segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Jornalismo: auto-destruição ou auto-reconstrução?

“Jornalismo. Este caminho pode levar-nos à autodestruição”.
É o título de um artigo, assinado por Ana Cristina Pereira, no Público de 12/1/2017.
Sim, o prognóstico é plausível.
Como se pode ter comunicação social (social - logo, serviço público e, dai exigível, informação com ética empresarial, isenção , pluralismo) com concentração (directa e indirecta) do poder económico sobre os órgãos de comunicação comercial, digo, "social"? Como?
Como podemos ter profissionalismo e deontologia profissional no trabalho dos jornailstas quando ali grassa a precariedade, a sobreintensificação do trabalho (em ritmo e duração), os salários baixos (em contraste com uns poucos chorudos...), a desigualdade, a discriminação, o desemprego (efectivo, do próprio e ameaçador, o dos outros...) e, consequentemente, a falta de autonomia, a falta de independência, a " corrosão do carácter" pela subserviência, o conformismo, o medo? Como?
Se bem que apenas no sentido pejorativo, Adam Smith ("Inquérito sobre a Riqueza das Nações") tinha alguma razão, há 230 anos, quando dizia haver uma (famigerada) "mão invisivel" do mercado, neste caso, do mercado da comunicação "social", digo, comercial...
Yves Clot ("em A Função Psicológica do Trabalho") tem toda a razão quando alerta para que (para o bem e para o mal) "o trabalho tem um braço longo",... inclusive o trabalho de jornalismo.
A OIT tem razão quando alerta, desde sempre, há um século, sobre (para o bem e para o mal...) a "centralidade social do trabalho".
Mas há uma palavra a destacar e inerente pergunta e reflexão (e acção…) a fazer no título deste (excelente) artigo: "Autodestruição".
“AUTO”: “destruição” ou reconstrução?


João Fraga de Oliveira
NOTA

(Esta nota é – julgo eu - especialmente pertinente num blogue dedicado a leitores que escrevem.

Porque aqui está um exemplo que talvez (n)os leve a perguntar(mo-nos), mais uma vez, porquê, para quê, para quem … escrevem(os)?.

A perguntar(mo-nos quem (se) aproveita do conteúdo (ou, pelo menos das ideias) do que escrevem(os) e, depois, deita o resto para a “guilhotina” (como já escreveu o amigo Joaquim)?

A perguntar(mo-nos), “onde está” o “pluralismo” e o “respeito pelos leitores que escrevem” de que nos falava o saudoso Professor Paquete de Oliveira ?)

Fechado o parêntesis (à especial atenção da Céu, para um próximo encontro…), saiamos dele, … ainda que com uma certa sensação de desilusão (que tanto pode ser para com uma pessoa como para com um jornal…).

Este texto foi enviado ao Público no passado dia 12/1/2017, tendo muito em consideração estar então a decorrer, desde esse dia (de 12/1 a 15/1/2017), o 4º Congresso dos Jornalistas. .

 No mesmo dia, pelo registo de retorno do mail de envio, foi lido pelo subdirector e director do Público (Vítor Costa e David Dinis).

Mas, até à data, não foi publicado .

Será porque não convinha ser lido pelos congressistas?...

Será porque se “auto-destruiu” ele próprio, o texto, vítima da tal “auto-destruição”?

Ou será porque vinha reforçar uma NOTÍCIA que é mais do que evidente, A CRISE DO JORNALISMO (e muito por causa  da desvalorização do trabalho, da precariedade e consequente (auto)condicionamento dos jornalistas pelas chefias e administrações…)?

E, daí, será porque  a sua não publicação reforça o que Umberto Eco escreveu (2015) em “Número Zero”: “A questão é que os jornais não são feitos para revelar mas para esconder notícias”?

Talvez seja mesmo, se não for por todas, pelo menos por esta última razão .Do que não há melhor prova empírica do que o director do Público entender que “não faz sentido falar hoje de uma crise do jornalismo”????



3 comentários:

  1. Já respondi pessoalmente ao meu querido amigo João, juntando-lhe mais algumas considerações. Tenho alguma (pouca) esperança que o próximo encontro dos "leitores-escritores", em Março, produza algo sobre o jornalismo. Não somente criticando mas também olhando para nós como intervenientes e não como "umbigos acariciados... ou não".
    Grato ao João.

    Fernando Cardoso Rodrigues

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  2. Ora aí está! Boa razão para reflectirmos também sobre nós.

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