terça-feira, 30 de abril de 2013

O anúncio




O reparador de solidões

Nos nossos dias é usual encontrarmos nas nossas caixas de correio pequenos anúncios de pessoas singulares a publicitarem os seus préstimos profissionais. O meu preferido é aquele elaborado por um mestre curandeiro que trata de doenças, maus olhados, invejas, azar ao amor, sorte no infortúnio, enfim. Outros são peritos em carpintaria, pintura, lavagem de roupa, arrumações, canalizações, electricidade, caldeiras, pavimentos e tudo o que numa casa, por vezes, necessita de arranjo. Ora, nem só as casas precisam de arranjos, tá bom de ver. Nós, por vezes, precisamos também de certos cuidados. Neste anúncio, que encontrei por acaso, o senhor que o elaborou, para além de todas aquelas situações usuais que envolvem pequenas reparações decidiu acrescentar uma outra. Ao escrever “Quer só conversar ou ter companhia?” decerto estará a pensar numa faixa de cidadãos que, privados de companhia, impossibilitados de poderem aceder todas as noites ao Facebook ou de frequentarem bares ou discotecas, se vêem um pouco solitários e por isso tristes. Os idosos serão assim, julgo eu, o alvo deste habilidoso reparador de solidões. De que forma o faz, não faço a mínima ideia. Este é um dos problemas que esta sociedade gerou. A solidão. Aos idoso será mais difícil de arranjar forma de a contornar e isso já me levou a pensar, que ao nível de pequenas freguesias e com o número de desempregados existentes, bem que se podiam criar bancos de voluntariado para ajudar estas pessoas a suportarem o seu dia-a-dia solitário mas também a ajudá-los em muitas outras pequenas tarefas. Ainda um destes dias ao ver uma reportagem na TV passada em Pitões das Júnias apareceu a senhora que fazia o pão lá na aldeia a comentar o quanto lhe custou ter estado em Paris ida directamente da aldeia para uma grande cidade. Dizia ela que se sentiu muito triste pois não tinha com quem falar e até na rua lhe causava estranheza as pessoas não se saudarem.
Um "bom dia" não custa assim tanto, pois não?                                                                                                                                            

Momento



                    Talvez volte outra vez a ser poesia

                    Poesia carne, sangue e sentimento

                    Talvez no meio da noite nasça o dia

                    Talvez seja poesia este momento!



                    A incerteza é luz nas minhas trevas

                    É o saber que ainda há horizonte

                    Depois de vencidas tantas guerras

                    Não secará jamais a minha fonte!


                    Seguro no pensamento um dia eterno

                    Um rio de águas profundas, cristalinas

                    Um abraço, um grito, um gesto ameno

                    Tudo o que seja Amor e seja Vida!


                                                        JOAQUIM  CARREIRA TAPADINHAS

O fim da linha


Cada dia que passa, as notícias sobre casos de desespero, vividos na actual situação portuguesa, vão-se amontoando, sem que os governantes, a nível nacional ou local, que se julgam relativamente bem instalados na vida, invertam o caminho de desinteresse que os anima e, a nós, cidadãos comuns, nos desanima. Um caso gritante de injustiça social, relatado hoje num diário de expansão nacional que é um cardápio de desgraças, onde se descreve o drama, no limite da tragédia, de uma mulher de 42 anos, desempregada, cujo marido faz apenas uns pequenos biscates, logo também sem emprego certo, que tentou matar-se por envenenamento, arrastando no mesmo acto a própria filha de 8 anos, tendo ambas sido salvas pela avó da criança que, acidentalmente, apareceu no local. Esta notícia devia merecer, como tantas, uma atenção mais demorada.
Na sociedade que a levou a tal situação de angústia, que não lhe vislumbrou caminhos para atenuar o seu sofrimento, vai ser julgada e condenada pelo seu tresloucado acto. A mulher vai ser processada por tentativas de suicídio e de filicídio e terá uma sentença em função dos crimes cometidos e de acordo com o Código Penal.
Cidadãos respeitáveis, com os problemas básicos da existência resolvidos, encenarão o acto judicial e tudo será consumado. Os que vivem no sobrado julgam os que habitam as caves.
A sociedade que paga a justiça e não resolveu em devido tempo a situação que levou esta mulher ao desespero, não sei se tem força moral para a julgar e condenar, sem que também encontre, em si própria, parte da responsabilidade neste acto e nos milhentos que enxameiam o nosso dia-a-dia.
É tempo de reflectir e de aprofundar as causas e não de olhar apenas para os resultados, porque, sem eliminar os erros de base, não pode haver conclusões fidedignas.
A arrogância do poder e o desinteresse pelos mais pequenos, que são os alicerces do edifício social, não podem conduzir-nos a uma estrada de conforto e de harmonia.
Se não forem invertidos os caminhos que querem obrigar-nos a percorrer, esta civilização, como outras no passado, ruirá como um castelo de cartas, mesmo quando parece ter atingido o apogeu sustentada pelo progresso tecnológico e científico, mas esquecendo, o mais importante, que são os valores humanos.

27.04.2013                                                   Joaquim Carreira Tapadinhas 

Citações





Ensinamentos

Há um diálogo que reza: «Tudo está dito mas nada está feito.» Desde a mais remota antiguidade, verteram-se fiáveis ensinamentos para a revolução da consciência e o melhoramento da vida anímica. Mas com frequência não pomos em prática esses ensinamentos ou nem sequer lhas damos ouvidos. Os melhores e mais potentes ensinamentos não têm qualquer poder se não conduzem à prática, que é a única maneira de os fazer germinar e florir.

In “Os melhores contos espirituais do Oriente” Esfera dos Livros 2006

Tríptico de Imoralidades

Todos vimos que uma caterva de taxistas ‘cavalgaram’ rumo à AR porque lhe(s) faltou a ‘mama’ de transportar doentes não urgentes ‘à pala’  do SNS, sustentado por todos nós e violentado por  muitos semelhantes ‘esquemas’ de lesa pátria.
E o mais sintomático foi ouvirmos um ‘pobre’ taxista queixar-se de ter deixado de mensalmente facturar mais de dois mil euros à ARS/Norte, pelo que tais rombos feitos ao SNS em casos análogos rondam cerca de 200M de euros/ano.

Depois de tantos adiamentos e imensos gastos públicos, o ‘charuteiro’ público número um de Oeiras comemorou o 39º aniversário da Revolução de Abril a ver o ‘sol aos quadradinhos’.
E, nas cerimónias concelhias protocolares ao 25 de Abril, foi o seu número dois, Paulo Vistas, que as liderou.
Portanto, pelo menos num local de Portugal, nas vésperas do Dia da Liberdade, a justiça cumpriu-se, nas sendo ‘vistas’ reminiscências do outro passado de antanho do ‘quero, posso e mando’ e nada (lhes) acontece, ou será que os capangas o virão libertar?

O sangramento continuado feito a Portugal à custa da sociedade mais frágil que o compõe continua de ‘vento em popa’, mesmo que os desmandos (eufemismo de roubos) sejam não apenas públicos (mas neles se repercutem), mas, no caso vertente, apesar de serem praticados na esfera do privado, continuam a ser também altamente lesivos e moralmente criminosos.
Vem ao caso a notícia vinda a público através de um correio matutino de Lisboa sobre o que se passou no seio da última administração cessante do ‘saqueado’ Millennium BCP, em que três dos seus administradores/gestores sacaram a descoberto (se aboletaram) a astronómica quantia de 3,5M de € a título indemnizatório.
Em face do exposto, candidamente perguntamos: o que se passa com os nossos representantes ao mais alto nível do Estado de Direito, bem como ao silêncio infernal das bases que os sustentam, ao deixarmos (todos) que uns poucos (que já são muitas alcateias) roubem tanto o que nunca foi deles?
 
José Amaral

o 1 . º D E M A I O

Em 1866, no 1.º congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores, em Genebra, foi fixado o objectivo das «oito horas como limite ao dia de trabalho». Iniciou-se aqui a luta mundial pela redução da jornada de trabalho, que era de 14, 12 e 10 horas na indústria e comércio e de sol a sol na agricultura.
O movimento para a conquista do dia de trabalho de oito horas, passou a ser liderado pelos trabalhadores norte-americanos, após o esmagamento sangrento da Comuna de Paris, em 1871. Assim, a Federação dos Trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá, na sua quarta conferência, realizada em Chicago em 1885, decidiu uma greve geral pelas 8 horas, no 1.º de Maio de 1886.
Na greve participaram milhares de trabalhadores e ela prolongou-se pelos dias seguintes, apesar da repressão violenta, particularmente na cidade de Chicago, que provocou várias mortes, centenas de feridos e inúmeras prisões, salientando-se os «oito mártires», dos quais quatro foram enforcados em Novembro de 1887. A violenta repressão não impediu que cerca de 50 mil trabalhadores conseguissem de imediato o dia de oito horas e mais de 200 mil uma redução da jornada de trabalho. A luta prosseguiu e em 1906, a jornada das 8 horas de trabalho já vigorava em 31 dos 45 estados norte-americanos.
Os acontecimentos de Maio de 1886 em Chicago, tiveram também grande significado a nível mundial, e os Congressos Operários de Paris, em 1889, onde estiveram dois delegados portugueses, decidiram internacionalizar o dia 1.º de Maio como dia de luta dos trabalhadores pela jornada de oito horas, e marcaram para o 1.º de Maio do ano seguinte uma grande manifestação internacional.
Em Portugal, em 1890, foi comemorado o 1.º de Maio por iniciativa da Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa. Durante os últimos anos da monarquia esse dia de solidariedade internacional dos trabalhadores não deixou de ser comemorado. Após a implantação da República, em 1910, algumas cãmaras decretaram como feriado o 1.º de Maio. A luta desenvolveu-se, e em 1919, foi conquistada a jornada de oito horas para a indústria e comércio.
A ditadura fascista nascida a 28 de maio de 1926, suprimiu o 1.º de Maio como feriado e procurou impedir a sua comemoração. Mas resistindo, muitos  trabalhadores  encontraram formas de comemorar o 1.º de Maio, como dia de festa e de luta, que  foi assumindo a par de reivindicações laborais, também as políticas, pela liberdade, pela paz e contra a guerra colonial, apesar da repressão da polícia política (PIDE) e outras forças policiais.
Com o 25 de Abril de 1974, conquistou-se o direito a comemorar livremente o 1.º de Maio, que passou a feriado nacional. O 1.º de Maio de 1974, foi a maior  manifestação realizada em Portugal, poucos dias depois de ser conquistada a liberdade.
As condições e qualidade de vida da esmagadora maioria dos portugueses e de todos os povos, dependem do rendimento conseguido com o trabalho, que têm, que já tiveram ou que procuram ter. O desemprego crescente em Portugal, na Europa e no Mundo. A tragédia recente no Bangladesh, em que a exploração brutal e a febre de lucro sem regras, provocou centenas de mortos. Demonstram que é preciso comemorar e participar no 1.º de Maio.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A questão da morte




A questão da morte

(…) para os indianos a morte é uma questão muito diferente daquilo que é para os europeus.(…) O problema da morte, pelo menos no que se refere ao aspecto formal e ritual, nunca foi solucionado na Europa e muito menos na América. A morte na Europa é uma questão retórica e lúgubre, de uma solenidade enfadonha que mal dissimula o antigo terror. (…) Mas a morte na Índia é leve, simples, filosófica, serena e desprovida de importância, como era, talvez, na antiga Grécia. Contudo, a operação religiosa e psicológica que permitiu esta transformação custou à Índia um preço muito elevado de inadequação à vida social, prática e política. Por isso julgamos que a concepção indiana pode ser compreendida e adoptada por alguém como simples indivíduo; mas que seria perigosa para a sociedade ocidental, que a não poderia aceitar sem se trair a si própria. (…) Estamos dez minutos ou vinte, ou meia hora, a olhar para aqueles homens e mulheres que têm os olhos fixos na fogueira em que arde o seu defunto; e por fim compreendemos que esta indiferença tão estóica não é a da insensibilidade e da frieza, mas sim a da religião, que considera a morte uma simples mudança de vestuário ou invólucro. Naquela fogueira, de acordo com uma frase notória, não se consome uma pessoa única e irrepetível, mas sim um vestido coçado, que já não prestava, uma pele velha que se abandona por outra nova.

In “Uma ideia da Índia” de Alberto Moravia Ed. Tinta da China 2008

A emoção e a aprendizagem

Ainda a propósito da memorização, agora defendida por Nuno Crato...

Francisco Mora (Granada, 1945), investigador e doutor em Neurociência pela Universidade de Oxford, analisa os factores da educação, estudando-os separadamente:

"Curiosidad, atención, memoria, emoción... Mora rastrea los ingredientes de la educación, analizándolos por separado, pero hay uno que resulta esencial en el proceso de aprendizaje: “La emoción, sin duda. Sólo se puede aprender aquello que se ama, aquello que te dice algo nuevo, que significa algo, que sobresale del entorno. Sin emoción no hay curiosidad, no hay atención, no hay aprendizaje, no hay memoria”.

P.S. tenho que agradecer a indicação deste artigo publicado no El Mundo à minha amiga Sónia

A pior profissão do mundo

Claro que não nos podemos fiar nestas listas...
Mas a verdade é que uma delas é referência para a directora do PÚBLICO. Ontem, na sua crónica sobre Joaquim Barbosa, o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, primeiro presidente negro a assumir este cargo, Bárbara Reis menciona a lista das profissões da CareerCast.com em 2013: "os juízes estão em 79.º lugar, logo abaixo dos agentes de seguros e logo acima dos engenheiros nucleares (os critérios são: exigência física, ambiente de trabalho, salário, stress e empregabilidade). Os pedreiros, como o pai do juiz Barbosa, estão num confortável 53.º lugar. Já agora — e porque é essa a graça das listas —, os jornalistas são a pior profissão do mundo: estão em 200.º lugar numa lista de 200 (em 199.º, estão os lenhadores) e os fotojornalistas, reis desta página, estão em 188.º,  a seguir aos lavadores de pratos."
Bárbara Reis não referiu a previsão, triste, do consultor envolvido neste estudo americano, Paul Gillian, que acredita que a profissão de jornalista será extinta dentro dos próximos 10 anos...
Não é de difícil diagnóstico...
Infelizmente.
Os próprios jornais estam a cavar a própria sepultura, ao tornarem-se jornais de leitura online.
 
 

Factos






Vamos aos factos. No “Público” de 24 de Abril pode ler-se que o FBI conseguiu deter na Nicarágua aquele que era o homem mais procurado pela agência americana. Após a morte de Bin Laden, que era na altura o homem mais procurado, Eric Justin de 31 anos, professor numa escola primária de Washington, passou então a ser o número um da lista dos mais procurados pelo FBI. Comparado com os crimes de que Bin Laden era acusado, este professor era acusado de produzir pornografia infantil. Tudo terá começado em 2008 quando se descobriu que tinha levado uma câmara para a escola onde leccionava e a terá colocado numa das casas de banho. No texto elaborado pelo FBI pode ler-se que era um “especialista em computadores, tendo demonstrado que possuía conhecimentos acima da média no uso da Internet e de segurança”.
Continuemos pelos factos. No dia seguinte o “Público” tem na primeira página o seguinte título: “Padres denunciados por abusos sexuais mantidos no activo”. A notícia reporta-se a situações detectadas em Portugal e denunciadas a D. José Policarpo que preferiu mudar simplesmente de paróquia os padres acusados.
Aqui chegado deixo os factos falarem por si. 


"Precisamos seriamente de conversar"

Ontem li a crónica do padre José Tolentino Mendonça no Expresso (não costumo comprar):
"os modos da existência contemplativa foram despojados da sua áurea e só a vida ativa é considerada legítima;
Deixou de haver lugar para itinerários de natureza espiritual, artística ou política, dos quais pudessem brotar a evidência de dimensões humanas que a atividade laboral não cobre;
(...) naquelas realidades que a crença ou as artes iluminam;
(...) a satisfação das necessidades vitais impôs-se como o verdadeiro (para não dizer exclusivo) elemento polarizador da atividade humana;
Vivemos para trabalhar e para consumir.
(...) Os irrazoáveis números do desemprego testemunham a extensão da incerteza em que naufragámos.
(...) frustração, irracionalidade e solidão.
(...) A implacabilidade do sistema de trabalho cada vez menos respeita e acolhe a fragilidade da vida. os trabalhadores têm de ser perfeitos e neutros como as máquinas que os rodeiam.
(...) Quer-se maior qualidade e menor investimento."
Mas julgo que a última frase, intrigante e fundamental, que Tolentino coloca, "Precisamos seriamente de conversar " foi o que mais me chamou a atenção.
Quem precisa de conversar ? Tolentino e os leitores? Tolentino e o Governo?
Sim, temos todos, em plena democracia, de nos sentarmos para conversar. Assim, desta maneira, as «coisas» não podem continuar!
Não podemos adiar mais, sob pena de nos tornarmos máquinas, "neutros e perfeitos" tão ao agrado de quem nos governa...


domingo, 28 de abril de 2013

sacrifícios

Quem me manda ser de compreensão lenta!...
Só agora começo a entender que os denodados sacrifícios do povo português de que fala a maioria (Cavaco incluído) dizem também respeito ao inevitável e irregressível caminho para o desemprego. Depois, num qualquer dia de sol (ou de nevoeiro, somos mais propendidos a este, afinal), surgirão gráficos com setinhas ascendentes. E aí Portugal renascerá de novo, graças aos sacrifícios inelutáveis dos portugueses (Cavaco incluído, obviamente).
Grande povo! Grandes eleitos.
(e a propósito de eleitos - e de povo, também - comprazo-me em transcrever José Gomes Ferreira: "E foi para esta farsa/que se fez a revolução de abril, capitães...?)

(Público, 28/04/2013)

Ilhas Desconhecidas










Raul Brandão (1867/1930), escritor portuense tem um livro, que poderíamos de catalogar como pertencendo à Literatura de Viagens, editado em 1926 com o título de “Ilhas Desconhecidas” e que relata uma viagem que o escritor fez, com a sua esposa Maria Angelina, aos Açores em 1924 tendo percorrido demoradamente todo o arquipélago. O relato da viagem inicia-se a 8 de Junho a bordo do ‘São Miguel’ que fará escala na Madeira e depois rumará para a ilha do Corvo onde começara então o verdadeiro relato da sua estadia pela ilha que o escritor descreve como que sendo um convento erguido no meio do mar pelo seu quê de monástico que nela encontrou.  De todas as ilhas o relato da sua estadia no Corvo, que começou a 17 de Junho, é o mais marcante, talvez pelas características da própria ilha, pequena e isolada, e também pelo carácter dos seus poucos habitantes. A propósito das condições difíceis em que os seus habitantes têm de viver e tendo em conta que muita daquela terra que eles trabalham não lhes pertence mas sim a senhores que habitam em Lisboa (!) tem um dos habitantes a seguinte explicação: ‘(…) E saiba o senhor que o grande erro deste mundo, vem de um engano de S. Pedro. Nosso Senhor disse-lhe um dia: - Pedro, vai fora da porta e diz a mundo: - O pobre que viva do rico. – Mas São Pedro chegou à porta, enganou-se e disse: - Ouçam todos que têm ouvidos para ouvir – o rico que viva do pobre! …’
Apesar da abundância de peixe pelas suas águas (os nomes que descreve são nomes de que eu, cidadão habituado à banca dos hipermercados, nunca ouvi falar tais como bejas vermelhas, bicudas, bonitos, bocas-negras, escobares, gorazes, albafares, garoupa, lambaz, rainha, castanha, patuscas e rocaz) o que Raul Brandão relata é muita fome. Fome e uma vida muito difícil. Clima ríspido. Vento abundante. Solidão. As pessoas encontram refúgio no sentimento cristão de irmandade que os ajuda a suportar toda uma rotina de pequenos gestos grosseiros numa solidão a que estão votados. ‘O que na solidão os livra da natureza e do inferno é a religião. É a ela que, além da vida monótona, da vida horrível, lhes mostra outra vida superior. É ela que os une e os salva.’

sábado, 27 de abril de 2013

Índia




A estação de comboios na Índia.

"(…) Agora vejamos a estação. Diríamos que nas estações se descobre a capacidade que os indiano têm de transformar qualquer ambiente suficientemente amplo num templo, entendendo por templo um lugar em que a transcendência pode ser indiferentemente representada quer por Xiva quer pelo horário dos comboios.  Os indianos nas estações não parecem estar à espera do comboio; a coisa mais importante parece ser não a chegada do comboio mas sim estar na estação. (…) Em suma, exactamente como nos templos, nos quais não se reza, vive-se".

In “Uma ideia da Índia” de Alberto Moravia Ed. Tinta da China 2008

O Sub-Natal, o Sub-Férias e o Governo

As alterações sucessivas aos meses em que o Governo paga o Sub-Natal e o Sub-Férias aos funcionários públicos e aos reformados mostram a falta de liquidez com que este governo trabalha e o desnorte total. Vamos ver o caso dos reformados, com reformas inferiores a 600€, inicialmente recebiam o Sub-férias em julho a 100% e o Sub-Natal em dezembro a 100%. Depois passaram a receber o Sub-Natal em duodécimos e o Sub-Férias em Julho a 100%. Depois das normas consideradas inconstitucionais pelo Tribunal Constitucional passaram a receber o Sub-Férias em duodécimos e o Sub-Natal em Novembro. Finalmente estes reformados com reformas inferiores a 600€ voltaram a receber o Sub-Natal em duodécimos e o Sub-Férias em Julho a 100%. Podemos ver o desnorte com que este governo trabalha e com a falta de liquidez. Como é que este governo poderá fazer mudanças estruturais nos ministérios e efetuar a consolidação da dívida pública? Como ficou negociado com a troika.
(JN 27/04/2013)

O valor do ser humano





O valor de um ser humano

Milhares e milhares de seres humanos morrem cada mês às mãos de outrem; centenas de milhares de animais são aniquilados pelos seres humanos «civilizados». Derrama-se tanto sangue que este poderia encher todos os oceanos, e provocam-se com isso tantas lágrimas que bastariam para encher todos os poços da Terra. O valor do ser humano é incalculável, é certo, mas os avessos não sabem ou não querem vê-lo. É de lamentar que, mesmo havendo muito mais boas pessoas que malévolas, estas se organizem melhor e semeiem o planeta com horrores e erros, sem saber valorizar o «diamante» de valor incalculável.

In “Os melhores contos espirituais do Oriente” Esfera dos Livros 2006

Rescaldo a mais um '25 de Abril'

No rescaldo de mais um ‘25 de Abril’, o 39º do que deveria ser a nossa cavalgada rumo a uma sociedade mais justa, mais fraterna e libertadora, verificou-se que o povo veio para a rua e, com o rubro cravo na mão, na lapela, ou nos cabelos, manifestou toda a sua indignação contra a actual situação, plena de crise a todos os níveis, com muito mais incidência sobre os que menos podem.
Por sua vez, o discurso presidencial e oficial da efeméride foi tido como uma verdadeira tonteria institucional por quase todos os analistas políticos da nossa praça.
Parece-nos que, segundo uma frase agora muito em uso, o senhor PR ‘pôs toda a carne no assador’ somente para saciar os seus correligionários, quando, afinal, deveria ser um moderador entre todas as forças partidárias que compõem todo o nosso universo social.
Entretanto, toda a Esquerda vociferou com tal míope ‘assador’ que só teve olhos para agradar e fartar os seus.
No entanto, foi essa mesma Esquerda, que agora reclama eleições, que se aliou às forças conservadoras e amigas do senhor PR para derrubar um governo minoritário, no qual José Sócrates era PM.
E, assim, de desunião em desunião, em que cada feitor quer irrigar o seu campo de acção, qualquer convergência para salvar o país cada vez fica mais distante, pelo que, se se retirar o soro ao paciente, este finar-se-á para sempre.

José Amaral

Desta vez o que sucederá?...

Quando o Estado, com erradas políticas económicas, se transforma numa máquina contributiva de desemprego gerando pobreza, fome, medo e atirando o futuro das pessoas para lá da incerteza, a resposta deve ser coletiva, consubstanciada também no protesto democrático organizado. Como confiar neste Estado que tudo nega, o que ontem tudo prometeu? Como honrosas exceções salvam-se: Baptista Bastos, Miguel Real, Mário de Carvalho, Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, José Gil, Boaventura Sousa Santos e pouco mais, dos intelectuais que podiam e deviam fazer-se ouvir na defesa da democracia e do Estado Social e porventura apontarem caminhos alternativos. Abdicaram de tomar posições públicas! É pena. O PR, ao dizer que não há alternativas à atual situação política e económica, relembra Salazar que também dizia não haver alternativa ao Estado Novo(!). Existem e existirão sempre, desde que o programa e objetivos não estejam sintonizados para os mesmos do costume. As diferenças sociais em Portugal são das mais acentuadas da Europa comunitária. Assistimos à derrocada das fundações da democracia social, a seguir vem a democracia política, sendo que a existência de instituições supranacionais sem controle democrático vão-se instalando... Ouvimos (incrédulos) da boca da sra. Merkel:« Os Estados têm de estar preparados para ceder em questões de soberania». Podia ter dito logo: A Alemanha é que manda! Este caminho de hegemonia alemã já conduziu a duas guerras – perderam! “A” III guerra (económica) está em marcha. Desta vez o que sucederá? Está tudo à vista, para quem quer ver.
Vítor Colaço Santos

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Viver um dia com 1,15 euros

Ben Affleck, actor americano, protagonista em Argo, vencedor do Óscar para melhor filme 2012, vai participar na campanha contra a pobreza Live Below the Line.
Há 1,4 mil milhões de pessoas no mundo que vivem abaixo da linha de pobreza.
Para ele será muito fácil... "Vai ser giro!"
Um dia...
O que é «apenas» um dia a viver com 1, 15 euros?
Um bom argumento para um filme americano.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O país precisa de um novo Governo

A nível nacional, é já claro o falhanço político da actual coligação de direita e a urgência em abandonar a política de austeridade. Sente-se que quem governa tem uma agenda confusa e um calendário político que não se move pelo serviço público.
O PS tem assumido a sua responsabilidade para com a situação dramática do país, apresentando propostas alternativas, com o objetivo de demonstrar sinais de esperança, de futuro e de confiança para com quem mais tem sofrido e mais sacrifícios tem realizado.
É necessário sublinhar a importância do Estado Social, de um Estado solidário, generoso, que pretende a criação de uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais responsável.
Há uma alternativa política, um projecto opcional, à política desastrosa do actual governo de coligação do PSD e CDS-PP, que governa o país.
Para o efeito, não se pode governar como tem feito o executivo da actual coligação, isto é, de forma episódica, à vista, comprometendo e amarrando ainda mais o futuro das instituições e das pessoas e diminuindo o seu horizonte de oportunidades.
É, por isso, que pensamos que primeiro é básico alertar a população para a necessidade de uma gestão nacional diferente. Uma gestão preocupada com a difícil situação em que nos encontramos, é verdade, mas onde não vale tudo. Devemos preocupar-nos com uma gestão que moralize a prática política. Para o efeito, é necessário retomar a política de utilização rigorosa, planeada, racional e sustentável dos dinheiros públicos.
Estamos, assim, de acordo, com o PS., quando persistentemente declara que as pessoas estão primeiro. Para nós, a prioridade, o caminho, é reforçar e desenvolver a função social do Estado. É estar próximo das pessoas, é apoiá-las.
(PÚBLICO, 24/4/2013)
Manuel António Rebelo Ferreira, Lamego

Marisa Monte arrebata o Coração do Porto



Na Cidade que alberga o Coração de D. Pedro, herói de Portugal e do Brasil, ícone da mui nobre e Invicta capital do Norte, Marisa Monte fez vibrar em uníssono, os corações da multidão que esgotou o Coliseu do Porto, ontem, na véspera do 25 de Abril. Foi ela e essa Tribo de indefectíveis amantes da boa música, espalhados por todo o Mundo, e que ainda hoje se recordam das letras e músicas  do memorável Trio de Tribalistas, compostos por Marisa, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.
Que não estiveram, mas estiveram presentes, através das canções que fecharam o Concerto e nos rememoraram como fomos imensamente felizes ao ouvir “ Já sei namorar” ou “ Eu não sou de ninguém”. Às vezes, na Música como em tudo o que fazemos, as ausências tem uma profunda presença- como lembrou a artista ao recordar, através de um belíssimo Hino cantado e popularizado  por  Cássia Heller,   escrito por ela, Carlinhos Brown e Nando Nunes, a amiga falecida precocemente.
O Público do Norte mostrou a generosidade que é habitual sempre que os artistas que ama, e são muitos do outro lado do Atlântico, se entregam totalmente. Marisa de vestido branco, esguia, elegante, passeava pelo Palco como se estivesse nas nuvens, elevando essa voz que, ( só um Deus grandioso),  lhe poderá ter dado.
A abrilhantar a noite, literalmente, do ecrã colocado atrás da Banda – e que Senhora Banda estava ali !!! – e de Marisa, surgiam obras e imagens criadas por vários designers brasileiros – entre outros, Luís Zerbini, José Damasceno ou Jonathas de Andrade  . Arte que abraça a Arte, numa pulsão de Amor que tomava conta de todos nós, de olhos arregalados perante tanta Luz. 
E que dizer de “ Amor I Love you”, primeiro dos encores,  essa canção que significa tanta coisa para tantas gerações que viram nascer e frutificar o amor ?  Como são poderosos esses versos, como a Poesia nutre a Música, a alimenta, a fortalece !!!!
A noite de 24 de Abril para 25 de Abril, acabou já, simbolicamente, no Dia da Liberdade. A cidade do Coração de D. Pedro foi arrebatada pela energia carioca de Marisa e todos os corações pulsaram , mais fortes  do que nunca, ao som ritmado dos acordes da paixão.


R. Marques 

Adjunto do Adjunto


O colunista do PÚBLICO, Pedro Lomba, "jurista e polemizador", é agora o novo secretário de Estado adjunto do ministro adjunto e do Deenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro. "Tem obra publicada sobre Política e Direito Constitucional. Ganhou visibilidade na blogosfera (...) saltou para as colunas dos jornais e dos comentários televisivos" (PÚBLICO, 13 /4).
Espero que se porte bem. Agora está do lado de lá...

Abril



Ontem foi ABRIL!
e houve espanto
e baionetas que floriram cravos
e prisões de portas abertas
e lágrimas e abraços tardados.
E chegou povo do meu povo
gente que estava longe
gente que veio viver o espanto.
Ontem foi ABRIL!
e houve esperança
e as fardas eramos nós
e a ordem eramos todos
e o trabalho era pão
e a luta revolução...
Ontem foi ABRIL
e tantas esperas de enfim é agora
e as casas
e os campos
e as fábricas.
Vozes de que estamos aqui
e ali...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Mário Viegas: o interventor directo

Em Abril de 1996, o notável Ator Mário Viegas deixou-nos. O seu desaparecimento foi considerado a maior perda para o teatro português do século XX. Com admirável energia soube dizer todos os sentimentos e paixões. Provocador do riso e das inquietações: Foi génio; burlesco; trágico; sarcástico; irónico; cáustico; assustado; corajoso; desbragado; desassombrado; cruel; cortês; resistente; militante por e com Abril de 1974. Um multifacetado. A crítica esquece-o, os jornais não falam dele. O poeta Alexandre O’Neill também esquecido dizia:” Portugal: Questão qu’eu tenho comigo mesmo/ meu remorso de todos nós.” Revelou-se igualmente no cinema, para realizadores como: Artur Semedo, Fonseca e Costa e Manuel de Oliveira. Escritor, poeta e declamador disse vários poetas: Sena, Manuel da Fonseca, Eugénio d’Andrade, Vinícius, Neruda, entre outros. Deste ouvi-o dizer sentidamente “Ode ao Pão”:  «Todos os seres/ terão direito/ à terra e à vida/ e assim será o pão d’amanhã/ pão de cada boca/ sagrado,/ consagrado,/ porque será o produto/ da mais longa e dura/ luta humana. »

Comemorar o 25 de Abril

Com o 25 de Abril de 1974, Portugal passou em poucos meses duma ditadura fascista para uma democracia profunda, com o povo a assumir o protagonismo principal.
A participação das pessoas na discussão e decisão dos assuntos que lhes diziam respeito, foi uma característica essencial nos primeiros anos após Abril de 1974, que foi sendo diminuída e abafada pelos que se refugiam só em democracia representativa,   para fazer, na maior parte das vezes, o contrário do que disseram e prometeram antes de serem eleitos.
O 25 de Abril de 1974 mostrou que é possível um regime democrático, feito de liberdade, de justiça social, de progresso, de desenvolvimento, de paz, de garantia da nossa independência nacional e não esta democracia de faz-de-conta, com que hoje nos deparamos.
Comemorar o 25 de Abril, é também uma forma de mostrar a nossa indignação, e de reclamar o respeito que é devido aos seres humanos e cidadãos deste nosso País.
 
 

Quadras I


                                                 


                                                      Se ao teu falar alterado
                                                      Respondem palavras feias
                                                      E ficas incomodado?
                                                      - Só colhes o que semeias!

                                                                      *

                                                       Ao pobre, a moeda deste!
                                                       Fizeste grande avaria?!
                                                       Tu, apenas, devolveste
                                                       O que ao pobre pertencia!

                                                                       *

                                                        Se o AMOR fosse moeda
                                                        A correr de mão em mão
                                                        Haveria PAZ na Terra
                                                        E melhor compreensão

                                                                        *

                                                         O saber cresce e recresce
                                                         É maior a cada instante
                                                         Só o sábio reconhece
                                                         Que se torna ignorante

                                                                               
                                                                        JOAQUIM CARREIRA TAPADINHAS

Deus




O meu deus é o verdadeiro

Cada onda, por ignorância, pode pensar-se que é uma onda diferente do oceano que a contém e no qual se dissolverá. Cada gota de orvalho, por inépcia, pode considerar-se diferente da água que o compõe. Como diz o mestre zen, muitos dedos podem apontar à Lua, mas esta é só uma. Um bonito exercício consiste em ir atingindo a abertura e flexibilidade da mente, e ter olhos e sentimentos para as necessidades alheias, podendo, assim, desdobrar as nossas potências de afecto e ser solidários.

In “Os melhores contos espirituais do Oriente” Esfera dos Livros 2006

Prescrição não é para o seu múnus!

Soube~se hoje que processo judicial contra os padres suspeitos de crimes sexuais contra menores (crianças!!) não vão existir não houve queixa formal e o tempo prescreveu. Até aí "tudo bem" (tudo mal, como é evidente), agora que a própria Igreja Católica também aceite a prescrição canónica e, pior que isso, rejubile com ela, "valha-nos Nosso Senhor" (diria um agnóstico...)! Então os valores que são o múnus da própria instituição?!

Fernando Rodrigues

Sim à Memorização


A "memorização está de volta como um dos motores da aprendizagem". Mas esta tem que ultrapassar a disciplina da Matemática.
Reconheceu-se, «mais vale tarde que nunca» - esperemos que para ficar, que a memorização faz parte da aprendizagem.
A repetição tem de voltar a ser uma prática na aprendizagem. E os professores devem explicar aos alunos a importância da memorização.
Enquanto professora de Piano é isso que «professo» todas as aulas. A libertação  que vem de saber de cor, saber do coração, uma passagem, uma obra musical.
É, portanto, um tema que me é caro.
George Steiner, professor e pensador incontornável do nosso tempo, escreve, em qualquer dos seus livros, sobre a importância de memorizar: " Mas a memória - a «Mãe das Musas» - é precisamente o dom humano que possibilita a aprendizagem. (...) aquilo que sabemos de cor amadurecerá e desenvolver-se-à dentro de nós. O texto memorizado interage com a nossa existência temporal, modificando as nossas experiências e sendo dialecticamente modificado por elas. Quanto mais vigoroso for o músculo da memória, melhor protegido estará o nosso ser integral. (...) Por tudo isto, a rejeição da memória no actual sistema escolar é de uma flagrante estupidez. ( As Lições dos Mestres, Gradiva, 2003)
Mas sem repetição, não há memorização. («Mas é chato» - dizem).

terça-feira, 23 de abril de 2013

O funeral da minha televisão


Mudinha da Silva jazia no seu canto de sempre há quase um mês. Lembro-me bem...ouvi a Via Sacra, não vi a Via Sacra (Roma). A minha televisão, com aquela avaria, tinha-se transformado num rádio.
Hoje, finalmente, fiz-lhe o devido funeral: enrolei os fios, peguei nela, desci as escadas, pousei-a no chão junto ao carro e depositei-a na mala. Voltei ao lugar onde sempre esteve e retirei a toalha e a mesinha redonda sobre as quais viveu e trabalhou, durante muitos anos.
Não tenho, nem terei saudades. Se depender de mim, o lugar que ela ocupou jamais será preenchido por outra.
Bendita avaria.

O Livro de Tao








Nada neste mundo
É mais vulnerável e submisso do que a água
Mas para destruir o que há de mais duro e forte
Nada melhor existe do que a água
Que nada pode substituir
Assim
O que é vulnerável torna-se forte
O submisso torna-se duto
Isto é conhecido por todos
Mas ninguém deste modo o avalia
Por isso
O sábio diz
Aquele que é humilhado no estado
Pode vir a ser o soberano do País
Aquele que é acusado da miséria do estado
Pode tornar-se rei do império
Desta maneira
A verdade soa como inverdade.

Lao Zi  in “O Livro de Tao”

As pessoas deitam a mão a tudo...

Portugal está a empobrecer a um ritmo jamais sentido. Esta crise (cujos autores conhecemos) está a levar cada vez mais pessoas a furtar para comer, em mercearias e supermercados. Em 2012, bens alimentares figuravam em lugares de topo na lista dos produtos desviados. Os pobres estão paupérrimos e sem apoios sociais; a classe média perdeu o emprego e proletariza-se, sentindo dificuldade em comprar o básico. Entretanto, os super-ricos aumentaram em 2012... A PSP considera: «Nenhum indicador demonstra que o momento de retração económica, corresponde ao aumento do crime»(!) O aumento brutal de pobres; da fome; do desemprego; dos sem-abrigo; dos cortes nas prestações sociais; do ressentimento social, corresponde a que mais pessoas deitem a mão a tudo para matar a fome. A maioria destes furtos está associada a questões de sobrevivência. O resgate financeiro a que nos submeteram exige o pagamento acrescido de juros obscenos, estando também a ser pagos à custa da privação, humilhação e sofrimento do povo inteiro. A Rede Europeia Anti-Pobreza manifesta agudo receio, afirmando que a situação pode espoletar (ainda) mais suicídios, revelando que por dia põem termo à vida cinco pessoas! Para suprir necessidades básicas, muitos vendem os seus bens, não sendo por acaso que, as lojas de compra de ouro se reproduzam velozmente... Perfila-se novo corte no já (quase) moribundo Estado social: Saúde, Educação e Segurança Social em (como alguma imprensa refere) mais de 4 mil milhões de euros. Não há margem para mais austeridade, supressões e novos cortes e... se forem concretizados, o Governo é responsável pela agonia e morte lenta duma extensa fatia do povo! A continuarem as políticas austeras, tudo voltará a correr ao contrário das previsões. Os resultados estão à vista...
Vítor Colaço Santos

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Anselm Jappe ou o Capitalismo Canibal


Quando uma grande Verdade, que desmente as versões oficiais da Novílingua oficial do Economês, é dita,  costuma ouvir-se um silêncio atroador. O Espaço Público, o nosso e o dos outros países europeus, foi tomado de assalto pelos arautos de ultra-liberalismo, que não admitem contradições, qual guardiões da Austeridade que, juram eles, nos há-de salvar, matando-nos de carestia.
Ás vezes parece que vivemos na Velha Esparta. Somos - os Europeus do Sul - atletas da Fome, do desalento, dos impostos altíssimos, e (sobre)vivemos como concorrentes famintos de um qualquer Big Brother televisivo, manipulados pelo Clube oficial da MitleEuropa, liderado pelo braço de Ferro da Senhora Merkell.
Ora bem, como os milagres de vez em quanto acontecem, neste Domingo, além da excelente entrevista a Miguel Esteves Cardoso, tivemos uma lúcida conversa com o filósofo alemão Anselm  Jappe. Dela extrai uma ideia que me parece de uma lógica irrebatível: o trabalho está a tornar-se um bem escasso, os consumidores estão a retrair-se e, como consequência, o Mercado está a auto-destruir-se por falta de recursos dos cidadãos.
Ao contrário do método Medina Carreira que consiste em arrassar tudo, sem analisar nada, Jappe olha para mais longe, para esse Futuro impossível, em que a Economia se matará a si própria, e o Capitalismo devorará as suas entranhas, como um Canibal embrutecido.
Será que os Srs. Economistas acham normal que um país de 9, 5 milhões de habitantes tenha cerca de 20% de desempregados ? Em nome de quê ou de quem se destroi a vida das pessoas, das Empresas, se deixa as pessoas sem Trabalho e se espera, absurdamente, que o sacrossanto Mercado funcione, por Divina providência ?
Por favor, leiam este artigo. Vale mil vezes todos os programas do insuportável Medina Carreira e do seu moralismo bacoco .

Rui Marques

Do Tempo em que as Crónicas eram Crónicas





Este Domingo, o Público deu-nos de presente, raro neste período de austeridade também na qualidade jornalística, uma dupla entrevista a Miguel Esteves Cardoso e à sua mulher Maria João, conduzida por Anabela Mota Ribeiro. Foi muito interessante ler algumas respostas e voltar a um dos lugares onde fomos felizes como leitores, as crónicas do MEC 
Mas não só: sou de um Tempo, e tento usar este termo sem soar a Matusálem, em que os Jornais eram povoados por extraordinários cronistas, cuja escrita se situava no patamar da Obra de Arte - lembro-me de Eduardo Prado Coelho, de Miguel Sousa Tavares  ou João Bernard da Costa. De um Tempo em que a crónica era a Âncora que  puxava pelo Jornal, e o tornava uma referência e um vício saudável. 
Miguel Esteves Cardoso foi uma espécie de mestre de cerimónias da minha Geração. A Causa das Coisas, por exemplo, é um milagre de multiplicação das palavras e dos conceitos, partindo de Temas aparentemente banais para analisar, observar, afirmar os portugueses. 
Aprendemos, nesses belos pedaços de prosa e de filosofia, que a Vida era muito mais rica do  que pensávamos. Que havia um Tesouro em cada Marca de Maizena, em cada Doce, em cada lugar, em cada palavra, em cada Ditado - que havia Poesia e a Crónica, qual cana de pesca, nos ajudava a trazer à superfície a magia do Mundo. 
Voltarmos à Crónica é muito mais que uma necessidade puramente jornalística. É um Imperativo de sanidade mental: entre tantas notícias de Crimes, Guerras, Crises, Troikas, bem precisamos de um pausa, de uma Crónica que suspenda o Mundo e nos faça sentir, não objectos do Mundo, mas observadores deliciados, como se estivéssemos  numa esplanada, a ver serenamente as ondas do Mar. 

Rui Marques 

Dois meninos, dois mundos






Foto: Manu Brabo
 Bárbara Reis, directora do Público escreveu ontem:
"Temos de um lado Martin Richard, o rapaz de Dorchester, EUA; do outro, uma criança síria sem nome. Manu Brabo não sentiu necessidade de perguntar o nome da criança e incluí-lo na legenda. Ou não quis incomodar o pai. Qualquer que seja caso, o fotógrafo sabe que no dia seguinte ou nessa mesma tarde verá outra criança síria morta. Há uma imagem, mas não há uma história. Esta criança anónima foi morta num ataque do exército sírio, numa guerra que tem dois anos e que já matou, segundo a ONU, 70 mil pessoas, metade das quais civis. (...)
Porém,"a fotografia do menino americano de oito anos foi publicada em todo o mundo e a sua história contada com pormenor. Primeiro com informações erradas que a tornavam particularmente comovente, depois corrigida.(...)"
Anónimos ou não, ambos têm uma história e, infelizmente, com algo que as une, não obstante terem vivido em lugares tão díspares como os EUA e a Sìria: são inocentes. E ambos nos lembram a nossa pequenez enquanto seres humanos, a nossa fragilidade e o facto de que, americanos ou não, somos irremediavelmente comuns mortais.
 

Quero ser comentadora da TV

 
Declaro, desde já, que não quero remuneração de qualquer espécie.
Como devo fazer para ser comentadora da TV e transmitir as minhas análises do ponto de vista de uma idosa com anos de emprego, trabalho, alguma prática de desporto e voluntariado?
O número de“comentadores” é assustador. Como é que existem tantos palradores que nos enchem os programas de TV e rádio, a maior parte deles sem qualquer consequência se não palavras ao quilo.
As ideias, as informações (?) só de muito poucos, mas mesmo muito poucos têm qualquer interesse. A grande maioria fala, fala mas só semeia angústia, baralhação e distorções da realidade.
Há muitos anos, que pessoas da direita e da esquerda politica, começaram a esclarecer os erros que os nossos governantes em exercício - eleitos democraticamente, é verdade, mas por pessoas distraída e formatadas - estavam a implementar no nosso País. Mas essas informações, com muita habilidade, foram e estão a ser silenciadas e desvalorizadas pela maior parte da comunicação social.
É por isso que quero ser comentadora da TV para ir informando dos problemas das donas de casa, da existência de empregos que podiam e deviam ser preenchidos, da importação (dinheiro que sai) de supérfluos, dos gastos dos gabinetes dos senhores ministros… Apenas de coisas pequenas.
 

(Público, 22-4-2013)
Maria Clotilde Moreira