terça-feira, 26 de setembro de 2017

Benta, uma terrorista acidental







Como é de imaginar, o gabinete do chefe das secretas, o chefe mesmo, a quem chamam de Director, é o ambiente mais asséptico que existe em todos os ambientes-gabinetes públicos, todos mesmo, incluindo os blocos operatórios e os laboratórios sofisticados.
Não é dos líquidos e dos pós, que esses também não se olha a despesa, é de ser um local onde não entra nem sai uma aragem que seja, muito menos uma palavra mal balbuciada, que escape aos trambolhões e venha a causar um tsunami seco.
Há gente própria, apropriada dizendo assim, com cursos para isso, cuja carreira profissional é monitorizarem a tempo inteiro a salubridade, higiene e estanquicidade do gabinete do senhor Director das coisas secretas.
Não se sabe se são felizes e realizados, cumprem essa função, vão para suas casas, têm ou não família, e hão de vociferar uma que outra vez em frente a um jogo de futebol.
Do Director é que nada se sabe. Não é visto em lado nenhum. Ouvido ainda menos. Nada. Diz-se que é ubíquo, mas não se vê. Também de Deus se diz isso e igualmente não se vê. Pode ser que havendo dois nessa condição já seja mais fácil de acreditar na ubiquidade, só vendo-os.
A história que traz hoje a falar nesta história de vida tão desinteressante, monástica, mas vácua, é a da Maria Benta – parece de propósito, o nome, mas não é.
Esta mulher ganha sete euros à hora, sem descontos para a Segurança Social. Se um dia chegar à reforma – não vai chegar – vai bater com as fuças na porta, não fosse parva e tivesse escolhido outra profissão. Foi um encarreirar de decisões lastimosas desde pequena, tudo ao lado, mas ela é feliz. Pelo menos serena, parece.
Maria Benta, como se verá não vai ser pensionista – serviçal até ao último dos suspiros, mal suspiro já falho de alento vital - mas vai ser uma heroína, coisa que ela não preferia, por não saber que gosto de boca é esse, e por que a reforma dá mais jeito para comprar as coxas de frango no supermercado.
Voltando ao gabinete. Quando o seu locatário está ausente, por serviço ou o que seja da vida dele, ultra-secreta, o silêncio é inaudível, bem como qualquer tipo de som, havendo aqui uma incompatibilidade, discordante o suficiente para ser alvo dos maiores arrasos críticos. Só lá entram os eleitos, e esses, uma meia dúzia.
A Secretária, cega, surda e muda, salvo seja. O chefe de gabinete, fidelíssimo, como um retrevier, o coordenador do departamento dos hackers, indiscritível tatuado na ponta do nariz mas com gravata verde às pintas, e a Maria Benta.
Veio cedo, mal acabada de criança, de uma aldeia de uma dessas serras monótonas que por aí há. A aldeia já não existe, ardeu toda e o seu conteúdo. Veio a servir para casa da mãe da esposa do senhor Director, a sogra portanto. Gente credibilíssima, educada em preceito, alinhada com os ditames da orientação política da nação. Dados a uma exaltação contida da fé. Era um nó górgio, vê-los em acto de prece, fosse no inicio das refeições, no final das mesmas, nas benzeduras à entrada ou saída de qualquer das divisões da casa, aos domingos, finalmente, na apoteose dos rituais exemplarmente executados e acompanhados nas missas celebradas por um pároco que acabou em bispo de Roma, onde a família, elas de mantilha, eles de traje de gala negro, foram a beijo de mão de Papa, só para se ver a importância deste aglomerado familiar com sobrenome. 
A rapariga cresceu neste ambiente e ao mesmo tempo foi-se-lhe minguando a vontade de qualquer espécie de contacto com qualquer espécime de ser complementar do seu género. Homens. Fez futuro naquela casta residência, entregou-se abrindo-se em toda de si, aquela vida de quase clausura.
Entretanto estas coisas não perdoam e a sogra faleceu, o recheio da casa foi redistribuído e a Maria calhou em herança ao Director, foi no enxoval.
Pouca foi a mudança, nenhuma. Acabaria aqui o relato se se continuasse a descrever estas minudências sem-sabor, mas acontece que a Maria é uma mulher que sem o saber – nem antes nem depois de que está prestes a acontecer na realidade – vai mudar o mundo. Quer dizer, não é todo, só esta parte apequenada do que chamamos o nosso mundo.
Quando os filhos do Director e da esposa deste, cresceram o suficiente para serem considerados adultos, e o Director voltou para casa depois de uma carreira exemplar como espião, resolveram dispensar os serviços internos da Benta. Com sessenta anos bem medidos, era tempo de ela dar ares de viva.
 Sendo uma família irrepreensível – e nisto os espiões são-no -, puseram-na de porteira no prédio da filha mais velha: Maria da Conceição. Cubículo acanhado e meio-obscuro, com um postigo, quase a única janela da casa, a dar para as entradas e saídas do prédio. Ela continuou a prestar serviços em casa dos senhores e para realizar mais algum capital, para equilibrar as suas contas, simples de fazer, arranjaram-lhe, por ajuste directíssimo, um lugar de higienizadora do gabinete do senhor Director, na sede das secretas. Ou seria melhor dizer secreta?
De repente, de um dia banal para outro absolutamente inesperado, esta mulher passa a conviver (em solitário mas ainda assim a conviver) num dos locais mais exclusivos do país, só reservado – se já se disse, e se sim nunca é demais repetir  - a uma quase mão cheia de eleitos.
Tendo em atenção o rigor com que estas coisas funcionam, assim se imagina, Maria Benta fazia as limpezas às segundas e sextas feiras, entre as seis horas e trinta minutos e as oito horas, impreterivelmente, e de manhã. Chegava à portaria, cumprimentava o guarda de serviço, passava ao lado daquela máquina que dizem tira fotografias aos interiores das pessoas e das coisas, e sendo da casa e sendo das limpezas, para quê formalismos desses, a obrigarem a ligar a máquina de propósito as seis horas e trinta minutos das segundas e das sextas?
O guarda dava-lhe uma fita de pendurar ao pescoço e lá ia ela, elevador acima, que por alguma razão, os gabinetes dos Directores ficam sempre no último piso.
A entrada no gabinete faz-se por introdução de um código alfanumérico seguido de reconhecimento plantar e de rosto. O código levou um mês a decorar, e pelo sim pelo não, trazia-o apontado num papel devidamente dobrado, guardado entre o seu o seio cheio e o aparador sintético do mesmo, que os espanhóis dizem sujetador, uma palavra muito mais plena de significado e de entendimento imediato. A nossa língua por vezes complica.
O serviço de Maria Benta obedecia a um protocolo mil e uma vezes testado, lá fora, no estrangeiro, e replicado cá dentro: não podia mudar nada de sítio, não tomar atenção a nenhum documento que na mais remota das possibilidades tivesse ficado aberto (simples para ela que era analfabeta), não decorar imagens que estivessem a passar no ecrã do computador naquele intervalo das limpezas, e na eventualidade remota de por azar dos azares, deixar cair uma caneta que fosse, permanecer queda e hirta acenando só com a mão direita num movimento de semi-rotação da mão, para aquele olhinho minúsculo quase escondido  na esquina superior direita da moldura da fotografia do senhor Director com o Senhor Presidente anterior da República. Moldura esta estrategicamente colocada numa prateleira com livros de certeza muito sérios dado o facto de estarem revestidos a couro de qualidade superior.
Ela sabia, pelo protocolo, que dentro desse olho minúsculo, alguém a observava, e que viria, em caso de acidente fortuito, em seu auxílio.
Graças a Deus - que é nessas alturas que mais se necessita da sua bênção - nunca precisou de acenar em movimento de semi-rotação da mão direita.
Até o dia. Até os santos claudicam.
Nada de especial aconteceu na véspera desse dia, na antevéspera, nos anteriores dias a essas datas até mais para trás que se procure. As suas rotinas foram as de sempre, nenhuma notícia inesperada beliscou a passividade búdica da senhora, neste caso eterna donzela, Maria Benta, de apelido esquecido e não chamado para o caso.
Foi numa sexta feira, que explicará algum cansaço visual do licenciado ao cuidado da observação electrónica do escritório do Boss. Como o país em apreço não tem eventos de maldade humana extrema, aparte uma seixadas na cabeça e algumas, poucas, mortes por envenenamento com DDT, em casos de traição amorosa, durante o fim-de-semana as secretas descomprimem. Não se está a ver quem nos queira fazer mal em vez de visitar os Clérigos, ou a Torre de Belém e de seguida degustar uma nata ou uma francesinha ( não se leve literalmente).
Maria Benta nesse dia esqueceu-se do código, e no reconhecimento facial complicou-se: a placa estava lassa e ela deixou-a em casa, no sítio habitual: mesa-de-cabeceira, copo de água. Não sendo a primeira vez, o incidente não desculpa nada. Com ou sem dentes Maria estava mais do que treinada a cumprir na perfeição os padrões de exigência da sua função. Ultrapassadas estas contrariedades porque o identificador computacional de tanto a ver acabou por reconhecer um rosto familiar, ela fez os trabalhos que tinha que fazer.
Nesse dia o computador estava ligado. Passavam imagens de uma bela paisagem, de verdes e acobreados, num lugar seguramente de muita vegetação. Via-se quem o pudesse por autorização superior fazer, uma vedação igualmente verde onde aqui e ali saltavam alegremente por lassidão da malha – assim parecia – coelhitos jovens.
Ela não viu nada disto porque estava proibida de o fazer. Se o tivesse feito teria visto que no rigoroso ponto geodésico que marca o centro do ecrã do computador do senhor Doutor, piscava insistentemente um quadrado com dizeres, emoldurado por um filete vermelho intenso, também piscante.
Não viu e não tinha que ver.
O que acabou por acontecer foi infinitamente pior do que as consequências. Pela primeira vez na sua vida, teve uma tontura tão enublada que lhe apagou o discernimento ocular durante um período de tempo, medido por ela como do tamanho de uma eternidade (pobre espírito, tão simples e a querer falar da eternidade!).
Nessa fragilidade que se apossou de um corpo guiado por uma cegueira temporária, deu com o cotovelo esquerdo (o pior porque era com o direito que ela orientava os afazeres da vida) no teclado do computador do senhor Director dos Serviços do “não digo nada a ninguém, só eu sei.”
Ouve um apagão. Entre o licenciado bocejante dar conta e entrar de rompante e a situação normalizar aconteceu um roubo de bichas e rastilhos que não aconteceu e ninguém sabe de nada do acontecimento em si.
 Maria, coitada da Maria Benta, iniciou naquele dia uma romaria interminável pelas Consultas Externas de um certo hospital público, vindo a terminar desmemoriada e desconhecedora daqueles rostos idiotas que lhe acenavam constantemente a mão em movimento de semi-círculo e mexiam os lábios emitindo sons que ela não reconhecia.

O Senhor Director desconfia-se que não é ubíquo.

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