sexta-feira, 2 de junho de 2017

Vitória de Pirro

A viva discordância do Dr. Fernando Rodrigues com a questão de fundo que deu corpo a uns versinhos meus com o título “honrar o que semeia” merece mais algumas palavras.
Os estudos do doutor Damásio no domínio do cérebro são, como será fácil perceber, demasiado complexos para o comum dos mortais. O que nele me “dessincronizou” foi o título que deu ao livro em que explicita o seu trabalho porque, do alto das minhas perplexidades, parece-me que mistura mesmo alhos com bugalhos.
E porque a filosofia sempre desbravou caminho à ciência, não me pareceu bonito esse cantar vitória sobre aquela, tanto mais que, na essência, Damásio nem descobriu nada que desminta Descartes.
E é meu entendimento que estando o “nosso” cientista há muito inserido na sociedade americana, que divide as pessoas em winers e losers -  não há meio termo - isso seja um factor de forte pressão…
No mais, palpita-me que muito tempo depois de já ninguém se lembrar de quem foi Damásio, o pensador francês continuará vivo, pelos séculos dos séculos, amen.

                              Amândio G. Martins


7 comentários:

  1. Meu caro Amândio Martins (permita-me que continue a tratá-lo assim) foi uma surpresa vê-lo de volta com este tema. Mas é sempre bom "discutir" consigo. E começo por lhe dizer que acho que concordo consigo em que o título "O Erro de Descartes" possa ser um bocadinho "pretensioso". Mas já não concordo quanto ao A.Damásio querer uma "vitória". Muito menos de Pirro. Descartes foi e é uma figura ímpar e "eterna", o problema é... que o mundo "pula e avança e nada é imutável. E a tese do luso-americano é mais um elo nesse devir em que o saber se espraia e nós nele. Respeitemos o passado e avancemos no futuro. O nosso tempo é só o nosso tempo.
    Dito isto deixe-me contar-lhe uma coisa. Quando o "Erro de..." saíu, o autor veio a Lisboa fazer uma conferência na Gulbenkian e eu meti-me no carro e fui ouvi-lo. Na sala "à cunha" não se ouvi-a uma mosca e o homem falou durante uma hora, num português correctíssimo e explicando "por a+b" donde, experimentalmente, lhe saíu a tese do livro. A isto junto a noção da real complexidade ( de que o Amândio fala) do que tenho lido e observado, mormente numa séries de seminários que tenho frequentado por diletantismo intelectual, muitos deles na Universidade Católica, sobre o cérebro, as suas funcionalidades, a sua composição, etc. E digo-lhe... mais de metado do que julgava entender... foi-se! É um espanto de evolução no saber sobre o assunto!
    Já muito perorei, perdoe-me o "arrazoado". Descartes é enorme, Damásio é grande, os tempos de um e outro são muito diferentes. Acho que nem o último quer vencer ninguém, nem o primeiro diria do segundo que ele o tentou conseguir. Neste nosso tempo sem eternidade ( pelo menos no meu caso), aprender num "continuum" é o meu dever e é isso que tento fazer... muitas vezes ( a maior parte, porventura) sem o conseguir.
    É um gosto dialogar consigo "às escâncaras" nesta Voz da Girafa que se pretende uma "espécie de ágora", embora pequena.

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  2. Só lhe posso ficar grato pela paciência demonstrada...

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    1. Grato sou eu por esta conversa que, como lhe disse, tenho todo o prazer em ter. Bom fim de semana!

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  3. Grato sou eu, e aos dois de uma assentada. Por insuficiência minha, não me atrevo a cogitações nessas áreas, que me arrepiam quase tanto como pensar no espaço infinito. São coisas grandes demais para o meu cérebro, que não ultrapassa o instituto dos mistérios da existência. De facto, o cérebro a pensar-se a si próprio… é obra!
    De toda a maneira, a minha gratidão vai para o ânimo que a vossa discussão me despertou e, baixando um bocadinho a parada, que a mais não chego, ocorre-me perguntar: será que Descartes, se vivesse hoje, dispusesse das ferramentas actuais e do saber entretanto acumulado, não teria subscrito Damásio?
    Já agora, pergunto: quanto não ganharia em sabedoria o mundo e a humanidade se Descartes e Damásio tivessem tido a possibilidade de se defrontarem vis-à-vis, “às escâncaras”?

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  4. É bom vê-lo "chegar", José! Pelo que disse é que eu falei dos "tempos diferentes". Realmente deveria ser óptimo ver esses dois génios conversar! Aí veríamos as "luzinhas" da emoção "damasiana" fazer o caminho até ao pensar "descartiano ( realmente o Amândio tem razão quando diz que não há contradição) e... nós agitar-nos-íamos mas mais ricos com certeza! E legaríamos aos vindouros a mesma curiosidade que às vezes "doi" mas é sempre preferível às ideias feitas para todo o sempre e, pior ainda,qu muitas vezes querem ser didácticas.

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  5. O que das palavras de ambos se infere é que da discussão nasce a luz... Mas se as pessoas estão de má-fé, não sabem ocupar o seu lugar e respeitar o dos outros, o que daí surge é quase sempre um montão de porcaria.

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  6. Cito, com adaptação, o “Escrito na Pedra” do Público de hoje: tomar a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos é também (ocasional) vontade de se ser estúpido. Nietzsche.

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