quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

PROFETA

Profeta. Agora sou profeta. Assim vem no Jornal de Notícias. Até já me publicam os meus textos místicos. Enquanto isso a miúda ginga. Profeta sim, santo não. Apesar das influências, há algo algo de original na minha literatura. Canto os pássaros, canto as mulheres, canto as tabernas. Bem sei que a grande maioria das mulheres se interessam tanto pelo ouro como pelo amor. Bem sei que só durante uns dias tenho plenos poderes. No entanto, agora sou o tal profeta, o poeta maldito que brada e bebe. Será injusto não me reconhecerem. Se bem que eu continue a provocar mais e mais. A puxar a corda. A apontar a dedo os vendilhões imbecis, como hoje no JN. Não, não são esses os meus medos. Os meus medos são interiores. São demónios, fantasmas que vêm de dentro e ainda um pouco das forças da educação, da sociedade, dos media, mas cada vez menos. Aliás, nestes dias cada vez me sinto mais solto. Sobretudo entre as mulheres. Amo-te, ó eternidade! Bebo o vinho do eterno regresso. Sou amável com a Fêmea Eterna. Recebi uma boa educação mas aprendi a linguagem dos bares, da rua, da vida. Tornei-me um dos malditos. Estou a deixar a minha marca no mundo. Eu, António Pedro Ribeiro, o profeta. O homem que bebe no café da Vera. O narciso. O grande louco. Hoje serei o sr. escritor. Hoje darei dinheiro à Vera. As mulheres ligam muito ao dinheiro, salvo raras excepções. Em contrapartida, são capazes de te dar o grande amor. Eu, como já tenho dito, não vim para este mundo de notas e moedas, sou como Sócrates e Jesus. Prefiro que me dêem alimento e morada. De qualquer modo, quando tenho dinheiro facilmente o gasto em dois tempos. Sou do dispêndio, da consumação. Detesto é este espectáculo de ver uns a atropelarem-se uns aos outros, detesto esta tremenda sofreguidão. Amo o sorriso ainda inocente da menina. Amo tudo quanto quanto é puro, livre, coração. Haverá talvez presentemente quem escreva melhor do que eu mas duvido que esse alguém tenha em si a verdade, a virtude e a paixão que neste momento me movem. Ah, como sois ridículos, ó comentaristas, ó futeboleiros, ó politiqueiros, como pertenceis à ralé. Tudo o que o dizeis já eu sabia antes de nascer. De resto, só me fazeis mal à cabeça. De resto, antes beber. De resto, mil vezes a mulher.

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