segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O último Tamerlão




O último Tamerlão



*Cristiane Lisita


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A dinastia Timúrida, de origem turco-mongol, e muçulmana sunita, abrangia terras na Ásia Central, no Irã, nos atuais Afeganistão e Paquistão, bem como parte do Cáucaso e da Mesopotâmia. Foi Timur, conhecido por Tamerlão, o Coxo, o último conquistador nômade da Ásia Central que, no século XIV, reuniu, à sua volta, um vasto exército formado de diversas tribos, valendo-se de sua índole militar, de sua esperteza política e de força bruta para derrubar impérios. Dizia ele ser descendente de uma das quatro tribos advindas de Genghis Khan, para justificar a tirania.

Segundo o historiador Arabshah, de Damasco, a fidelidade monopolizada por Tamerlão certamente seria resultado de seu sucesso como ladrão de ovelhas que possuía muitos seguidores também ladrões, posteriormente, demudados em guerreiros competentes e disciplinados. Para outros, ele se revelava às vezes culto, mas quase sempre cruel. A sua personalidade complexa se descortinou na luta ferrenha com os vizinhos, conservando ocupados os seus exércitos, a fim de evitar clamores. Tamerlão assinalou seu nome na história por tamanha atrocidade física e moral com os povos vencidos. Era desse modo que impunha o que ele titulava de ‘respeito’, mesmo além das estepes da Ásia Central.

O Canato Chagatai observou em Tamerlão um estrategista capaz de tudo pelo poder. Um homem que sequer honrava sua palavra diante dos sucumbidos, a exemplo de uma equipe cristã de Sivas, na Armênia, quando questionou os termos para uma rendição, Tamerlão jurou que não derramaria uma gota de sangue: enterrou-os vivos. Dissimulado, seu hobby, ainda, era pedir aos soldados as cabeças dos combatidos. No entanto, o algoz não gostava de ser chamado de bárbaro. Apreciava a arte. Poupava, tão somente, os que podiam servir aos seus interesses.

A morte do líder implacável, em 1405, a caminho da China, já septuagenário, acarretou a fragilidade de sua dinastia com as sucessivas rivalidades tribais que ocasionaram as divisões dos mongóis, somada ao fortalecimento dos reinos conquistados, culminando com sua dissipação pouco tempo depois. O alcance das usurpações de Tamerlão ensejou a delonga da queda de Constantinopla, e a cultura mongol na Índia, com o derradeiro imperador deposto no final do século XIX.

No mausoléu de Tamerlão, aberto em 1941, estava escrito: “Quando me erguer da tumba, o mundo tremerá”.  O antropólogo russo encontrou no interior a inscrição: "quem abrir isso será derrotado por um inimigo mais medonho que eu". Dissidências à parte, no dia seguinte, Hitler invadiu a União Soviética, e deixou, depois, milhões de mortos. Assim, que o último Tamerlão descanse na luz branca de seu jazigo, junto à relva verde, na simetria suntuosa dos azulejos azuis. Que o último Tamerlão quebre o prenúncio das palavras, em árabe antigo, decifradas, impedindo, quiçá, a sordidez de outro Tamerlão.




*Cristiane Lisita (jornalista, escritora, advogada. Pós-Phd pela Universidade de Coimbra)

1 comentário:

  1. Quiçá as várias faces de Tamerlao que despontam na atualidade sucumbam antes de trazer mais miséria e sofrimento ao povo. E que esse legado macabro nao seja jamais desenterrado. Que possamos caminhar com segurança e esperança de dias melhores. PARABENS MAIS UMA VEZ A AUTORA.

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