sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

"Vanitas vanitatum et omnia Vanitas"


O homem, com mais ou menos tecnologia, continua o mesmo de sempre, e, palpita-me, não vai mudar muito. Mortal que nem uma mosca, continua a achar-se o maior. Vem isto a propósito de línguas e literaturas, o meu destino, o meu fado, e também - sou tão homem como as moscas - a minha vaidadezinha.
É que, no primeiro dia do ano, fartei-me de ouvir falar de “papers” e “footnotes”. Declaração de amores: adoro inglês, e um dos meus sonhos, que nunca, tristemente, se irá realizar nesta encarnação, era ser bilingue português/inglês, e adoro também e uso com gosto e prazer alguns anglicismos que a língua de Eça de Queirós bem adoptou.
No entanto, por que é que há tanto armanço no uso do inglês com a vulgarização provinciana, por exemplo, no meio “científico” lusitano, da palavra ‘paper’ e quejandas? Não temos belas palavras em português como artigo, texto, palimpsesto (que, no fundo, é o que são, negativamente, todos os “papers” armados ao pingarelho), textura, tecido, prosa, poesia, papel (porque não?) e tantas outras.
Mas sobretudo o que me deixa de cabelos em pé é o vulgar começo do uso de “footnote”. Ó minhas santas, ó minhas queridas santinhas doutorandas de Cascais e arredores, não quero ser malcriado em bom português, por isso digo-vos apenas: metei a “footnote” no Dicionário Oxford e passai a falar comigo com notas-de-rodapé. E, já agora, em jeito de nota de fim de nota, ide ler o Eclesiastes. Está lá tudo, com algumas notas-de-rodapé importantes.

Nelson Miguel Bandeira

2 comentários:

  1. Grato por poder ler um texto assim. O que me "assusta" neste linguajar anglófilo não é o pedantismo balofo ou outras vaidazezinhas mas sim... o uso da linguagem como PODER que, vindo de mentes pequenas, é necessariamente vicioso e daí... perigoso.

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