sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O PROFUNDO SENTIDO DA PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO E DO FILHO EGOÍSTA



Esta parábola somente narrada por Lucas (15.11) quase sempre é analisada apenas quanto à conduta do jovem filho pródigo, omitindo-se a grande maioria dos oradores e escritores relativamente ao comportamento mesquinho do filho mais velho.
Disse Jesus que um senhor possuía dois filhos, e o mais novo lhe pedira parte do que lhe cabia por herança. O generoso pai distribuiu recursos para ambos, e aquele que havia feito o pedido partiu para as aventuras do mundo e, depois de esbanjar todo o seu dinheiro numa vida dissoluta, tornou-se um miserável cuidador de porcos, trabalhando como verdadeiro escravo, com falta até de alimentos, a ponto de invejar os animais que comiam fartamente suas alfarrobas (uma espécie de fruto indigesto). Aí então, entrou em si numa profunda reflexão, e lembrou-se de que os empregados de seu pai eram bem tratados, por isso resolveu voltar à casa paterna para, humildemente, suplicar um emprego, e qual não foi sua surpresa, ao ser recebido festivamente.
O bondoso patriarca ficou muito alegre por ter reencontrado o filho perdido, enquanto o outro bastante revoltado reclamava que sempre se mantivera na companhia paterna, realizando todos os afazeres, e nunca havia ganhado um simples cabrito, e o estróina, a quem se referia não como irmão, mas como filho do pai, era festejado até com churrasco de boi gordo, após ter gasto com prostitutas tudo o que recebera. E o velho progenitor tentou aplacar a revolta do seu primogênito, dizendo: “Meu filho, você sempre esteve comigo, nunca lhe faltou nada e tudo o que tenho é seu”.
Esta parábola é tida pelos exegetas como a expressão máxima da bondade divina, que sempre acolhe o pecador arrependido, embora aqui não se trate de um simples arrependimento, mas de uma transmentalização, de uma conversão. Santa Terezinha afirmava que o “tolo se arrepende e o sábio se corrige”. No presente caso, como está no texto escrito por Lucas originalmente na língua grega, o jovem entrou em si e não caiu em si, como aparece nas traduções vulgares, isto é, houve uma superação do ego humano para uma entrada no eu divino que trazemos dentro de nós.
A afirmação dos textos evangélicos, de que há mais alegria no céu quando um pecador se converte do que um justo se penitencia, refere-se a uma transformação definitiva, e não a um simples arrependimento.
Segundo o grande cientista e filósofo Huberto Rhoden, de quem tive a honra de ser aluno, um dos maiores pensadores cristãos contemporâneos, falecido em 1981, esta parábola tem um alcance muito profundo, porquanto retrata a “evolução do homem através de erros para a verdade divina”.
No seu livro “Sabedoria das Parábolas”, afirma que, de acordo com o texto grego original, onde aparece a palavra “ousia” (natureza) do verbo “einai” que significa ser, o filho mais jovem não pede ao pai parte de bens materiais, mas a parte que lhe cabe no pleno exercício do seu ser, isto é, o direito natural de comandar a sua própria vida, de vivê-la como lhe aprouver no exercício de seu livre arbítrio. Pede, afinal, sua emancipação.
O pai não quis aprisionar o filho e, sem qualquer relutância, o liberou, procedendo da mesma forma com o mais velho, que preferiu continuar na companhia paterna. Não houve entrega compulsória de haveres, para nenhum dos filhos, tanto isso é verdade que, ao contrário, haveria contradição na história, porque, se ambos houvessem recebido qualquer coisa, não teria dito o mais velho que nunca ganhara um simples cabrito, a não ser que tivesse obtido o quinhão a que teria direito, a título de antecipação de herança, e não considerasse isso um donativo.
O pai generoso pode ter doado espontaneamente algum recurso para o filho que apenas reclamou sua emancipação, e este também deveria ter suas economias próprias. Seja como for, não houve prejuízo algum para o outro filho, até porque as leis judaicas permitiam o mais jovem pleitear um terço do que caberia ao primogênito.
Já na adolescência, queria dizer adeus à infância e ao próprio lar, em busca de outros caminhos na existência, e, tal como Ulisses da lenda grega que voltou para casa, depois dos tropeços e suas aventuras, o jovem experimentou os prazeres mundanos e os castigos do sofrimento, levantou de sua queda e retornou à casa do pai para ser um humilde servo, com a experiência que o vacinaria para sempre contra os perigos de uma recaída.
Os caminhos em busca da evolução para a conquista da autorrealização da criatura humana são diversos, mas todos devem convergir para o encontro do amor, que resume toda lei e os profetas, como afirmou o divino mestre. Alguns se dedicam a uma atividade religiosa produtiva em benefício do próximo, outros se entregam às tarefas do trabalho de toda espécie para a manutenção da família e há os que triunfam na perigosa senda das riquezas, colocando-as a serviço do bem da coletividade, criando empregos para muita gente nas mais diversas atividades. Enfim é o trabalho, sob o qual estamos protegidos das tentações, como assevera Coelho Neto, em seus mandamentos cívicos.
Existem também as ovelhas desgarradas que só aprendem o reto agir após as tortuosas jornadas do erro, no excessivo gozo dos prazeres, como aconteceu com o chamado filho pródigo. Teve que passar pelo “pecado necessário” para alcançar a redenção, como bem expressa o hino “Exultet”, que se canta nas solenidades da véspera da páscoa nas cerimônias da Igreja Católica: “O felix culpa! O vere necessarium Adam peccatum, quod talem et tantum meruisti Redeptorem!” (Ó culpa feliz! Ó pecado de Adão realmente necessário, que tal e tão grande Redentor mereceste!)
Conforme Rhoden, “em face da teologia analítica, isto é blasfemo, mas, à luz da visão mística intuitiva, é sublime. Culpa e pecado simbolizam o estágio evolutivo do homem através do ego em demanda do Eu. A nossa humanidade da ego-personalidade está no plano horizontal da “culpa feliz” e do “pecado necessário”, falta-lhe superar esse plano e atingir a plenitude vertical da sua redenção”.
O tal de “pecado necessário” não deixa de ser uma rota de redenção, quando o pecador não mais o pratica, porque nele permanecer seria algo inferior, como desejar alimento de porcos.
O filho pródigo ainda não se tornara um homem autorrealizado, mas já tinha a seu favor a humildade, o reconhecimento dos seus erros e uma verdadeira conversão para novos rumos de progresso espiritual, enquanto seu irmão, o filho sovina, permanecia no egoísmo, reclamando recompensas por se julgar bom. Não há coisa pior que o complexo da virtuosidade. Não há remédio para o doente que acha que está bem. Temos que superar o inferno de nossas mazelas (ódio, inveja, ciúmes, etc) e também o céu de nossas virtudes. O amor que nos encaminha para a autorrealização não exige recompensa alguma. A justiça divina sobrepõe-se a todos os direitos humanos.
Analisando a conduta do filho mais velho, sob o título de “o filho egoísta”, assim se expressa, através da psicografia do famoso médium Francisco Cândido Xavier, o sábio espírito Emanuel, que teria sido o grande missionário Padre Manoel da Nóbrega, que veio de Portugal e fundou São Paulo, a maior cidade da América Latina: “De maneira geral apenas se enxerga o filho que abandonou o lar paterno, a fim de viver nas estroinices do escândalo, tornando-se credor de todas as punições; raros conseguem fixar o pensamento na conduta condenável do irmão que permanecia sob o teto familiar, não menos passível de repreensão. Observando a generosidade paterna, os sentimentos inferiores que o animam sobem à tona e ei-lo na demonstração de sovinice. Contraria-o a vibração de amor reinante no ambiente doméstico; alega, como autêntico preguiçoso, os anos de serviço em família e desrespeita o genitor, incapaz de compartilhar com ele o justo contentamento. Esse tipo de homem egoísta é muito vulgar nos quadros da vida. Ante o bem-estar e a alegria dos outros, revolta-se e sofre, através da secura que o aniquila e do ciúme que o envenena. Lendo a parábola com atenção, ignoramos qual dos filhos é o mais infortunado, se o pródigo, se o egoísta, mas atrevemo-nos a crer na imensa infelicidade do segundo, porque o primeiro já possuía a bênção do remorso em seu favor” (Livro “Pão Nosso”, 7ª edição, fls.325/326).
Esta parábola nos chama atenção para as diversas atitudes diante das coisas materiais. Há os que vivem na bipolaridade esquizofrênica de não se contentarem com nada. Ricos ou pobres compram tudo o que veem, acumulando bens desnecessários. São os estróinas. Existem pessoas que gastam o dinheiro que não possuem em compras de coisas supérfluas somente para exibição perante a sociedade de consumo. Por outro lado, há também os que vivem na usura, passando até privação, para guardarem muito dinheiro.
A filosofia helênica já proclamava no santuário de Apolo: “Meden  agan”( nem mais, nem menos),  a ideal situação mediana  que passou a figurar no brocardo latino – “in medio est virtus”, ou seja, a virtude está no meio. Nem o desperdício da gastança e tampouco a usura de muita poupança. Dizia, porém o cientista e pensador norte-americano Benjamim Franklin, inventor do para-raios, que para se tornar rico, não basta saber ganhar, mas sobretudo economizar.
A sabedoria popular, entretanto, segundo afirma a humilde senhora Noêmia Teodora Machado (dona Tita), mãe do ilustre médico, professor e orador, Dr. Delfino Machado,  “ser rico não é bom e ser pobre não presta, o melhor é ser remediado”: eis o meio termo dos filósofos gregos. Na introdução do Sermão da Montanha, proclama Jesus que deve haver um desprendimento, tanto das coisas que possuímos, como das que desejamos possuir. É o espírito de pobreza e não pobreza de espírito. Bem -  aventurados os pobres pelo o espírito ou em prol do espírito. Em latim a palavra aparece no caso ablativo- “spíritu”, em grego, no dativo-“pneumati”= para o espírito, e nunca no genitivo de ambas as línguas citadas.
Conforme o filósofo chinês Lao-Tse, que viveu seis séculos antes de Cristo, rico é quem vive contente. E o apóstolo Paulo, na carta aos Filipenses (C.3.v.10), declara que aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação. Interessante observar, então, que viver contente é um aprendizado e, portanto, tal coisa deve ser aprendida por todos nós, para sermos felizes.

Vivaldo Jorge de Araújo, ex-professor de História e Língua Portuguesa do Lyceu de Goiânia, é escritor e Procurador de Justiça aposentado.
Artigo publicado no jornal Diário da Manhã de Goiânia- Estado de Goiás, Brasil- dia 02/09/2016, caderno Opinião Pública, fl. 5. Site do jornal: dm.com.br      edição impressa

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