim, a ave de fogo reviva nos seus 888 anos.


*Cristiane Lisita (jornalista, escritora, advogada. Pós-PhD pela Universidade de Coimbra)

3 comentários:

  1. Estes artigos da Cristiane são autênticas lições que ajudam a voar o universo do pensamento. Obrigado pela colaboração, que nos ajuda a levantar os pés da terra.

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  2. "Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas." Que as nossas esperanças se renovem a cada dia neste mundo ensandecido pelas crises política, social, financeira, moral e intelectual. Parabéns pelo artigo.


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