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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

EDUCAÇÃO e SAÚDE: onde estão as admissões anunciadas?





Em Setembro de 2017, o Ministro da Educação, do anterior e do actual governo/PS, anunciou a contratação de mais 1500 auxiliares de educação para as escolas. Perante os protestos e constatações, quase diários, da falta desses funcionários, exigir-se-ia que o ministério informasse claramente, onde e quando, esses 1500 auxiliares de educação foram colocados.

Mais recentemente (Agosto/2019), a Ministra da Saúde, do anterior e actual governo/PS, anunciou a contratação de mais 1442 profissionais para hospitais (152 enfermeiros, 162 assistentes técnicos, 710 assistentes operacionais). São conhecidas as carências de pessoal no Serviço Nacional de Saúde, pelo que também o ministério deveria informar quantos e onde já foram colocados.

Para que estes anúncios não se transformem em propaganda, para deitar água na fervura do descontentamento, os deputados e a comunicação social, deviam confrontar os responsáveis governamentais com o cumprimento dos compromissos que anunciam e assumem. E também com saídas que entretanto se verifiquem, porque se entrarem dez, mas saírem outros dez, a situação de insuficiência não se altera.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Sugestão para a última lição do Presidente



Estará prevista para o próximo dia 20 de Setembro, a última lição do Presidente Marcelo como professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A lição deveria talvez abordar o cumprimento da Lei do Orçamento de Estado, que está no cerne do diferendo entre professores e  governo e que o Presidente tem evitado comentar.

O prolongado conflito com os professores, como afirmam as organizações dos docentes e partidos que também aprovaram o O.E. (PCP, BE, Verdes), radica no facto do governo não cumprir a Lei do Orçamento de Estado de 2018 (Lei 114/2017), bem como a Resolução n.º 1/2018, ambos aprovados na Assembleia a República.

O governo pretende não considerar todo o tempo de serviço nas carreiras, que o artigo 19.º do O.E. refere e que a Resolução n.º 1/2018 reforça. Na discussão do O.E. existiu uma divergência entre a expressão a ficar, «de» ou «do» tempo de serviço, acabando por ficar consagrado o «do», para que todo o tempo de serviço na carreira seja considerado para efeitos de progressão.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Falta de educação

O texto expelido por Guilherme Valente (GV) no Público do último domingo confunde-me. Não percebi o que pretende ele para a nossa Educação. Estigmatiza o que se fez na escola portuguesa desde 1974 e quase confessa que, para si, a educação do “antigamente” é que era boa: exames, gestão centralizada das escolas, professores “armados” contra alunos “iletrados” e “abúlicos”, quais “selvagens violentos”. Os tais em que muitos reconhecem a geração mais bem preparada de todos os tempos e que vão caindo nos países desenvolvidos como sopa no mel. Daquele arrazoado todo, só retive uma ideia: a escola actual não vale nada, apesar das tentativas correctoras de David Justino e Maria de Lourdes Rodrigues, “alargadas decidida e decisivamente por Nuno Crato”. Donald Trump não efabularia melhor que GV: venha a memorização das linhas ferroviárias da Beira Baixa, mesmo que já tenham sido desmanteladas. Então, sim, o PS poderá retomar a “preocupação social”, esquecida que foi em prol da adopção suicidária das “causas societais do esquerdismo”. GV diagnostica cegueira ideológica ao PS, topa-lhe o argueiro. Não vê é a trave.

Público - 31.01.2017 - truncado das partes sublinhadas.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Agora é que choram?

Vou ouvindo por aí vozes carpideiras sobre o “inevitável” encerramento de não sei quantos colégios, acarretando não sei quantos professores e profissionais do ensino para o desemprego. Motivo: a “desbragada” determinação do Ministério da Educação em não celebrar novos contratos de associação em determinadas situações. Há quem confunda isto com o “rasgar” de contratos existentes, o que, notoriamente, não se verifica. De sublinhar que algumas daquelas vozes são as mesmas que, quando o Nuno Crato encerrou escolas, turmas e lugares, proclamavam a inevitabilidade das medidas, sem qualquer respeito pelos “descartados”. Muito respeito me merecem os que, pelas circunstâncias actuais, poderão vir a ficar sem emprego, mas, ao contrário de então, e de um ponto de vista global, havendo deslocação de alunos de um negócio privado para o serviço público, criar-se-ão, por compensação, novos empregos, tornando a operação em soma de resultado zero no desemprego, em vez da espadeirada cratiana. Por outro lado, não vejo essas vozes incomodarem-se com a possibilidade de os contratos, que caducarão no termo certo e previamente definido, terem sido celebrados, ao que parece, com base ilegal. Por fim, e a culminar a minha estupefacção, aí estão, em coro afinado com as “carpideiras”, diversos militantes PS. Devem ser estes os que representavam o Partido no tempo em que havia o arco da governabilidade. Nunca falte a força ao actual Governo para reverter os erros do passado.


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Artes. Ensino. Futuro



Numa das últimas intervenções do Ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e a propósito das alterações da avaliação dos alunos no ensino básico; disse que as artes, no ensino, seriam uma área prioritária. Estou totalmente de acordo. Pois, agora, apesar de fazerem parte do currículo do nosso ensino básico, as artes da forma que estão e são vistas por todos, não passam de uma espécie de cosmética de salão. No ensino das artes, para além da sua história, a sua expressão, pode ser mais livre ou mais rigorosa, com mais imaginação/criatividade ou mais processual/metodológica. O ensino básico começa no 1º ano de escolaridade e termina no 9º. Entre estes anos existem três ciclos. Naturalmente, o ensino das artes, tal como outro qualquer, para se justificar no nosso sistema, tem de sentir-se a sua evolução, do 1º ao 9º ano; tal como na evolução natural das técnicas e sua representação, não podemos ficar pela idade das cavernas, onde as paredes eram o suporte por excelência. Assim, espera-se que seja realmente efetiva a preocupação do novo ME. A acontecer, teremos uma formação de alunos e professores, diferentes, no 1º, 2º e 3º ciclos. Então, desta forma, teremos muito mais alunos a escolher de verdade e com consciência, a área das artes no secundário e logo no ensino superior.

Gens Ramos,  Porto

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Escola: inteligência ou emoção?

"A inteligência emocional é aquela que, para além de definir o nosso comportamento e as nossas atitudes, nos permite ser honestos connosco próprios e, consequentemente, com os outros.
É a que nos permite termos consciência e entendimento acerca dos nossos sentimentos e dos das outras pessoas, de modo a que possamos expressar, potenciar e gerir as emoções para encarar os problemas como desafios, de modo realista, observando as diferentes partes e compreendendo os outros como parte dum todo, cujo retorno se reflete na gestão, na instituição escolar e nos indivíduos que a compõem.
Está, assim, a observar-se uma nova transformação social: do mesmo modo que a Era Industrial deu lugar à Era da Informação, esta está a dar lugar à Era Conceptual, uma vez mais pela ação da riqueza, do progresso tecnológico e da globalização.
Sendo certo que o nosso hemisfério esquerdo está associado às características da Era da Informação e o nosso hemisfério direito à Era Conceptual, tal não significa o domínio de um sobre o outro.
Ao invés, pretende-se estabelecer um novo equilíbrio, dado que as diferenças vincadas entre os dois hemisférios nos fornecem uma metáfora poderosa para interpretarmos o presente e nos orientarmos no futuro.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A desmotivação dos professores

O meu filho, que frequenta o 4º ano, ainda não tem professor (a 23 de setembro). A pessoa que havia sido colocada para leccionar acabou por não aceitar o cargo: está cansado e vai deixar a carreira docente.
Percebe-se porquê: a instabilidade é grande, a cada ano que passa a escola onde trabalham é diferente; são obrigados a percorrer centenas de quilómetros; quando começam as aulas já estão exaustos. Depois, é o receio de não serem colocados no ano seguinte. É uma instabilidade que não lhes permite «assentar», criar família, educar os seus, vê-los crescer (e até vê-los sequer a cada dia- chegam tarde, os filhos já dormem). 
Pode estar-se motivado para dar aulas? É possível encontrar energia para motivar os alunos? 
A profissão de professor não é respeitada pelos governantes, em primeiro lugar. Eles não compreendem o que é ser-se professor. 
Ser professor nunca foi tão difícil por todos os motivos. 
E se não temos professores motivados, é natural que o insucesso venha por aí, e o abandono escolar também.
Em campanha eleitoral, que se fale da Educação e o que fazer com uma Escola Pública que está de má saúde mental.  Há professores no ensino público que continuam a lecionar com processos disciplinares e queixas dos encarregados de educação. Os diretores dos agrupamentos são forçados a colocá-los onde os pais não conhecem esses professores...Problemas internos a uma escola pública doente.
É urgente tratar estes professores, dando-lhes mais condições, dignas. Dando-lhes , por exemplo, um local de trabalho perto de casa, perto da família, perto dos filhos!
Professores saudáveis e motivados, logo alunos motivados e sucesso escolar.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

manter-se-ão, "jamais", em francês, diz crato

Nuno Crato, ouvido há instantes no Parlamento afirmou que, na sua última vinda à Assembleia da República, havia referido que os professores prejudicados pelo erro concursal mantêm-se e não manter-se-ão, afastando, assim, qualquer ausência deontológica no exercício de tão importante cargo republicano. Com isso, Crato tentou passar aos portugueses, por intermédio dos seus representantes, um atestado de menoridade mental. Como se provou, os deputados, apesar de se situarem um pouco afastados dos verdadeiros problemas que estes concursos em simultâneo acarretam, não são pessoas destituídas de inteligência e bom senso. No meio desta inexorável vergonha, o único garante de alguma polidez moralizante seria o Presidente da República. Desgraçadamente, Cavaco Silva não se rege pelas agendas dos outros, antes pelos superiores interesses do país. Com efeito, há muitas botas que não batem com a perdigota.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

a salsicha de passos

À parte da insólita expressão "salsicha educativa" proferida por Passos Coelho na cerimónia de abertura do ano letivo no Conselho Nacional de Educação, todo o discurso do primeiro-ministro é perfeitamente enquadrável num ignóbil teor proto-reacionário. Na sua cabeça, prevalece e cimenta-se a ideia de que antigamente é que era e que as várias reformas educativas ao longo destes anos (leia-se, pós-25 de abril) mais não trouxeram do que  a deterioração da qualidade do ensino. Está, pois, muito enganado o senhor primeiro-ministro. Bastaria, simplesmente, olharmos para o número de jovens que estudam para concluir o contrário, ou seja, a massificação traz (ou pode trazer) também qualidade. O que a abertura da escola a todos não pode assegurar é ministros competentes. E, infelizmente, o que de mais visível estes três penosos anos trouxeram à educação foi precisamente uma postura negativista sobre um avanço civilizacional que a escola pública representa ao possibilitar um alargamento de um leque de entradas educativas, independentemente das variáveis financeiras e etárias de cada cidadão. Obviamente, para pessoas como Passos Coelho, a escola pública deve situar-se a milhas deste desígnio de formação integral.

sábado, 20 de setembro de 2014

Desculpas


A recente vaga de pedidos de desculpa feitos por governantes incompetentes apanhou a opinião pública de surpresa. Paula Teixeira da Cruz e Nuno Crato encenaram actos de contrição nada convincentes e, assim, sacudiram a água dos capotes que os protegem das consequências que deveriam suportar pela sua falta de visão técnica e política.

O caso do ministro da educação é eloquente; depois de, mais uma vez, ter obrigado as escolas a abrir as portas sem os professores necessários ao seu bom funcionamento, deixando todos os que nelas trabalham à beira de um ataque de nervos, Nuno Crato pediu desculpas “aos pais, aos professores e ao país”. O ministro deixou de fora uma referência directa aos alunos, a esses não sentiu necessidade de se desculpar. Quererá isto significar que, na perspectiva do ministério e do seu máximo responsável, os alunos são actores dispensáveis ou, pelo menos, meros figurantes? Será porque, na sua esmagadora maioria, são cidadãos de menoridade e, como tal, não têm direito a voto, não sendo por isso urgente “passar-lhes a mão pelo pêlo”? Ou terá havido apenas um compreensível esquecimento numa situação caótica e aflitiva? Na verdade, vendo bem, quem aumenta o número de alunos por turma com o argumento de que isso contribui para melhorar as suas condições de aprendizagem, ou que, em situação de exame, tudo faz para que alunos com necessidades educativas especiais sejam tratados como se nada de especial se passasse, não parece morrer de amor pelos infantes.

Intriga-me que a paranóia avaliativa do ministro seja aplicada a todos, alunos e professores, com uma autoridade implacável, quase divina e que, quando se trata de avaliar o próprio trabalho, cuja qualidade assenta, sobretudo, na capacidade de liderança, haja esta benevolência beatífica, este redentor perdão de confessionário. O que justifica uma mão tão pesada para os outros e tão leve para o próprio? Não me atrevo a responder para não cair em juízos de valor errados mas a dúvida corrói a minha boa vontade.

Senhor ministro peça desculpas, também, aos alunos, vá lá! Peça-lhes desculpas por mais um início de ano lectivo destrambelhado, pela sua reiterada incapacidade de antecipar o óbvio e por tudo o resto, o senhor sabe bem. Pedir desculpas aos professores… sinceramente, senhor ministro: obrigadinhos, mas nós preferíamos primeiro competência e, depois, o tal rigor implacável. O senhor anda a trocar a ordem dos factores e a fórmula, quando aplicada, revela-se uma desgraça. A vida real é muito mais que teoria.

Carta enviada à Directora do jornal Público


terça-feira, 9 de setembro de 2014

12 horas na escola


Fiquei a pensar, muito apreensiva enquanto mãe e professora, nessa notícia de ontem redigida pelo jornalista Abel Coentrão: «Crianças de Gaia podem estar na escola entre as 7h 30 e as 19h 30». Segundo parece, as crianças do pré-escolar e do primeiro ciclo deste concelho “poderão permanecer, se os pais quiserem, das 7h30 até às 19h30.”
Com esta medida, que aparentemente é muito positiva, teremos, com certeza, muitas crianças entre os 3 e os 9/10 anos, a passar (e a serem «depositadas» 12 horas no mesmo edifício). Facilitar-se a vida a alguns pais é prejudicar os filhos.
As outras 12 horas serão para dormir e uma ínfima parte do tempo para estar com os pais e família.
Porque não são colocadas as coisas de outra forma? Porque não são o Governo, as empresas e entidades patronais a dar a boa notícia de promoverem uma maior flexibilidade de horários para os trabalhadores –pais?
Não devíamos permitir que se chegasse a pensar em mediadas desta natureza. Que rendimento terão estas crianças que chegam à escola às 7h30 e saem de lá 12 horas depois?
Deveriam os pais trabalhar tantas horas por dia?
De quem são os filhos? Das famílias ou da escola?
Neste programa de Gaia Aprende Mais, será mesmo isso que vai acontecer?
Para terminar: os pais, obrigados a tantas horas de trabalho, ficarão aliviados com as facilidades deste programa e aceitarão o que se está a oferecer. E as crianças? Perguntaram-lhes se querem estar 12 horas na escola?

(DN, 19.9.2014)

domingo, 29 de dezembro de 2013

«E porquê Zeinal Bava?»


Muitos Parabéns pelo 149º aniversário do DN!!
João Marcelino cedeu o seu «lugar» a Zeinal Bava por um dia nesta edição comemorativa. Um pouco surpreendida pela escolha do diretor convidado, interessei-me, contudo, pelo Editorial assinado pelo presidente executivo da OI e da «sua» PT.
Os temas que Bava quis propor para reflexão foram:  a importância da educação - que deve ser um investimento do país - e a  informação.  A primeira é a revolução mais importante em que, segundo ele, todos temos um papel a desempenhar. A questão é «como aprendemos e como ensinamos». Nada de novo é ter dito que «a educação é o futuro e investir na educação é investir no futuro do País.«
Não concordo com Bava quando este diz que é preciso «virar a sala de aula ao contrário e centrar o ensino em cada aluno (…)». Há muito que o aluno é o centro do processo. E «virar a sala de aula ao contrário» o que significa concretamente, sr. Engenheiro?
Já quanto ao tema da informação, concordo plenamente: somos cidadãos digitais e a informação tem que ser vista como «matéria-prima». Quando bem utilizada «transforma-se num potencial de desenvolvimento individual e coletivo como nunca assistimos na história da humanidade».
E por falar em história… penso na história da relação entre jornais e leitores em Portugal! O leitor de há quase 150 anos nunca na vida podia imaginar que algures no futuro, no final do séc. XX/ início do séc. XXI, os leitores pudessem digitar uma carta num aparelho fantástico como um PC e,  num segundo,  fazer chegar «a sua voz» à redação do DN, a quilómetros de distância do ponto onde quer que ele se encontre!! Fantástico!
(Já agora: foi opção do diretor por um dia, não se manter o habitualíssimo espaço para as cartas do Leitor? Não foi bonito. Em dia de aniversário convidamos os amigos e não há amigo mais próximo que o leitor que escreve em resposta, em reação ao que o jornal comunica.)
Zeinal Bava termina muito bem a sua «carta»: temos muitos motivos, como nação, para a confiança e é «tempo de todos nós acreditarmos que a melhor maneira de antecipar – e de não temer – o fututo é inventá-lo».
Suponho que a frase por demais inspiradora de Alvin Toffler que encabeça lindamente esta edição terá sido escolhida pelo próprio multimilionário e tomá-la-ei como um lema para 2014: “O futuro é construído pelas nossas decisões diárias (inconstantes e mutáveis), e cada evento influencia todos os outros”.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Afectividade na escola

Ainda A Inteligência do Coração de Filliozat...
Sobre a afectividade na escola:

"Dão-se aulas sobre raízes quadradas e as guerras religiosas, mas nada se diz sobre a raiva, o luto, o amor, ou a gestão não-violenta dos conflitos. Na escola não falamos de afectividade e, ainda menos, a gerimos. Sabemos bem que as crianças trabalham melhor quando gostam do professor, que os problemas afectivos estão na base de 98 % das dificuldades de aprendizagem... é um domínio desconhecido, não nos aventuramos nele.(...)"

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

os outros números

Não me deixo embalar com a abertura dos noticiários sobre a leitura dos recentes números da economia portuguesa, a qual interrompeu o ciclo recessivo patenteado nos últimos dois anos, baixando tenuemente o número de desempregados (a que ajudou a percentagem em crescendo de trabalhadores não remunerados, isto é, de “indivíduos que exercem uma atividade na empresa/instituição e que, por não estarem vinculados por um contrato de trabalho, sujeito ou não a forma escrita, não recebem uma remuneração regular”, segundo definição do Instituto Nacional de Estatística), aumentando as exportações e os carros vendidos, etc.
Na verdade, eu sou daqueles que pensam que todo o programa de Passos Coelho e sua equipa passava, invariavelmente, por uma efetiva alteração do paradigma socioeconómico, o qual se encontrava, unívoca e estafadamente, ligado a uma redução da despesa do Estado. Por conseguinte, não se afigura necessário a proclamação insidiosa da aplicação do documento da Troika, assinado há dois anos, pois este, quando convém, é alterado sem pruridos de grande monta. Veja-se, por exemplo, o caso da educação.
Há, com efeito, uma comutação silenciosa em curso, a qual não passa, absolutamente, pela qualidade do ensino. É claro que o ministro Crato pode afirmar o contrário, que tudo passa para conferir à escola pública uma maior projeção qualitativa, mas o que resulta das suas afirmações é pura falsidade política e até intelectual. Nuno Crato sabe muito bem a matéria-prima que tem à frente: uma classe amorfa e assustada e sindicatos levianos, cada vez mais ligados a uma realidade que não é a sua. Não admira, por isso, que os cortes neste ministério estejam, orgulhosamente, mais para além do que era preconizado pelo memorando de há dois anos.
Esta ideia tristemente prodigiosa de permitir ao privado entrar, sob o falseado signo de uma liberdade de escolha, por parte dos encarregados de educação, na escola pública é um verdadeiro retrocesso no ensino, em Portugal. E é-o porque estamos perante duas realidades educativas distintas, uma de cariz obrigacionista e outra mercantilista, embora esta última esteja escudada na diáfana mas sempre oportuna capa protecionista do Estado. Do mesmo modo, as escolas privadas não vão querer, naturalmente, entrar num quadro educativo que tem como base os princípios republicanos do livre acesso de todos à educação. De todos, sem exceção. É um pouco como o resultado das parcerias público-privadas que nos têm ajudado na nossa paulatina imersão financeira: privatização dos lucros; estatização dos prejuízos. Até porque, sendo o ensino particular e cooperativo parte integrante da rede escolar nacional, é regido por legislação e estatuto próprios, tendo em conta a Lei de Bases do Sistema Educativo. Daí que não entenda como é que o estatuto próprio de algumas escolas privadas – o qual pode passar, por exemplo, por uma matriz católica – se possa enquadrar no financiamento direto por parte do Estado que – note-se neste exemplo trazido aqui à colação – é laico. Porém, o que paira na cabeça dos governantes desagua invariavelmente na fria aritmética. Adrede, uma coisa se afigura certa: a escola pública não vai necessitar de alguns milhares de professores, pois estes migrarão, naturalmente, para o outro lado, cada vez mais oportunista, do ensino privado. E isso é, sem dúvida, uma excelente notícia para o ministro Nuno Crato.
Entretanto, o ensino superior registou, este ano, um decréscimo de alunos caloiros, para valores do princípio do século. A este propósito, o retrocesso não é, obviamente, contabilístico. Os números representam, fundamentalmente, um retrato social.
Lamentavelmente, há quem teime, “sem ironias e cansaços”, apelidar isto de reforma do ensino.

terça-feira, 23 de julho de 2013

3 em 45 000




"Dos 45 mil que se candidataram, 99,9% não foram colocados", ou seja, apenas 3 conseguiram.
Os professores vivem uma ansiedade louca a cada verão. As férias são um suplício. Aguardando, aguardando...
Estas férias já estão estragadas para milhares de famílias: desemprego ou o pai ou a mãe vão para longe...
Ansiedade, vidas que não se podem planear, famílias que não criam raízes em lado nenhum.
Que qualidade para o ensino?
Demita-se Nuno Crato!!
Quem toma conta da Educação em Portugal?
É urgente resolver esta «pasta».

domingo, 14 de julho de 2013

É fundamental acarinhar os professores

Numa época em que ser professor nunca foi tão difícil...a iniciativa do DN, Professor do Ano, é de louvar.
Este domingo a NM dedica ao Professor quase duas dezenas de páginas!
Sim, ser professor é "desempenhar uma das mais importantes profissões do mundo".
Os meus parabéns aos vencedores desta edição do Professor do Ano e, sobretudo, claro, a Juan Nolasco que, curiosamente, foi o melhor dos oito finalistas e o único que não compareceu à Gala DN Professor do Ano, porque se encontrava numa acção de formação.
Parabéns a todos os professores que, embora não tendo sido contemplados pela iniciativa, fazem um trabalho tão meritório quanto estes.
É fundamental que se acarinhe os professores, essas pessoas que transportam "nos ombros boa parte do futuro do país".
Aprendamos nós, professores, com estes colegas: "vocação, carisma, amor, exigência consigo próprio e com os alunos, empatia, rigor e capacidade de estimular a curiosidade."

(DN, 17-7-2013)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Não é ambição


















"Mas se você encontrar sua verdadeira vocação, ajudará a romper completamente este sistema podre; porque então, seja você jardineiro, pintor ou maquinista, estará fazendo algo que gosta de fazer com todo o seu ser; e isso não é ambição. Fazer algo maravilhosamente, fazê-lo completamente, verdadeiramente, de acordo com o que você pensa e sente profundamente - isso não é ambição e aí não há medo". (Krishnamurti, O Verdadeiro Objetivo da Vida, Cultrix, 1983)

domingo, 30 de junho de 2013

A greve


Leio na rúbrica “caras da semana” deste Domingo, 30 de Junho, analisando a figura de “Nuno Crato, O negociador”, que: “Ministro e sindicatos acordam o que estava debaixo da mesa há semanas” e também que “(…) ficou a sensação de que os dois lados estavam apenas a medir forças.” Na minha qualidade de professor não fico particularmente impressionado com um jornal que baseia a sua opinião sobre as greves que opuseram o meu sindicato e o ministério da educação numa sensação. O autor do texto talvez pudesse ter especificado: tratou-se de uma “leve sensação” ou de uma “forte sensação”?

De todo o processo de luta que abalou o final do ano lectivo deu-se uma grande relevância à greve aos exames. Jornais e televisões abriram os seus espaços informativos com grandes parangonas e um tom apocalíptico, características da informação-espectáculo. O trabalho era do mais fácil que imaginar se pode; bastava colocar um jornalista estagiário à porta de uma escola e enfiar um microfone à frente de alunos, pais e professores, perguntando de que modo batiam os seus corações. Cada um expressou a sua opinião, os leitores/espectadores puderam sentir de que lado se colocavam. Tudo muito à flor da pele. O ministro aproveitou para fazer de vítima (os professores não tinham o direito de fazer uma greve daquelas), Cavaco veio apelar ao bom senso, Passos Coelho propôs datas convenientes para se fazerem greves e concluiu que, como a lei não lhe convinha, o melhor seria alterar a lei, até o bispo de Lisboa (se não estou em erro) veio apelar aos sentimentos cristãos dos professores em defesa das criancinhas. A greve tornou-se, como convinha, um autêntico circo mediático.

No entanto, decorria em simultâneo, uma outra greve de professores, às avaliações de final de ano. Essa era uma greve silenciosa, uma greve chata, uma coisa sistemática e monótona que não proporcionava o espectáculo mediático que alimenta os noticiários, sempre em busca de sangue e tripas à mostra. Foi, no entanto, esta greve que precipitou o desenlace das negociações entre sindicatos e ministério com vantagem nítida para as pretensões do professorado.

Analisando as conclusões do processo negocial importa salientar que a reivindicação mais importante dos sindicatos, a manutenção da direcção de turma na componente lectiva dos professores, foi aceite pelo ministério mas não vi nenhum órgão de informação dar a este “pormenor” a relevância merecida. 

É que o trabalho de direcção de turma não só é complexo e exigente como também, caso fosse atirado para a componente não lectiva dos horários docentes, significaria o desaparecimento de milhares de horários e respectivas vagas nos quadros das escolas e consequente desemprego para milhares de professores. A sobrecarga de trabalho para os directores de turma significaria (ainda mais) perda de qualidade no ensino público e privado. As questões de mobilidade e as espampanantes 40 horas de trabalho são trocos quando comparadas com o “pormenor” da direcção de turma, aborrecido e difícil de compreender para quem está fora do sistema de ensino.

Apelo, nesta carta, à directora do jornal Público para que se faça uma análise cuidada às repercussões que seriam sentidas no sistema de ensino caso o ministério da educação tivesse conseguido, como ansiava, retirar a direcção de turma da componente lectiva. Enquanto professor sinto-me quase insultado quando ouço dizer que estas greves foram uma “guerra do alecrim e da manjerona”, conclusão que convém, e de que maneira, para manter mais ou menos limpa a frágil imagem política de Nuno Crato. Negociador? Não brinquem com coisas sérias.

carta enviada à directora do Público

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Brutalidade desumana



A propósito da greve dos professores marcada para o próximo dia 17 muito se tem dito. O ministro Nuno Crato e seguidores acusam os professores de estarem a ser violentos com os seus alunos, de se mostrarem insensíveis aos seus anseios e necessidades, que estão a por em causa o estudo e a preparação dos infantes. Esquecem a violência que representa enfiar turmas de 30 alunos numa sala, quais sardinhas em lata e que, no que ao estudo e preparação dos exames diz respeito, esta sobrelotação do espaço (físico e psicológico) é, no mínimo, desumana e contraproducente. Ou talvez não se esqueçam disso, talvez apenas lhes falte a coragem para reconhecer que a qualidade do ensino não sobrevive às medidas que têm vindo a implementar a toque de caixa, no seguimento das políticas educativas de Maria de Lurdes Rodrigues que tão diabolizada foi pelo actual ministro quando este assumia o papel de comentador atento e inteligente. Compreendemos cada vez melhor como é fácil falar. Talvez prefiram ignorar que um professor do ensino secundário dificilmente consegue cumprir os programas ciclópicos que é obrigado a impingir aos seus alunos. Já era difícil com turmas de 24, com turmas de 30 é uma missão virtualmente impossível. No meio da multidão muitos são os que ficam para trás. Vive-se, nas escolas, uma espécie de Lei da Selva, impõe-se um Darwinismo implacável; neste ambiente caótico salvar-se-ão as escolas privadas, imagino eu, onde quem tem dinheiro paga por mais espaço nas salas de aula e por mais e melhor atenção da parte dos professores.
Senhor ministro, senhores secretários de estado e demais ilusionistas do ensino, não venham com conversas vazias sobre a vossa preocupação com o futuro dos alunos e a brutalidade dos professores grevistas. Assumam as vossas responsabilidades na degradação do sistema de ensino que nós, professores, sempre cá estivemos, estamos e estaremos para assumir as nossas, quando for caso disso. A questão das 40 horas não me (nos) incomoda, se isso não significar mais serviço lectivo. E não incomoda por uma razão muito simples: qualquer professor empenhado e comprometido com o seu papel de educador trabalha muito mais do que isso sem que seja necessário vir quem quer que seja ralhar e apontar o dedo.
O único objectivo do ministério da educação é, de há alguns anos a esta parte, muito simples: reduzir os custos. As metas pedagógicas, as avaliações de professores e demais cavalos de batalha que por aí andam à solta são tretas. Nada mais.

Carta enviada à Directora do jornal Público

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A emoção e a aprendizagem

Ainda a propósito da memorização, agora defendida por Nuno Crato...

Francisco Mora (Granada, 1945), investigador e doutor em Neurociência pela Universidade de Oxford, analisa os factores da educação, estudando-os separadamente:

"Curiosidad, atención, memoria, emoción... Mora rastrea los ingredientes de la educación, analizándolos por separado, pero hay uno que resulta esencial en el proceso de aprendizaje: “La emoción, sin duda. Sólo se puede aprender aquello que se ama, aquello que te dice algo nuevo, que significa algo, que sobresale del entorno. Sin emoción no hay curiosidad, no hay atención, no hay aprendizaje, no hay memoria”.

P.S. tenho que agradecer a indicação deste artigo publicado no El Mundo à minha amiga Sónia