segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O pintassilgo e o cativeiro





O pintassilgo e o cativeiro



*Cristiane Lisita



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“Quero voar, voar, voar. Estas coisas o pássaro diria, se pudesse falar. E a tua alma, criança, tremeria, vendo tanta aflição. E a tua mão, tremendo, lhe abriria a porta da prisão...”, poetizara Olavo Bilac. O pintassilgo é um acanhado pássaro, de canto harmonioso e, ainda que coibida a sua captura, parece jazer condenado em alguma gaiola. O seu habitat natural se esparge pela zona central e meridional da Europa, elegendo as áreas temperadas, embora as espécies de latitudes mais altas costumem migrar para o sul, na época do frio. Sustenta-se de sementes ou de grãos silvestres, também, de insetos em época de reprodução.

Outrora, essa ave fora considerada um emblema da resistência, da fecundidade e da obstinação quanto à sua liberdade. O seu voo denuncia os cardos lilases aonde vai pousar. Símbolo da paixão e da morte de Cristo crucificado, eles germinam em paragens rochosas, mormente em solos barrentos, espalhados pela Península Ibérica. As belas flores são extraídas, no campo, para coagular o leite no outono e no inverno.

Tal qual o pintassilgo na gaiola, milhares e milhares de indivíduos estão aferrados nas alcovas da inanição. Dados oficiais da Direção Geral da Saúde, em Portugal, revelam que de cada 14 famílias, uma não consome nutrições regulares e satisfatórias, por não ter condições financeiras para adquiri-las. Os últimos números divulgados pelo Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) expõem que existem 120 mil crianças com fome diária permanente, refletindo esses apontadores que a carência de alimentos, em 2015, superou, em muito, a de 2012, com um acréscimo de 35 mil crianças nesse quadro.

Da população total, 10 294 341 habitantes, 3,7%, quer dizer, quase 380 mil pessoas estão na penúria, à mingua, e, igualmente, 26%, próximo de três milhões de portugueses, continuam excluídos da Segurança Alimentar, sem ter quantidade, tampouco qualidade, de calorias suficientes para sobreviver, levando em conta o salário mínimo, líquido, mensal recebido.

Assim, o pintassilgo, como o Pássaro Cativo, em Bilac, há de cantar: “Solta-me ao vento e ao sol! Com que direito à escravidão me obrigas? Quero saudar as pompas do arrebol! Quero, ao cair da tarde, entoar minhas tristíssimas cantigas! Por que me prendes? Solta-me covarde! Deus me deu por gaiola a imensidade: Não me roubes a minha liberdade ... Quero voar! voar! ...”, patrulhar as nuvens e as campinas e me alimentar!




*Cristiane Lisita (jornalista, escritora, jurista)

2 comentários:

  1. Parabéns pelo jeito poetico e verdadeiro de tecer tais consideracoes. O nosso povo está sofrido e precisa de vozes como esta.

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