quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

AO ANO NOVO



Foi dos piores anos dos últimos.
Declara-se a absoluta ineficácia do ano corrente para lidar com a dor. Toda a dor.
É uma declaração tardia, mas a intenção é das melhores, acabar com esta pouca vergonha.
Colectou-se tanta culpa no cartório que se levaria todo um novo ano a ler o acordão. Opta-se assim pela síntese, enunciando e de raspão, as mais criminosas:
Foi um ano indigente quanto ao ódio, o racismo, as fobias, a omissão do sofrimento dos outros.
Nunca se lavou das mortes arbitrárias, como se fossem quotas de caça atribuídas as potências; fingiu que não ouviu o choro de crianças órfãs, esfomeadas, espoliadas da dignidade de ser. Imagine-se a sujidade que tresanda!
Este ano poluiu o mundo. Desconsiderou a natureza. Sodomizou-a. Apropriou-se de recursos indevidos e escassos e prepara-se para vender a água a preços exorbitantes e não para todos.
Apesar dos incentivos e cada vez haverem mais mulheres e homens bonitos e bem-apessoados, não se amou o suficiente para equilibrar os níveis e baixar os índices de raiva e espuma no canto da boca.
A soberba ganhou muitas medalhas; a mesquinhez esteve na primeira fila de todas as galas; a ignomínia foi a soprano com mais actuações e encores ao vivo.
O poder cego é o cancro com maior incidência e prevalência no mundo ocidental. No outro também, mas chama-se democracia musculada: pestaneja-se e vai-se a banhos para um resort de luxo. Não é assim, alguns amigos do peito da CPLP?
A manipulação da palavra - pelos meios - aumentou o número de casos de masoquistas empedernidos, com enfarte causado pela opressão, que recorreram ao sistema nacional de saúde.
Por isso colapsou, com utentes a mais.
Estamos todos fartos de olhar para este ano, nunca mais acaba. Vamos acabar nós com ele.
Iniciou-se um ritual vudu de espetar agulhas, para exorcizar pelo definhamento rápido este ano horribilis.
Enquanto se espetam as agulhas e se dança catatonicamente à volta do ano diabólico, devemos asneirar, muito, repetindo alto e em coro esconjuros potentes:
A política fede e é incontinente.
A política é uma espelunca sifilítica.
Os interesses geoestratégicos são um jogo de poker viciado.
A industria do petróleo e outras poluentes são dirigidas por seres de outros planetas, alienígenas que se misturam entre nós para destruir a humanidade (sim acreditamos em teorias da conspiração bem apimentadas e com bons enredos).
Apesar dos chocolates serem bons, as cápsulas de café não são recicláveis e há empresas com planos maquiavélicos para se apoderarem de toda a água no mundo.
Todos os leaks e os papers, têm halitose.
Os deuses foram de férias prolongadas depois de nos inventarem.
Os deuses preferem os deuses aos homens.
Os deuses são egoístas e pouco solidários. Os homens aprenderam com eles e também o são, apesar de haver meia-dúzia que pratica acções caritativas.
Quando dermos cabo deste ano, é bom precavermo-nos já para o próximo. Atentos, ao mínimo sinal de esperteza saloia, logo com uma cachaporra em cima, para amainar ideias que ande a germinar.
Deseja-se que 2017 nos surpreenda e se assim o fizer pode contar connosco para a folia, darmos uma mão ou ambas para concluir os telhados de tão desabrigado que anda o mundo.

Se não nos surpreender nunca mais devemos comer passas: é um logro bem montado dos industriais das passas!

1 comentário:

  1. Temperadas pelo espírito estas análises e recomendações, o que prova que o progenitor, lá muito no fundo, ainda cultiva a esperança. Perante todo o desencanto que está instalado, mas que os néscios não o sentem, que fazer? O homem está ao serviço da economia, ou seja, o artífice está ao serviço da ferramenta, pois o número, a estatística é que domina, sem ser tida em conta as pessoas. A máquina tornou-se tão poderosa que o maquinista tornou-se dela dependente e é ela que comanda as operações. Esta civilização tornou-se artificial e é impossível dar-lhe um rumo humanista.

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