domingo, 19 de fevereiro de 2017

Lá fora, comes!
Quando passamos muitos anos pela vida, e temos a sorte e capacidade de estar atentos ao ambiente que gira à nossa volta, ao percorremos muitos e diversos espaços da organização social, podemos ser testemunhas e intérpretes das mais diversas situações. Falemos da escola, do sistema escolar, e da vivência fora e dentro das salas de aulas. Tal como a generalidade das crianças, entrei na escola como aluno e, muitos anos depois, como adulto, a minha última relação intensa com esse espaço de aprendizagem foi a de professor, ainda que não fosse no ciclo onde iniciei a instrução. 
Frequentei a escola primária na década de 40 no século passado, quando o ensino oficial só era obrigatório a partir dos 7 anos. Na primeira classe, a professora Helena, bonita, bem vestida, e mais nova que as nossas mães, era algo de diferente nas nossas vidas. No primeiro dia, quando a contemplei, parecia uma aparição. A turma tinha 40 alunos, com idade variável entre os 7 e os 10 anos, havendo caloiros e repetentes. Com o decorrer do tempo, fomos criando laços de amizade, porque o ambiente na sala e no recreio para isso concorriam.
Como éramos muitos, também havia diferenças visíveis nas capacidades de aprendizagem, pelo o que aqueles que mais sabiam, com a complacência da professora, e nalguns casos por solicitação desta, ajudavam os colegas a resolver problemas que surgiam no ambiente da sala de aula.
Gerava-se uma corrente de amizade e de cumplicidade que, em muitos casos, se manteve pela vida fora. Mesmo as pequenas quezílias que, algumas vezes, sucediam no recreio onde se cumpriam os intervalos das aulas, eram esquecidas e não davam azo a represálias. Embora raras vezes sucedessem pequenas brigas, nada comparadas com as agressões que, hoje, lamentavelmente, os órgãos de comunicação social nos relatam, por respeito ao espaço escolar, algumas vezes havia o aviso: lá fora, comes!
Hoje a escola funciona numa situação de concorrência entre estas (vejamos os rankings) e entre os alunos, que procuram obter as melhores notas em competição entre si. O aluno está isolado na sala, mesmo entre 20 ou 30 colegas, porque é vigiado permanentemente por um juiz, do qual pode depender o seu futuro. Algumas vezes é castigado por ajudar, ou ter sido ajudado um colega, com quem contactou na solução de uma dúvida surgida no questionário de uma prova. Tudo se conjuga para que a escola, há uns anos a esta parte, se tenha transformado num lugar pouco favorável ao convívio saudável entre as pessoas.
Daí, o abandono escolar, o desinteresse, e o recrudescimento do tão propagado bullying, que já é considerado, pelos psicólogos e sociólogos, um problema crónico nas escolas. Lá fora, comes, comparado com as acções que hoje são propagadas pelos ecrãs, era um aviso quase inocente.
A escola precisa de uma reestruturação mais profunda e não basta uma nova grelha de currículos, ainda que esta decisão, quanto a mim, seja útil, mas ainda insuficiente. A responsabilidade de ajudar a fazer crescer melhores cidadãos é da escola e das famílias, sem esquecer que os progenitores agem também em função do que a escola lhes ensinou.


Joaquim Carreira Tapadinhas – Montijo, BI 9613, jcatapadinhas@gmail.com

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