terça-feira, 16 de abril de 2019


Nem sei que nome dar a isto...


O problema é recorrente em países onde tudo é frágil, onde a organização do Estado só em teoria existe e a corrupção domina todas as instituições; estados falhados, onde o cidadão comum está sujeito a todas as arbitrariedades, como agora se verifica na martirizada Beira, em Moçambique.

É verdade que Moçambique é um Estado jovem, que passou por uma guerra civil após a independência, mas situações como as relatadas abaixo são demasiado más para serem desculpadas; é que apesar da generosidade de outros povos, que responderam rápido aos apelos, aqueles que mais precisavam de ajuda, por terem ficado sem nada, continuam na mesma e sujeitos à mais aviltante degradação, para conseguirem alguma da comida que lhes foi graciosamente doada.

Num trabalho de José Miguel Gaspar, o JN dá conhecimento dos hediondos crimes a que estão sujeitas algumas mulheres que recorrem ao que lhes é devido, com a agravante de nem poderem recorrer à polícia, porque está tudo “contaminado”: “Ela já tinha percebido, quando viu a cara do homem encostado ao camião, mas ele não deixou dúvidas de quais eram as suas intenções, quando lhe disse que não levava nada, que fosse para casa que depois ele passava por lá com a comida que lhe cabia”.

“E o homem chegou, já noite cerrada, com metade do arroz que lhe pertenceria, dizendo-lhe que se ela tinha fome já sabia o que teria de fazer, naquele momento e de futuro; a mulher reclama que tem ali as crianças mas ele insiste, e ela vai buscar um pequeno colchão, que estende no chão e sobre o qual se deita para ele que, no fim, lhe repetiu o que já tinha dito”.

Contou a mulher que já tinha sido violada por ele três vezes, que fazia o mesmo com outras mulheres sem marido como ela, abandonadas, viúvas, solteiras ou divorciadas; e segundo o activista moçambicano Rui Lamarques, pode haver um grande número de mulheres a sofrer aquela violência. E é por escroques deste calibre que, em conluio com os chefes locais, é feita a distribuição dos bens doados, que os desviam e aparecem depois à venda nas mercearias de indianos e outros...


Amândio G. Martins

3 comentários:

  1. De facto, não se pode dar nome a um horror inominável!
    Parece que o homo sapiens está a perder os valores que até os símios tem impressos no genoma- coesão de grupo e proteção dos mais frágeis ...

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  2. O seu texto, Amândio, desperta-me reacções de variado tipo. Algumas que poderão chocar pelo facto de serem reactivas a uma história que, obviamente, é MÁ em sim mesma. Realmente o problema da organização do Estado é fulcral e direi que o que constata só peca por defeito pois Moçambique teve uma guerra civil após a independência... vinda duma guerra colonial. E um Estado pode ser frágil porque não tem meios mas também porque está estruturado sobre maus princípios ideológicos/intereseiros. O primeiro caso será o de Moçambique e... nele emergem as maldades individuais de que a história que conta é exemplo. O segundo caso terá como exemplo o Portugal salazarista/marcelista em que ( o caso será menor, mas só aqui o trago como paralelo da distribuição de comida no caso da Beira) o vinho e medicamentos que devia haver nos quarteis da guerra, não existia mas... estava á venda, com o rótulo de "especial para as Forças Armadas"), nos restaurantes das cidades. E o pouco que havia... só podia se rvendido a oficiais, como se os soldados não pudessem comemorar algo ou... tratar-se de maleitas. E as violações perpretadas por tropas da ONU em cenários de guerra e catástrofe? E aqui aparece o ser humano totipotente,sem genoma que perdeu na "evolução", sobrevivente na penúria, sem educação civilizacional, brutal, a fazer estas barbaridades que, não tendo desculpa, poderão ter explicação antrpológica e, mais ainda, sociológica e... política. Perdoe-me o Amândio se entender que estou a ser rebuscado e, mais ainda, escolhendo este seu mote para fazer análise. Faça o mesmo comigo, se o entender. Aliás estaremos de acordo que Estado incipiente+ "maldade" humana+ carência alimentar, é um "caldo de cultura" perigosíssimo.

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  3. Os seus comentários, como os de toda a gente que acrescenta e esclarece, nunca me poderão incomodar, Dr Fernando...

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