terça-feira, 20 de março de 2018

Em abono da verdade


Ainda bem que a Portaria 45/2018 está a dar que falar. Acompanhei a polémica entre os cientistas David Marçal (DM) e Carlos Fiolhais (CF) com a curadora de arte Leonor Nazaré (LN). Menos do que sancionar a verdade ou a mentira da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), interessa-me mais que a discussão obedeça a critérios científicos. Valha a verdade que me sinto mais confortado na argumentação da senhora das artes do que na dos cientistas puros e duros. Bem ou mal, pressenti mais arrogância do lado do “saber”, pontuado por um certo tom jocoso e dispensável, e mais abertura de espírito epistemológico do lado da “arte”.

A excelente entrevista de Carlos Fiolhais, reproduzida pelo Público de 15.03.2018, a propósito da morte de Stephen Hawking (SH), sobrecarregou-me de dúvidas. Na minha ignorância de “não-cientista”, pareceu-me ver, a torto e a direito, inúmeras contradições entre o que CF diz com o que tem vindo a defender em parceria com DM. Esconjuram-se as MTC porque não há provas da sua eficácia, e, ao mesmo tempo, admitem-se plausíveis o Big Bang e derivados, sem “provas experimentais, observacionais”? Como assim?

Ao leitor atento da entrevista não escapará o realce que CF deu à necessidade de SH “comercializar” a divulgação científica. Não quero crer que DM e CF, ao isolamento dos laboratórios, prefiram as ribaltas e os palanques vistosos e rentáveis das conferências e outras performances. Estarei cientificamente enganado?

No mínimo, se houver resposta ao artigo de LN (“Dragões, telemóveis e aviões”, Público de 15.03.2018), DM e CF estarão “obrigados” a rebater, com “fundamentação científica”, que os “milhares de trabalhos de investigação sobre as diversas Terapias Não Convencionais que comprovam a sua eficácia” ou não existem ou estão todos errados. E então, descansaremos…

3 comentários:

  1. Boa tarde, José. Cá vamos nós novamente... e fiquei a saber que, tal como pressentiu mais arrogância do lado do "saber" (CF e DM), também eu pressinto que o seu "coraçãozinho" vai mais par o lado de LN. Aliás você confessa-o ao dizer-se "mais confortado" nela. Embora queira que a "discussão obedeça a critérios científicos", toma as "dores" da "arte" (?) e procura contradições onde não as vejo do lado do "saber", mormente aquela de querer... que o Big Ban tivesse sido observado para poder ser dado com certo! Então... e os métodos de análise científica retrospectiva? Vidé todo o estudo da evolução biológica do Homo? Quanto ao "comercializar) tem razão, se lermos a palavra na sua literalidade, o que é lícito. Mas, usando duma outra leitura, que a polissemia talvez me permita, eu interpretaria mais como "divulgar", será? É sempre um prazer falar consigo!

    ResponderEliminar
  2. Caro Fernando,
    Deixe-me começar por dizer que, ao contrário do que possa parecer, não pretendo defender a “verdade” da MTC, embora talvez até tenha algumas razões para isso. Aliás, tive o cuidado de frisar que me interessam mais os critérios científicos da discussão entre CF + DM versus LN. E foi aqui que registei a minha grande desilusão causada por um dos meus “ídolos” na matéria, exactamente Carlos Fiolhais. Bem sabemos que, às vezes, a sapiência altera o carácter dos seus detentores que, amiúde, vestem roupagens de omnisciência arrogante que nos surpreendem pela negativa e nos desiludem. Foi o caso, embora admita que possa estar errado no juízo que faço.
    Contradições sim, sem dúvida. Uma já seria muito, mas há mais. Citando CF:
    Na entrevista: “Essa sua teoria [de Hawking] … não está provada. Não há provas experimentais, observacionais.” “As teorias dele, em geral, foram muito especulativas … que fizeram avanços na ciência mas que, em boa parte, não estão confirmados.” “Stephen Hawking … fez previsões. No entanto, não foram confirmadas.”
    No artigo: “As leis da natureza são as mesmas em todo o Universo e não dependem de quem as propõe, mas sim das provas apresentadas em seu abono.”
    Dois pesos e duas medidas: o “coraçãozinho” de CF pende, nitidamente, para Hawking (e não lhe levo a mal por isso).
    O Big Bang, cuja “ocorrência” eu não contrario, faz-me lembrar o carbono 14. Aceito-os. Mas, para isso, tenho de dar por bons certos pressupostos que, francamente, me deixam algumas dúvidas. Por que carga de água é que o carbono 14 tem uma vida de cerca de 11.500 anos? E porque não 20 ou 30 mil? Para que um vestígio animal ou vegetal seja datado com 10.000 anos, deveríamos ter um referencial seguro de que a essa data ele já lá estava. Existem com segurança esses referenciais? Mas pronto, aceito as conclusões, tanto mais que esta minha “ciência”, se não é de pacotilha, é de almanaque.
    Por muita polissemia que lhe assista na questão da comercialização, Fernando, não posso apagar o registo de CF na entrevista, referindo-se a Hawking: “ele precisava de meios para sobreviver. A assistência médica é cara, ele tinha enfermeiras sempre à volta, ele próprio reconhecia que tinha de escrever livros porque precisava”. Não critico, mas… divulgação?
    Ora, neste ponto é que algumas campainhas se vão fazendo sentir no meu cérebro. O respeito intelectual e a admiração que tenho por Carlos Fiolhais impedem-me de pensar que ele tenha procurado nas “medicinas alternativas” e sucedâneos o seu Eldorado, e até admito que vá dando uma mãozinha na ajuda ao cientista-humorista David Marçal, a quem supervisionou o pós-doutoramento. E não, não tenho preconceitos de que a ciência não possa ser divulgada pelo humor em stand up comedies.
    Finalmente, o conforto que exprimi tinha a ver com a verificação (precipitada?) de que havia mais argumentação racional do lado da “artista” do que do lado dos “cientistas”, o que muito me surpreendeu. E, também, admito, porque tenho tendência a defender o lado dos mais fracos.
    Não quero deixar aqui a ideia de que Hawking, além da invulgaridade da sua própria doença, era, para mim, um homem vulgar. Pelo contrário, a minha admiração por ele é enorme.

    ResponderEliminar

Caro(a) leitor(a), o seu comentário é sempre muito bem-vindo, desde que o faça sem recorrer a insultos e/ou a ameaças. Não diga aos outros o que não gostaria que lhe dissessem. Faça comentários construtivos e merecedores de publicação. E não se esconda atrás do anonimato. Obrigado.

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.