quinta-feira, 1 de maio de 2014

O POVO SAIU À RUA NUM DIA ASSIM


Eu tinha quase 11 anos e Maio amanheceu solarengo.

O ar estava carregado de euforia, sorrisos e lágrimas finalmente livres de censuras, antes derramadas em silêncio, agora de peito aberto e orgulhosas, como orgulhoso nasceu aquele primeiro 1º Maio.
Ébrios de uma liberdade que ainda não entendiam, os portugueses saíram à rua como nunca antes tinham saído e como nunca mais voltaram a sair.

Tudo era excessivo, mas tudo era genuíno e só por isso viver o momentos e olhar as imagens que varriam Portugal de norte a sul , teria valido a pena sair à rua e celebrar Abril e o Dia do Trabalhador ( pela primeira vez em 40 anos, celebrar os dia do trabalhador ).

A manifestação do primeiro 1º de Maio tem uma importância, histórica, sociológica, sociopsicológica e emocional sem paralelo na história do Portugal Democrático.
Neste dia, ainda que “ressacados” pelos acontecimentos de 5 dias antes e sem saber o que riria acontecer daí para a frente, os portugueses sonharam…sonharam muito e criaram muitas expectativas, sobretudo em torno das questões laborais.

Naquele dia, Liberdade queria dizer Respeito, Diálogo, Trabalho, Educação, Saúde, um país novo e um novo país – em termos de mentalidades, maturidade, responsabilidade e visão de Portugal no mundo. Naquele dia tudo era possível…e tudo foi possível naquela explosão de afecto pintada de vermelho e verde; naquele mar de esperança que invadiu a terra e os corações dos portugueses.

Mas…existe sempre um maldito mas…passados 40 anos deste primeiro 1º De Maio, olhamos em torno de nós, olhamos para o país, olhamos para a realidade laboral portuguesa e vemos o quê ?, sentimos o quê ?, celebramos o quê ?

Vemos um país triste; sentimos raiva e revolta; celebramos o fracasso do sonho.

Esta é realidade, não vale a pena mascará-la; mas também não vale a pena, nem podemos baixar os braços e deixar morrer a semente que Abril plantou.
Se quisermos ser intelectualmente honesto, sabemos que muitos dos que fizeram Abril, foram posteriormente carrascos desse mesmo Abril, na medida em que defenderam e defendem coisas que depois não praticam. Depois ( e não vou falar dos período conturbado de 75 ), desculpem a ousadia , por um lado sinto que Portugal não adquiriu maturidade democrática para Viver os ideais de Abril e adaptá-los aos novos desafios, por outro lado temos sido sistematicamente ingénuos e temos entregue o Poder a Vampiros, que ao longo dos anos, nos têm sugado força, a esperança e o sangue.

Em termos laborais em vez de crescermos, temos retrocedido; o movimento sindical tem uma vertente que estagnou e tem que se repensar e outra composta por um grupo de amigos, mais ou menos colado aos Poderes alternantes que nos têm governado.

Portugal é um país politicamente mal frequentado e as pessoas sérias receiam ficar contaminadas. Os movimentos de cidadãos começam cheios de garra e rapidamente ganham os tiques dos partidos e ficam iguais a eles , ou morrem e passam a existir em blogues, tertúlias e workshops onde vão fazendo a catarse dos seus desencantos.

Há 40 anos o povo saiu à rua num dia assim, cheio de sol…mas era um povo feliz, prenhe de esperança em dias melhores para todos.
Hoje o povo, algum povo, também vai sair à rua, mas se queremos salvar a semente que Abril plantou a esperança tem que ter raiva na voz e revolta nos gestos e nos olhares.

Há 40 anos, eu tinha quase 11 e às cavalitas do meu pai gritei coisas que não entendia mas que depois me ensinaram e estava feliz porque à minha volta a alegria era contagiante, mesmo entre os que choravam.
Hoje , 40 anos depois, quase com 51 anos e com filhos bem mais velhos do que eu era na altura ( 19 e 22 anos ), quero falar-lhes da importância deste dia e fico com um nó na garganta, porque sei, porque sinto e vejo que o futuro deles e tão escuro e incerto. Porque sinto e vejo que eles não acreditam no país em que nasceram e com o seu silêncio que tanto fala, nos perguntam – o que foi que vocês deixaram fazer a Portugal.

Teremos nós coragem para lhes responder, com verdade ?

Dito isto, volto a dizer o que já repeti tantas vezes – fizemos Abril…mas 40 anos depois, continua a faltar “cumprir Portugal” e os nosso filhos e netos exigem de nos que sejamos capazes…e estão cheios de razão.

(DN, 2-5-2014)
Graça Costa

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