quinta-feira, 13 de abril de 2017

QUARESMA E FOME


Hoje vou falar-vos sobre a Fome. Não aquele ratito que sentimos e que nos leva a petiscar ou correr para a despensa ou frigorífico, mas a fome verdadeira, aquela que muitos dizem e certamente com toda a legitimidade que só pode descrevê-la quem alguma vez a sentir de facto.

Sou uma privilegiada, como certamente o serão a maioria dos que estão a ler esta crónica, porque nunca sentimos essa violenta dor de querer algo para comer e não o ter; de querer molhar os lábios com água potável e não a ter, de chupar sofregamente na mama de mãe e não sair nada.

Sou ainda privilegiada, egoísta e burra, porque me dou ao luxo de deitar comida fora quando perto de mim existem centenas ou milhares de pessoas com fome; quiçá, não com a fome extrema que referi anteriormente, porque essa mata diariamente milhares de pessoas no mundo, perante a indiferença de milhões, mas aquela fome que faz com que crianças e adultos desmaiem na escola ou no trabalho; naquela que provoca tristeza, depressão e doença; aquela que por vergonha não é assumida e nos passa ao lado, porque na correria do dia a dia não estamos suficientemente atentos para ver os sinais. Não pensemos que a fome existe somente nos países pobres, ela também está na casa ao lado da nossa, na vizinhança, por toda a sua cidade, basta procurar um pouco ou falar com as pessoas certas.


Vou falar-vos sobre a fome porque, sejamos cristãos ou não, estamos na Quaresma e ela é um tempo favorável para todos poderemos sair da alienação existencial em que muitos estamos mergulhados e irmos ao fundo do Ser buscar aquilo que melhor nos devia definir enquanto humanos – a partilha, a dádiva e a solidariedade.

Claro que ao reflectir sobre esta Fome, a física, dei comigo a pensar como a nossa sociedade e o mundo se tem vindo a transformar, padecendo hoje de vários tipos de “Fomes” que infelizmente então interligadas e aumentam a dimensão real e simbólica do problema.

Se pensarmos bem o mundo é governado por um líder impiedoso e cruel: a fome. Através dela ,em muitos casos do seu fomento e com a conivência dos governos locais, as grande corporações do mundo fazem e perpetuam os seus impérios ao conseguir mão de obra escrava a trabalhar por cêntimos e em muitos casos por uma colher de arroz e um gole de água. Isto é verdade e todos os sabemos mas em muitos casos optamos por ignorar ou fazer de conta que não sabemos porque dói menos.

É bonito falar sobre as mazelas do mundo. 
Fica bem revoltarmo-nos contra a hipocrisia humana. É importante rebater as mentiras e denunciar os falsos moralistas. 
Mas, o mais importante é mesmo arregaçar as mangas e lutar verdadeiramente contra a fome, não somente com discursos vazios mas sobretudo com atitudes verdadeiras e aí…pois aí é que “ a porca torce o rabo”, porque os meninos pedem Iphones, sapatilhas, roupas de marca e esquecemos que na maioria são feitas por crianças com fome; porque desperdiçamos comida todos os dias e nem nos lembramos dos que ao nosso lado desejariam ter apenas uma milésima parte do que nós temos; porque nos esquecemos que a fome não é um problema do mundo mas uma falha humana grave em que todos temos algo a dizer; porque não nos estamos a aperceber que mundo cheio de pessoas com fome é muito perigoso pois quando o desespero impera, quem tem fome só pode agir de três maneiras: imigração, revolta e  morte e que nos dias de hoje esta questão é de primeiríssima importância com a crise dos refugiados aqui paredes meias com o nosso mundo.

O mundo em que vivemos converteu-se numa coisa feia, em que o estatuto ( seja lá o que isso for ) é muito mais importante do que as pessoas que têm fome; em que um jogo de futebol é mais importante do que os problemas reais das pessoas; em que o valor de solidariedade se reduz a trazer do supermercado um kilo de arroz ou de massa nos dias de peditórios e sair com a noção de missão cumprida. 

Neste nosso mundo individualista e preconceituoso a solidariedade com o próximo é uma excepção, não uma regra, não é um valor, é um acto isolado numa circunstância específica, não faz parte dos valores intrínsecos à formação ética e moral das pessoas e portanto é uma mentira.

A Fome assusta-me verdadeiramente – tanto a fome física, que nunca senti, mas consigo entender porque me faz doer a alma, como a fome de amor ao próximo e de solidariedade cuja escassez tem vindo a tornar o mundo um sítio “muito mal frequentado”; mas assusta-me ainda mais a gula dos países ricos e dos pobres vergados à corrupção que facilitam e perpetuam estas “ Fomes”. 
Assustam-me e muitas vezes fazem-me perder a esperança no Ser Humano.

Fica a reflexão...para memória futura



Graça Costa
Socióloga
*não escrito ao abrigo do acordo ortográfico




1 comentário:

  1. O seu texto fez-me recordar o meu Pai que, quando dizíamos que estávamos "com fome", nos ripostava: podes ter apetite , agora fome, não sabes o que isso é!

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