sábado, 1 de julho de 2017

Greves


Já desabituados do “fenómeno”, assistimos recentemente a um tímido surto grevista que, segundo alguns, prenuncia ferrugem na geringonça governamental. A greve é, obviamente, um instrumento que causa danos a (quase) todos nós e, se assim não fosse, de pouco serviria usá-la. Os trabalhadores em luta perdem salários, os utentes afectados perdem direitos. Por norma, quem não faz a greve, mesmo se já participou noutras, está contra o direito que lhe subjaz, e inicia sempre o libelo com um cândido reconhecimento do “legítimo direito à greve”, acrescentando, todavia, que, “neste caso”, por isto ou por aquilo, é condenável. Espero ansiosamente a primeira vez em que alguém não chegue à conclusão de que greves, sim, mas só sem lesados. Pouquíssimos concedem naturalidade ao “fenómeno”, admitindo que a sociedade lhe tem de sobreviver, sem sobressaltos, adaptando-se, e inventando alternativas que reduzam os efeitos perniciosos. Portugal, em democracia, já sofreu milhares de greves, e nem por isso se deixou de fazer o que quer que fosse de absolutamente vital. Já agora, lembremos Brecht: “diz-se que é violento o rio que tudo arrasta, mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem”. 

1 comentário:

  1. Um texto civilizacional e ideologicamente político, com cujo conteúdo estou totalmente de acordo. De sinal contrário ao que o antecedeu no blogue mas bom na mesma.Para sabermos quem e o que somos.

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