quinta-feira, 20 de abril de 2017

SARAMPO E ÉTICA

Se calhar devia estar quieta e calada em relação a esta morte por sarampo no nosso país.
Se calhar devia, mas não consigo, porque me repugna profundamente a forma ignóbil como os pais desta jovem estão a ser crucificados na praça publica, fruto de um "julgamento sumário" , fomentado e orquestrado por uma comunicação social vendida que não olha a meios para aumentar audiências.
Para acicatar ainda mais os ânimos, entrevistam mãezinhas anti-vacinas, da chamada brigada do tofu, colocando na mesma panela, esses, e os pais desta jovem que faleceu e que na vertigem da dor de ter perdido uma filha, são selvaticamente apelidados de tudo menos santos e colados a um movimento que se calhar nem é o que defendem.
Alguém ja parou para se informar sobre o que realmente aconteceu com esta menina?
Os seus pais serão uns desmiolados anti Plano Nacional de Vacinação, ou foram vítimas de uma sucessão de percalços/ ironias do destino que culminaram nesta tragédia ?
Eu explico.
Sim, porque julgar sem conhecer os factos pode ser fácil, mas é leviano e injusto...muito injusto para quem perdeu a vida e para quem perdeu, certamente o seu bem mais precioso: a filha na primavera da vida.
A estes pais aconteceu tudo ao contrário do normal.
Aos 2 meses a menina foi vacinada e, azar do caraças, fez um choque anafilático raro; uma reacção gravíssima e mortal em muitos casos.
Não quiseram arriscar depois do susto que apanharam e por isso não vacinaram a filha. Não eram anti vacinas porque aos 2 meses foram vacinar a filha.
Se fosse comigo, confesso que não sei o que faria.
Depois a menina apanha mononucleose, uma doença pouco comum e ficou mais doente do que o normal, raro também em mononucleose, facto que conduziu a um internamento.
No mesmo lugar - logo no mesmo lugar, à mesma hora - onde foi internada passou um bebé de 13 meses que estava com sarampo e a contaminou, porque há um surto (não há uma epidemia) de uma doença que atinge mortalmente 1 em cada mil.
Este surto, cujas origens reais ainda são porém desconhecidas, expandiu-se, ao que parece - mas ainda não se sabe bem - desde a Roménia.
Ou seja, não sabemos se o surto se expande pelos anti vacinas ou pela degradação das condições de saúde em determinados países. Esta é a verdade. Não sabemos, nem sabe a OMS.
O que sabemos, é que esta jovem não resistiu e morreu.
O Ministério da Saúde sabe de tudo isto mas aproveitou o caso para fazer campanha contra os anti-vacinas, mas não lhes ouvimos, até agora uma palavra sobre a origem real do surto.
Já aqui e na comunicação social , parecem saber tudo e a caça às bruxas não se fez esperar.
Não tenho uma opinião fundamentalista em relação à vacinação.
Sei dos interesses das farmacêuticas, mas​ defendo a importância da vacinação , da mesma forma que tento estar informada sobre estas novas correntes anti vacinação ( não são tão recentes assim mas ok ).
Tive sarampo, varicela, papeira​, escarlatina...tudo aquilo a que tinham direito as crianças do meu tempo, doenças que curei com cuidados, caldos de galinha e panos vermelhos no candeeiro.
Mais tarde fui mãe e vacinei os meu filhos. Voltaria a fazê -lo porque acredito que a saúde publica se sobrepõe as minhas convicções individuais.
Não aceito a instrumentalização que está a ser feita deste caso e repugna-me a forma abjecta como estes pais estão a ser condenados na praça publica, quando se calhar, eles e a menina foram vítimas de uma conjugação de infelizes azares que culminaram de forma trágica.
Pessoalmente a única coisa que consigo dizer-lhes é que lamento...profundamente a sua perda.
Sentidos pêsames.

9 comentários:

  1. Graça, acho que o seu texto tem duas partes distintas. A primeira muito emocional mas em que poderá ter razão. Digo poderá, porque não me apercebi de nenhuma "crucificação", mas admito que você tenha mais informação que eu e também uma diferente análise. E sobre o caso desta menina falecida, remeto-a para o que escrevi neste blogue, em comentário-resposta ao Jorge Morais.
    A segunda, desculpe mas não a aceito. Meter as "farmacêuticas ao barulho" e falar, quase em igualdade, da vacinação e das correntes anti-vacinação, parece-me pouco científico e "neutro", o que não cabe numa discussão deste teor. Fundamentalismo quando se fala de vacinações? O que há é evidência científica e, como aliás você o diz, Saúde Pública. Depois "insinuar" que porque a Graça teve"sarampo, papeira, escarlatina e as curou com caldos de galinha"... "valha-me Deus"! Sabe muito bem que do particular não se pode extrair quase nada para o geral em termos de normas produzidas, como é o caso. Olhe, por exemplo, eu sou quase surdo de um ouvido devido a um sarampo que tive porque... não existia a vacina. Desculpe dizer-lhe mas a Graça tem responsabilidade naquilo que escreve pois é socióloga e não pode "dar uma no cravo e outra na ferradura" como fez. Percebo a sua indignação no que à "crucificação" daqueles pais concerne, se de facto viu assim o desenrolar da comunicação social, agora quanto ao resto, desculpe mas não! Embora, na realidade, tenha feito tudo certo com os seus filhos!

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    1. Valha-me Deus mesmo, caro Fernando.
      O meu texto nada tem de emocional - é a indignação de uma cidadã que esteve atenta à forma como este caso foi escandalosamente utilizado pela comunicação social e pelo silêncio dos responsáveis pela saúde neste país em relação ao que se está a passar.
      Precisamente porque sou Socióloga, sinto ter responsabilidade acrescida na busca da verdade e não ser tendenciosa.
      Não vê em lado nenhum do meu texto defender os movimentos anti vacinação, mas estou atenta e informada. Não os coloquei ao mesmo nível das farmacêuticas, mas só quem viva noutro mundo ou apenas leia e veja o que passa na comunicação social portuguesa é que poderá ignorar o lobbye poderosíssimo das farmacêuticas.
      Eu tive todas as doenças que referi porque no meu tempo não havia vacinas e obviamente a "cura" era caseira - tive sorte porque não tive sequelas e os jovens da minha geração foram todos tratados da mesma forma.
      Com o devido respeito, precisamente porque acho que tenho , como todos aliás, deveres de cidadania, não consigo deixar de dar opinião.
      Não tenho a veleidade de ter razão, mas fundamento as minhas opiniões e sinceramente, creio que não leu o meu texto com a devida atenção, porque senão não teria reagido da forma como reagiu.
      Respeito obviamente a sua opinião , mas não me revejo nas criticas que me faz, com o devido respeito.
      Finalizo reiterando que vacinei os meus filhos e defendo o Plano Nacional de vacinação, mas tento perceber visões diferentes das minhas e quais as suas motivações.O que nunca entenderei é a má fé, e aquilo que vi e li sobre este caso, chocou-me como cidadã.
      Haja respeito por aqueles pais e pela jovem que partiu sem ter tido tempo para viver.

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    2. Bom Graça, eu disse o que me pareceu estar certo e, no plano científico, está mesmo.Não por birra minha mas porque "vem nos livros".
      Afora isto, acho que pensa como quiser, pois com certeza, tem direito a tudo. Até a ser injusta pois eu ouvi e li o próprio ministro da Saúde dizer claramente que não se deve culpar os pais em nenhuma circunstância. E reparou que me responde a coisas que eu nem coloquei? Boa noite.

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  2. Que me desculpe a senhora mas também entendo mal o seu texto. Não vi aqui nem em lado nenhum a "crucificação" de que fala. E a informação de que a moça falecida tinha reagido mal a uma vacina, levando os pais a desistir do processo, surgiu à posteriori. Como quer que fosse, seria bom não misturar as coisas e ter presente que ela foi contaminada por uma criança com sarampo não vacinada... E que foi noticiado que haverá cerca de 15.000 crianças não vacinadas, por negligência e/ou porque os pais simplesmente não querem! E é contra estes sabichões, que pretendem saber mais que os sábios, que tudo quanto puder ser feito não é de mais. E se há coisa que os responsáveis da saúde não têm feito é silêncio.

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  3. Em guerras onde se pretende ter razão, e não que a razão vença esteja onde estiver, não gosto de me meter, porque, por experiência da vida, nunca se chega a um lado sério e ficam sempre sequelas. Também tenho acompanhado todo este infortúnio da adolescente que morreu por ter apanhado sarampo, logo por azar, dentro do hospital, para onde tinha sido levada por causa de outro problema de saúde. Na verdade a comunicação social começou por relatar que os pais eram contra a vacinação dos filhos e por isso não a quiseram vacinar. Depois, afinal a criança começou com o programa de vacinas, tal como as suas duas irmãs o fizeram na totalidade, mas como houve um problema com as primeiras vacinações, que originaram tratamentos fora do comum, o programa foi interrompido e aconselhada a família que só num hospital, com apoios necessários, para o caso de surgirem problemas com a aplicação das vacinas. Como teriam deslocações fora do normal, o tempo foi passando, a médica pediatra, que acompanhava a criança, também não insistiu com a continuação da vacinação e agora, por um acaso deu-se a tragédia. Percebo e admiro a intervenção sentida da nossa colega Graça Costa e não me retenho em pormenores, porque a família da menina, assim como a sua memória, merecem-me todo o respeito.

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  4. Ó Joaquim, num debate, seja ele qual seja, argumenta-se. Nunca se deve é,por exemplo, dizer coisas como "não me atenho a pormenores" quando eles são "pormaiores". E são-no por que o interlocutor os aduziu e daí mereçam a nossa atenção. Quem não percebe a Graça? O problema é que muito do que escreveu merecia contestação. Peço-lhe que resista à tentação de ser intelectualmente e/ou moralmente "condescendente" pois não fica bem numa discussão, seja ela qual for. Não consigo entender, outro exemplo, a sua primeira frase! Quem, neste debate, "pretendeu ter razão"? Se me explicar, eu agradeço. Ou foi uma frase "atirada para o ar"? Não posso acreditar.

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  5. O problema é que o amigo Fernando Rodrigues, homem inteligente e bem documentado, por vezes, reduz a discussão ao pequeno facto que está em causa. Contudo, essa situação pode ser alargada e projectada em causas generalizadas e não nas momentâneas. Um argumento pode não ser o que um dos interlocutores acha apropriado ao assunto discutido e por isso, pormenores ou por maiores, podem ser uma questão de interpretação e medida. O meu amigo é um homem experimentado e vivido e conhece as almas e os corpos porque a sua profissão a isso o ateve. Eu, dentro da possível e da minha (in)capacidade, vou procurando perceber as pessoas e o mundo que nos rodeia, mas tenho a certeza que os meus raciocínios algumas vezes estão errados, não por que eu quero, mas por contingências da própria vida. Sou um pouco cartesiano, por que não me julgo muito seja no que for, e navego na dúvida permanente. Logo admito a razão dos outros, ainda que defenda os meus valores até reconhecer o erro. Quanto a frases "atiradas ao ar", não fazem parte do meu percurso, dado que em assuntos de responsabilidade não brinco em serviço. Quanto a acreditar, isso já é um problema de fé, que diz respeito a cada um. Considero-o como um Amigo e o desacordo de opiniões em alguna casos, não afecta o respeito e a consideração que por si tenho. Um sincero abraço lusitano.

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  6. Mais um texto seu com a sua marca: "pedagógico" e divagador. E "psicanalítico"... da minha pessoa. Ah! mas não me respondeu à pergunta que fiz quase no fim. Apesar de muito escrever, esqueceu-se. Sabe uma coisa de que eu gosto no blogue? É dos textos e dos comentários pois isso obriga-nos a vir à liça e aquilo que pensamos permanece para memória futura. O que os outros pensam é propriedade deles, agora que não nos "encolhemos, lá isso não. E, nesse aspecto, ambos somos parecidos.

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  7. O meu Amigo é um lutador incansável e se fosse lutador de ringue nunca atiraria a toalha. Eu também sou difícil de convencer e ao que chama "pedagógico" (entre aspas porque o desvaloriza) deve ser defeito que ficou de ser professor durante algumas décadas. Quanto a divagador, talvez me perca algumas vezes, extrapolando para onde não era o momento, "coisas de poeta amador", mas nunca me atrevo no caminho da ofensa. Quanto ao psicanalítico, do qual nada lhe posso acrescentar, merecedor de atenção, dada a sua formação e conhecimentos específicos, o meu Amigo fará a interpretação que lhe for possível de acordo com as pistas que eu deixo. Quanto ao ter ou não ter razão, a minha interpretação é de ORDEM GERAL, e não se refere especificamente a este assunto em debate, nem a ninguém em particular.

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