sábado, 31 de dezembro de 2016

A dívida e a dúvida
Ou os responsáveis pela orientação do país (governação  a todos os níveis) andam distraídos há muito, ou são mesmo incompetentes e irresponsáveis.
Se a dívida soberana, ou seja a que está directamente integrada no sistema de contabilidade que controla o OE é de 133% e a dívida global do Estado, onde estão inseridas as dívidas das empresas públicas  e de instituições estatais que  estão comprometidas com os governos, segundo Miguel Sousa Tavares, atinge 230% do PIB, como é possível não entender que o problema da dívida é mais importante do momento. Se a dívida é duplamente superior ao PIB e o crescimento anual deste é inferior aos encargos dos juros a pagar pelos empréstimos, logicamente que a dívida, que já é impagável, vai tornar-se astronómica e, mais dia menos dia, quando os credores deixarem de confiar, fica impagável e fora do controlo.
O monstruoso problema dos juros da dívida, a pagar anualmente, e de tal forma vultuosos que para os suportar ainda nos empenhamos mais, parece ignorado ou escondido atrás de um biombo. O Governo, para se manter, tem de fazer algumas concessões ao BE e ao PC, que num rumo populista, temperado com alguma acefalia, entende que quantos menos dias se trabalhar neste país, mais riqueza social se produzirá para distribuir. Sem se aperceber das situações reais, porque estes palradores não trabalham nem conhecem os espaços onde este se realiza, espaços esses ocupados em 90 % por pequenas e médias empresas, atiram com reivindicações nem sempre de acordo com as possibilidades do pequeno patrão e dos trabalhadores. As pequenas empresas vão fechando e algumas, com grande dificuldade, vão resistindo, pois, os impostos e as taxas asfixiam o seu normal movimento. Estamos num mercado competitivo e só quem apresenta o produto ao melhor preço o consegue colocar. E, arranjem-se os estratagemas e explicações plausíveis para tudo e para nada, na cadeia de produção, é sempre o consumidor final que paga toda a factura.
As empresas que não têm monopólios que lhes garanta os preços de venda dos serviços, estando em concorrência, têm de suportar encargos que nem sempre lhes é possível encarecer no produto. Se tal suceder, entram em dificuldade e, nalguns casos, vão à falência, situações que sucedem todos os dias. Os pequenos comerciantes e artesãos, todos agora crismados de empresários, aparecem e desaparecem, como cogumelos, todos os dias e em qualquer lugar. As empresas monopolistas, de mãos dadas com os Governos, têm autoestradas para desenvolver a sua actuação e aceitam melhor as alterações de taxas e impostos, porque serão recompensadas nos réditos.
Os empregos são cada vez mais precários, porque a própria precaridade de muitas empresas a isso obriga e intenções ou leis não resolvem os problemas. Os resultados da diminuição de desempregados inscritos no INEST, não levam em conta cerca de 10.000 trabalhadores que em média emigram mensalmente.
É preciso encarar com realismo, honestidade e competência a real situação do país, onde a dívida é um, se não, o principal obstáculo ao crescimento económico. Se assim não for, andamos fardados de D. Quixote por mais algum tempo até que a realidade se sobreponha.
A dívida é dívida, não é dúvida!
Joaquim Carreira Tapadinhas, Montijo BI 9613, TM 96 235 48 23 – jcatapadinhas@gmail.co

5 comentários:

  1. Como sempre, o senhor Tapadinhas produz análises em linguagem clara e objectiva, realistas, indesmentíveis e sem demagogia. Sem quaisquer dúvidas, dividas são dividas. Mais uma vez, votos dum bom Ano Novo.

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  2. Os que têm apresentado a necessidade de discutir o problema da dívida e os juros que a mesma acarretam são precisamente o BE e PCP. Só os preconceitos do costume contra estes dois partidos portugueses podem ter levado a ignorar tal, e a efectuar apreciações a despropósito e até quase fora do tema do texto.

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  3. Comento por puro devaneio. Falta a... dádiva! Já o dizia David Mourão Ferreira: " Que dúvida, que dádiva, que dívida. Que duvidádiva é afinal a VIDA!". Devaneios, ou não...

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  4. Ao Fernando Rodrigues - O professor e poeta David Mourão Ferreira, um intelectual de respeito e um poeta maior, expressava-se neste caso em sentido poético, infelizmente na minha elaboração, a dúvida e a dívida são no sentido real. Um abraço, votos de Bom Ano e obrigado pelo comentário.

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  5. Publicado, hoje,dia 7 de Janeiro de 2017, no jornal "Expresso", com os cortes da praxe.

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