quinta-feira, 27 de outubro de 2016

TPC - sim ou não?

No início de mais um ano letivo, renasce a questão dos trabalhos de casa (TPC) e a discussão à volta dos prós e contras que lhes poderão estar subjacentes, especialmente para os alunos que frequentam o 1.º Ciclo (6-9 anos).

Aqueles que os defendem vêem nos TPC aspetos positivos, como sejam: ajudar os alunos a adquirirem ritmo de trabalho; ensinar a gerir melhor o tempo das crianças; treinar a memória e consolidar as aprendizagens.

Por outro lado, há contras que convém não desprezar: reduzem o tempo livre para brincar (fundamental para o desenvolvimento harmonioso da criança, na faixa etária considerada) e deixam as crianças extenuadas e irritadas, pelo volume de trabalho exigido (e por arrastamento aos próprios pais, que, muitas vezes, para minimizarem aqueles efeitos, acabam por serem eles próprios a realizá-los), o que pode levar à criação de barreiras contra a escola, não incentivando a curiosidade e o gosto pelo conhecimento. Aliás, estudos recentes apontam neste mesmo sentido: os TPC, tal qual se apresentam (com caráter diário e repetitivo), são fonte de infelicidade e irritação para crianças de tenra idade. Em vez de contribuírem para a promoção do gosto de aprender, erguem as tais barreiras em relação à escola, génese de muito do insucesso escolar (ainda que as causas deste sejam mais amplas).

Pessoalmente, defendo que esses TPC, enquanto complemento à aprendizagem na sala de aula, deveriam ser realizados na própria escola (no fim das atividades letivas) e não em casa, com um caráter formativo, ou seja, acompanhados por professores especialmente formados em apoios e complementos educativos, que orientariam os alunos para a concretização das tarefas indicadas pelo professor titular de turma.

Mas para que tal se efetivasse, precisaríamos de reformular profundamente a organização da escola portuguesa, embora me pareça que este desiderato não faça parte das preocupações mais próximas da nossa classe política.

Mário Silva
(publicado no JN de 25/10/2016)

                                                                                             

                                                                                             

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