sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Do fundo do coração e do cérebro

Ontem, 27 outubro, morreu João Lobo Antunes (JLA). Fiquei triste. Alguém que eu muito admiro e, por isso, prestei atenção às notícias que lhe diziam respeito.  É muito bom ouvir tantos, verdadeiros e elogiosos testemunhos sobre alguém cuja vida valeu a pena e que trabalhou até ao limite.  
Em 2002 comprei De Profundis, Valsa Lenta de José Cardoso Pires, uma obra escrita em 1997, um ano antes da sua morte. Uma obra que começa com uma «carta a um amigo-novo», redigida na Páscoa de 1997 pelo professor JLA, seu médico e que tratou o escritor de "uma afasia fluente grave, ou seja, não era capaz de gerar as palavras e construir as frases (...)".  No final desta espécie de prefácio, o médico neurologista, conhecedor profundo de Eça de Queirós, escreve: "certas coisas não se sabem e é preferível não se saberem. Não será melhor assim? Ab imo corde". José Cardoso Pires agradece ao "Professor" na última página daquele livrinho e desabafa gratidão pela competência e  solidariedade que lhe foi prestada no seu internamento no Hospital de Santa Maria.

Mas há certas coisas que podemos saber, graças a pessoas como JLA.
Em 2004, li umas linhas escritas por João Lobo Antunes no suplemento Mil Folhas que o Publico editava na época. O médico, culto a todos os níveis, falava de um pensador que eu desconhecia, George Steiner, e disse algo que me marcou até hoje: um livro leva a outro ("Lessons of the Masters de George Steiner foi uma leitura preciosa e remeteu-me para uma obra-prima de Philip Roth que me escapara The Human Stain"). 
Ainda hoje me deixo guiar por este princípio. De uma boa leitura retiro sugestões de novas leituras. E só uma pessoa culta e generosa como João Lobo Antunes o pode fazer. Comprei no Natal do ano seguinte As Lições dos Mestres (Gradiva). Gostei tanto de George Steiner que viria a adquirir mais cinco obras. O próprio Steiner é um excelente professor e fecundo em dar sugestões de leituras, como não poderia deixar de ser (graças a ele descobri também Hermann Hesse e aprendi tanto sobre história da música, da europa e da filosofia...). Tenho, pois, que agradecer a JLA o facto de me ter dado descobrir George Steiner!
E podemos ler deste modo, dum livro para outro, fazendo a nossa própria biblioteca, escolhendo os autores que queremos ler, não tendo nunca o problema de não saber o que ler. É um nunca mais acabar de excelentes leituras e aprendizagens.
Agradeço ao neurologista, um dos melhores a nível mundial, a sua partilha e o seu presente para a vida. Bem haja!
"Afortunado o discípulo cujo Mestre deu sentido à mortalidade" (As Lições dos Mestres).

1 comentário:

  1. Um homem desta grandeza merece o quê, como prova justa do nosso reconhecimento? O Eusébio e a Amália, apadrinhados pelo populismo e partidarismo, foram para o Panteão Nacional.

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