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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Depois, logo se vê


Sempre compreendi os desejos dos brexiteers. A conduta de Bruxelas é, muitas vezes, irritante e intrusiva, mesmo sem haver manifestações de abandono da UE, coisa que, aliás, é um pressuposto da entrada. Mas só teoricamente, como se viu com o comportamento da União nas negociações com Londres. Compreendo menos, ou nada, a atitude de avestruz conduzida por alguns dirigentes e responsáveis (?) britânicos, entre eles o actual primeiro-ministro. As coisas são como são, e actuar só como nós achamos que deveriam ser não é de gente com dois palmos de testa ou de bom-senso. Devem já ter-se feito milhões de estudos sobre as possíveis consequências do Brexit, para quem sai e para quem fica, e não me parece que alguém tenha certezas irrefutáveis sobre essas conclusões. Pois Boris Johnson, qual menino casmurro, em perseguição de uma ideia que mete medo a muita gente, persiste no “erro”, pensando que vai fazer vingar a sua teoria. Não há-de ser nada, pode ser que tudo corra bem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Arrogâncias avulsas

O Reino Unido tem nostalgia do antigo Império, o tal onde o sol nunca se punha, e não está habituado a negociar em termos de paridade. Os britânicos sempre o fizeram no patamar superior, acatado, aliás, por todos os outros. É certo que, neste Brexit, contavam com a cumplicidade dos EUA, mas lealdade é palavra que Trump não conhece (America first, os outros que se lixem). Resulta que a construção da UE, uma belíssima utopia, pode estar (como sempre esteve) em causa. Averbou-se o ganho de mais de setenta anos em paz, mas os ideais do início foram-se perdendo no caminho e prevaleceram os interesses do costume, comerciais e financeiros, comezinhos, a puxar sempre para o lado de quem mais pode. Que é quem faz as regras e, já dizia o outro, “quem parte e reparte… etc., etc.”.
O emaranhado jurídico que se foi tecendo atingiu tal dimensão que não se permitem veleidades de saída a ninguém, apesar de existir um “artigo”, no (des)ordenamento jurídico comunitário,  que a permite a quem desejar. Vê-se! O desejo da punição, para exemplo de eventuais recalcitrantes, é mais forte do que o bom-senso contratual. Enfim, não se augura nada de bom, e desengane-se quem pensa que os “estímulos” negativos que estão a ser infligidos aos arrogantes britânicos acautelam o desmoronar da UE.  



domingo, 8 de abril de 2018

E se…?


Imaginemos que um governo em dificuldades, sem atinar com a saída do Brexit em que se meteu, revolteando na cama das dúvidas, entrevê, na bruma do sonho, uma luzinha tremelicante em forma de “verdade” - que até pode ser fake! – que, certamente, virá a empolgar a maioria dos “aliados”, sequiosos de ouvir patranhas úteis. A etérea inspiração, brilhantemente descoberta naquela bruma, até poderia fluir de um gás, de preferência neurotóxico, de muito difícil obtenção. Calhava bem era que aparecesse um Skripal qualquer, convenientemente desprevenido, a quem o aplicar, e, depois, um refinadíssimo e incontestável patife a quem imputar o crime. Putín ajustar-se-ia perfeitamente ao papel de “saco de boxe” dos punhos unidos de uma Europa arisca que, assim, desviaria alguma atenção ao castigo a infligir à separatista e pérfida Albion.

Quando há crime, os detectives não descuram o móbil. Que lucraria Putín com o assassínio do ex-espião duplo, sobretudo depois de ter desbaratado tantas oportunidades de o cometer, com ele ali mesmo à mão, nas suas próprias masmorras? E logo agora, com o Campeonato do Mundo de futebol à bica? Não se vêem muito bem os ganhos...

E se…? Não, não me atrevo a concluir a pergunta. Mas não consigo alijar a pergunta que, mera hipótese académica, me oprime, sobre o que ganharia o governo de Theresa May e do descabelado Boris Johnson com o embuste. Parece-me que muito…

JN - 08.05.2018, com o título modificado para "O sonho de Theresa", e com pequenas alterações. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Nem depois da casa roubada


Um pouco por todo o mundo ocidental, os dirigentes políticos não ganharam para o susto perante “fenómenos” populistas que eles próprios provocaram, após governações afastadas dos povos e seus anseios. Tivemos os inesperados Brexit e Trump, e adivinhou-se a inevitabilidade de outros desastres. Afinal, Wilders não se confirmou, Le Pen parece estar a perder algum gás e, na Alemanha, a extrema-direita ainda parece bastante verde, pouco madura.

Os resultados eleitorais da Holanda levaram toda a Europa a respirar de alívio com tal força que quase se formou um novo núcleo anti-ciclone. Não receio vendavais, tenho outros temores: será que estes “nossos” políticos, de tão aliviados que se sentem, não estarão já a varrer para debaixo do tapete os arrependimentos que, por respeitinho aos cépticos eleitorados, repentinamente, tentaram mostrar? Um pouco como o sector financeiro mundial parecia querer fazer após a crise de 2007, mas de que rapidamente se esqueceu, retomando, passado o susto, as velhas práticas que levaram à débâcle. Com gente desta, não me admiro que, mesmo depois da casa roubada, se esqueçam de lhe pôr tranca na porta.

Público, 22.03.2017 - truncado das partes sublinhadas.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Não aprendem, já sabem tudo


Sem sanções a pairar-lhes sobre a cabeça, os britânicos mostraram querer sair da UE. Se vão sair ou não, e quando, ninguém o saberá com certeza absoluta. Razões para a saída? Evidentemente, a questão da imigração, de refugiados ou não, mas, também, a enérgica recusa de interferências abusivas de Bruxelas & Cª nas suas próprias vidas. Imagine-se como reagiriam os britânicos se os ameaçassem com o mesmo que, agora, dizem querer fazer a portugueses e espanhóis, com ou sem castigos (incentivos???) simbólicos. Diriam eles, submissamente, “yes, sir”? Nas suas brincadeiras infantilmente irresponsáveis, no autêntico reino do faz-de-conta, estes aprendizes de ditadores que nos vão governando não aprendem uma única lição, ao contrário do que todos pensámos aquando do Brexit. Os burocratas do Poder europeu, hipocritamente escudados nos superiores interesses da União, estão claramente apostados em quebrar as espinhas dorsais dos Povos e, como ainda agora se viu, quando alguns deles abandonam a vida política, “amandam-se” para o serviço, sem intermediários, do grande capital financeiro. Ninguém me convence de que, enquanto andaram na política, se preocuparam com algo mais do que preparar os seus futuros dourados, na doce indiferença dos prejuízos que a todos nos infligiram. Schäuble, a menos que tenha um projecto político pessoal (será que não tem?), mais ou menos tenebroso, irá para que cargo?

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A Europa tem alma?


Peter Sutherland, irlandês, 70 anos, representante especial das Nações Unidas para as Migrações e o Desenvolvimento, entrevistado há dias pelo Público, declarava-se preocupado com a alma da Europa. Mas será que ela ainda a tem? Ou, pura e simplesmente, a substituiu pelo porta-moedas e pela conta bancária? Se a mantivesse com os desígnios com que nasceu, teria acontecido este “inesperado” sucesso do Brexit? Os dirigentes europeus e as políticas que vêm prosseguindo são os directos responsáveis por este desfecho. Inclino-me a acreditar que os cidadãos europeus desejam a integração, não obstante a erupção de movimentos populistas que a repudiam e que também são o complemento directo dos mesmos protagonistas, que insistem em moldar os cidadãos às suas vontades, ideias e interesses, elevando aos altares objectivos reducionistas de uma construção humana que, no início, perseguia valores como democracia, solidariedade, justiça e humanismo. Mesmo os defensores do Bremain, incluindo, provavelmente, a malograda Jo Cox, mais não fizeram do que esgrimir argumentos de baixa ordem materialista para convencerem os concidadãos à manutenção. Algo não está bem nesta UE se os britânicos, apesar de desde sempre alvos de tratamento privilegiado e avisados à exaustão dos prejuízos com que vão arrostar, ainda assim quiseram sair. A pobreza dos argumentos mostra que a alma da Europa se escapuliu na ponta do bisturi de Caudillac. E, a continuar assim, nunca mais a reencontramos.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Brexit

A partir de agora, os ingleses podem fazer o que lhes apetecer no seio da União Europeia. Quando lhes chamarem a atenção por alguma “coisinha”, vão ameaçar referendo/saída e pronto! Se a moda pega, os outros membros poderosos da União vão começar a reclamar “estatutos especiais” por tudo e por nada. Acho bem e também acho que esse direito de reivindicação devia ser rotativo, como a presidência. Quando chegar a vez de nós, os portugueses, “exigirmos” a bagatela de flexibilizar uma décima do nosso déficit orçamental, estou mesmo a ver a resposta, se calhar unânime: “A porta da rua é a serventia da casa”, dirão os dedos em riste. E, para que não haja dúvidas, ouvir-se-á um coro (algumas vozes sairão envergonhadamente sussurradas): “RUA. Rua, que é a sala dos cães” (não nos chamaram já PIGS?). Mais uma vez se comprova que a TINA é um embuste. Há sempre alternativas, como os ingleses nos acabam de mostrar. Se é só para os grandes, isso já não sei, mas há. E, como tudo cabe na conversa, uma pergunta inocente: caso os britânicos se mantenham na União, quem paga a alternativa que lhes oferecemos? É que, como tudo na vida, estas coisas têm custos…

Público, 13.03.2016 - texto truncado das partes sublinhadas.