domingo, 18 de junho de 2017


Pedrógão Grande: a “mão criminosa” e a “mão” preventiva

Pedrógão Grande, 17/6/2017.

Perante uma tragédia desta dimensão humana e social (a das vítimas e das suas famílias), talvez o mais correcto seria estar (respeitosamente) calado, como silêncio significativo de pesar e solidariedade para com os familiares das vítimas. Mas também para com todos(as) os (as) que, de algum modo, combateram o fogo ou ali prestaram socorro a quem dele necessitou.

Ainda assim, talvez valha a pena reflectir, de entre as várias abordagens que a situação mereceu e continua a merecer, um aspecto a que vários jornais deram muito relevo: “Polícia Judiciária (PJ) afasta a possibilidade de mão criminosa”.

Já (quase) nos habituámos a darmo-nos por satisfeitos com a explicação (só) criminológica, judicial, em muitos domínios e um deles é o dos incêndios florestais.

E também neste caso, há o risco de restar a ideia de que o mais importante, o mais “explicativo”, é a análise criminológica. Não é.

Sim, parece que está explicada a origem, a “ignição”, a causa natural (uma trovoada, .mais especificamente, uma “faísca” numa árvore) do(s) incêndio(s).

Sim, estão explicadas as condições contextuais (temperatura elevada, pouca humidade, demasiado vento) de alimentação do(s) incêndio(s).

Porém, não está explicado por que é que estava ali, naquele local, tanto (e que) combustível (floresta) em condições de arder (que diversificação, que compartimentação, que afastamento da estrada, que monitorização...?).

Tal como não está explicado por que é que ali, naquela estrada, naquele local, naquela hora, com um violento incêndio a arder na zona, puderam ali estar (circular) tantas pessoas, as dezenas de vítimas.

Por isso, mais, muito mais, importante que saber se ali houve “mão criminosa” é saber, reflectir (prospectiva e, sobretudo proactivamente), se (também) ali, de algum modo, não houve “mão”.

Saber se (também) ali não houve, em devido tempo e medida, de algum modo, falta de “mão” preventiva.

E, já agora, por que é que agora somos mais induzidos a fazer tal reflexão?

Porque alguém, qualificado (a PJ), vem dizer que “não houve mão criminosa”.

Se, porventura, a PJ (ou qualquer outra entidade) viesse dizer (ou tão só admitir, ainda que pelo silêncio, não negar categoricamente como já negou) que “houve mão criminosa”, a reflexão acabaria aqui: houve “mão criminosa”, está tudo (facilmente) “explicado”. E pronto!

Isto para dizer que, neste como noutros domínios (mas sobretudo neste), a “mão criminosa” (e não só…) tem sido, muitas vezes, o “manto diáfano” que tem escamoteado outras responsabilidades, mormente as relacionadas com a (não) assumpção das medidas adequada, suficiente e atempadamente preventivas.

João Fraga de Oliveira

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