domingo, 26 de novembro de 2017

Os amigos do polvo
Jean-Paul Marat (1753-1793), uma figura carismática da Revolução Francesa (1789) que se intitulava “o amigo do povo”, demonstrava essa amizade na defesa dos sans-culottes, por vezes de forma bastante visível e virulenta, contra as classes possidentes.  Redactor do jornal “L’Ami du peuple” e membro activo do Clube dos Franciscanos, médico de profissão e, por opção, advogado dos interesses populares. O período revolucionário obrigou-o ao exílio por duas vezes e acabou assassinado pela sua amante Charlotte Corday.
 No nosso país, de há uns anos a esta parte, uma plêiade de indivíduos, de forma muito sofisticada, vem tramando uma luta contrária à de Marat, que parafraseamos, para os designar por “Os amigos do polvo”. Como podemos constatar, este “amigo do povo”, talvez até pelo seu objectivo, só o deixaram viver 4 anos com a revolução. “Os amigos do polvo” subsistem por espaços temporais mais alargados, porque têm uma protecção mais eficiente.
Consumada a nossa revolução, passado o período de efervescência que terminou ou foi domado no 25 de Novembro de 1975, instalado o regime democrático através da Constituição de 1976, julgávamos nós, os bem-intencionados, que estávamos no caminho do direito, da justiça, da ética e do respeito pela igualdade de oportunidades entre os cidadãos.
Hoje verificamos que não foi exactamente assim. Enquanto uns contribuíam para construir uma pátria maior, outros, tal como as toupeiras, iam subterraneamente minando os alicerces da nação, paulatinamente organizando esquemas aparentemente legais, mas impregnados do veneno da ratice e da roubalheira, para remeter para seu benefício a maior parte possível da riqueza da nação. Depois de se aperceberem bem como funcionava a república, colocaram os seus aríetes nos lugares de decisão, dando a estes, também, umas alargadas migalhas, para que daí resultasse as maiores benesses para os seus membros, quer individual, quer em grupo. O polvo orientou-se para retirar, em seu proveito, o máximo das finanças e da economia da nação. Essa ganância famélica durou décadas, mas acabou por ser divulgada, quando alguns escândalos rebentaram, ainda que a conta-gotas, sempre travados por uma legislação pouco ágil e polvilhada de alçapões.
Ainda o novelo das diversas operações não foi totalmente desenrolado e mal se pegou nele, por difícil, porque tem uma abrangência muito alargada e, eventualmente, poderosa a diversos níveis, já estão em funcionamento novas formas de manipulação dos serviços públicos, passando, para empresas fornecedoras de serviços, as tarefas que, até há algum tempo, eram desempenhadas por funcionários pertencentes aos quadros da administração. Na educação, na saúde, na segurança e em muitas entidades que coordenam ou dirigem serviços estruturais da administração, para enganar não sei quem, retiram-se verbas na rubrica do pessoal e aumenta-se a da compra de serviços. Damos um exemplo que pode ser alargado, nas devidas especificidades, a outros serviços públicos; nalguns hospitais, médicos, enfermeiros e funcionários de apoio, segurança, e limpeza, têm por entidades patronais empresas contratadas, fazendo deste modo descer a rubrica de encargos com o pessoal. O polvo sabe adaptar-se para continuar na sua senda.

25.11.2013 - Joaquim Carreira Tapadinhas – Montijo 

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