terça-feira, 20 de setembro de 2016

O Rei do Lixo

           *Cristiane Lisita

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             Os últimos dados da Agência Portuguesa do Ambiente, de 2014, registram que em Portugal foram produzidas à época um total de  4 550 479 toneladas de lixo, refletindo um acréscimo de mais 2% relativo ao ano de 2013, em contraposição às metas para 2020, invertendo-se a tendência de decréscimo verificado nos anos anteriores. Os resíduos urbanos são responsáveis por 4 473 940. Fato a se destacar é que embora tenha ocorrido esse aumento houve estabilização na quantidade de materiais a serem reaproveitados. A conscientização da população nesse quesito deixa a desejar, embora o governo tenha destinado verbas para tal.

            Em consonância com essas informações da APA, dentro os resíduos urbanos recolhidos, a maior taxa, 36,4% é dos resíduos putrescíveis, ou seja, geralmente alimentos, sobretudo desperdiçados. Seguem papel e carvão com 13,9% e plástico, na casa de 10,9%. Destaque-se que entre 2010 e 2014 ocorreu uma redução na contagem de resíduos urbanos que são destinados aos aterros: de 62%, em 2010, para 42%, em 2014. Papel, alumínio, plástico, madeira, aço, vidro, embalagens foram reutilizados alcançando cerca de 570.000 toneladas, um índice ainda relativamente muito baixo, que deve instigar a encontrar caminhos para reverter esse quadro.

            Tome-se o exemplo do Rei do Lixo, em sua misteriosa Torre do Inferno, cujo castelo estava encravado em uma paisagem altiva e misteriosa em Coina, no Concelho do Barreiro. O controverso Manuel Martins Gomes Júnior adquiriu sua propriedade num lugar de passagem constante, na travessia do Tejo para o Alentejo. De família humilde, viveu certo tempo em Lisboa, e regressou mais tarde à sua cidade natal, onde começou a vender cereais. Com o bom negócio adquiriu um moinho de água de moagem de grãos, e logo teria fundado a Companhia Agrícola de Portugal.

            O Rei do Lixo fez sua fortuna comprando e vendendo lixo. Em 1907, controlava a recolha de detritos orgânicos na cidade de Lisboa. Valeu-se de suas fragatas para transportá-lo com finalidade de comercializá-lo e, igualmente, com o intento de alimentar os seus porcos. Chegou a batizá-las com diversos apelidos diabólicos no intuito de impactar a sociedade católica e conservadora. Na verdade, o empreendedor não suportava a ditadura republicana que se revelou contrária ao que ele idealizara, com o povo esmagado pela tirania de golpes e contragolpes militares.

            Há mais de um século o visionário, e também negociador de porcos, sabia das potencialidades do reaproveitamento dos resíduos, quiçá ao refletir sobre os vícios dos políticos aburguesados. Deixou marcas imponentes no castelo que construíra lembrando o palácio cretense de Minos, no qual estava encerrado o minotauro (a natureza animal) e donde Teseu só conseguiu sair com a ajuda do fio de Ariadne, numa referência ao caminho tortuoso da Iniciação a se triunfar pelo labirinto.  Mas essa é outra história.

Transcrevendo Isaac Asimov, escritor e bioquímico naturalizado americano, nascido na Rússia:Espera mil anos e verás que será precioso até o lixo deixado atrás por uma civilização extinta”.


*Cristiane Lisita (jornalista, escritora, jurista)



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