O Facebook é uma máquina de
opinião perversa e perigosa. Ultimamente, tenho estado mais atenta aos “posts”
publicados no Facebook e cada vez me convenço mais de que o mesmo é uma grande
mentira, apesar de para muitos, ser quase uma religião. Não ficarei muito longe
da verdade se disser que, nos dias que correm, se não tens página no Facebook,
literalmente, não existes; os “amigos” “esquecem” o teu aniversário e podes
mesmo ir desta para melhor que, se não for anunciado no Facebook, muitos nem se
irão aperceber.
Este embuste é, consumido ávida e
diariamente por milhões de utilizadores e como quase tudo na vida, tem méritos
e deméritos.
Vamos lá ver se eu consigo
explicar a minha “tese” mas antes de começar ressalvo que esta reflexão não
pretende converter ninguém nem ao FB, nem ao seu contrário…trata-se apenas de
um exercício mental sobre os perigos e as virtudes desta “máquina que mudou o
mundo” e a forma como as pessoas se relacionam.
Pessoalmente, considero que o FB,
como todas as redes sociais, por detrás da sua aparente democraticidade,
esconde uma poderosíssima arma de embrutecimento colectivo com uma percentagem
de eficácia bem superior a anos de desinvestimento intelectual.
Tem a facilidade do acesso a tudo
e mais umas botas, à distância de um click; a perversidade de qualquer mentecapto/
génio/ terrorista / fundamentalista, tarado etc, etc, poder postar o que bem
entender e ter assim acesso a uma ferramenta poderosa de manipulação das
consciências sem ter que despender um cêntimo; tem o enorme e perigosíssimo
potencial de ser virtual, pelo que em muitos casos, não sabemos sequer quem é
que efectivamente está do outro lado.
Milhões de pessoas nos dias de
hoje, estruturam, literalmente, as suas personalidades, através dos dados que
recolhem nas redes sociais e da forma como gerem a informação recolhida, sendo
que na maioria dos casos ( e esse é o maior perigo ) esta não é sequer
filtrada, pensada ou devidamente informada. Está no FB…é verdade…ponto.
Obviamente, não podemos nem
devemos generalizar.
Existem, felizmente muitas
pessoas que usam o FB como instrumento meramente lúdico e de distracção e ainda
bem; outros para matar saudades dos amigos e da família ( e que bom permitir
isso ); outros para divulgar o seu trabalho e angariar clientes ( tudo certo) ,
outros que de forma ponderada o usam para refletir sobre o paradigma societal
em que vivem e tentam, obviamente sem sucesso, fazer uso pedagógico da poderosa
ferramenta que têm ao seu dispor; outros ainda, limitam-se a partilhar
informação recolhida noutras plataformas ou de correntes de pensamento para
tentar que os utilizadores se questionem sobre o mundo em que vivem e a esses
apenas elogio a coragem de serem contracorrente, mesmo sabendo que a
percentagem de sucesso é infinitesimal, etc, etc.
Contudo, convém salientar que o
ADN do FB e das outras redes sociais é o consumo de desgaste rápido, é a
possibilidade de, sem grande esforço, construíres um personagem e depois teres
a inteligência de o manter coerente, sendo aí… exactamente aí que “ a porca
torce o rabo “ – ser-se coerente na gestão de uma eventual mentira ( para os
que o fazem, obviamente ) é muito mais difícil do que parece.
Contudo…será que isso tem alguma
importância?
Pois…não, absolutamente nenhuma, porque
no patético e perigoso mundo em que vivemos, ser-se coerente e intelectualmente
honesto, longe de ser uma virtude é um empecilho àquela que hoje é a verdadeira
competência chave da sobrevivência e a que pomposamente, talvez para lhe
conferir alguma credibilidade, chamamos de adaptabilidade, ou num linguajar
mais popular, “albardar o burro à vontade do dono”. Depois é só uma questão de
treino…estar no “sítio” certo com a “gente” certa; publicar no mural o
“politicamente” correcto ou não, dependendo do objectivo de cada um; colocar os
likes certos nas pessoas certas e eventualmente para os mais ousados, fazer um
comentário escrito…assim com cabeça, tronco e membros – muito perigoso, aviso
já, porque é uma das maneiras mais simples e rápidas de coleccionar inimigos.
Depois deste arrazoado todo,
perguntar-me-ão, se tenho página no FB?
Tenho e uso da forma que acho
mais correcta. Faço umas “licenças sabáticas” de vez em quando, mas tenho.
Posso afirmar, com total conhecimento de caso que a diferença entre estar “on”
ou “off” é abismal em termos de visibilidade / interacção comunitária e foi exactamente
por isso, que senti necessidade de pensar nas potencialidades e perigos desta
ferramenta.
Depois de muito reflectir, chego
sempre à mesma conclusão - nada na vida é absolutamente mau ou indubitavelmente
bom – o uso que fazemos dela é que faz toda a diferença. Contudo, tenho que
assumir que é essa a minha maior preocupação. É que o uso de uma arma
potencialmente mortífera por muitos ignorantes potencia o perigo de catástrofe.
Mais, pelo que vou assistindo e refletindo, concluo que a proliferação da
informação não produz mais cultura nem mais conhecimento, antes pelo
contrário…aumenta o rebanho de acéfalos, logo os perigos do embrutecimento
intelectual aumentam exponencialmente.
Mas pronto a democracia tem
destas coisas e a liberdade de expressão existe para todos, mesmo para quem não
pensa, mas tem um computador e ligação à Internet.
Fica a reflexão e para quem
quiser, o alerta.
“Vemo-nos” por aí… eventualmente
no FB.
Graça Costa
*Este artigo não é escrito ao abrigo do acordo
ortográfico.
Uma faceta que eu há tempos comecei a notar neste blogue é a de que muitos de nós deixamos de ler o que os outros escrevem. Digo isto, porque a falta de comentários, quer sejam de apoio às ideias expostas, quer sejam de posicionamento contrário, levam-me a essa conclusão. Os artigos da Graça, que embora sejam muito extensos, eu leio com prazer porque estão bem elaborados e com conteúdos, raramente despertam nos colegas leitores os comentários que merecem. O artigo anterior, de grande profundidade, não encontrou eco, quanto a mim, suficiente. Este, que trata um problema, que está há muito na ordem do dia, também merece a nossa atenção e traz-nos a verdade insofismável do reverso da medalha. Todas as coisas podem ser sempre elas e o seu contrário. A arma de defesa é a mesma que serve para o ataque. Para algo estar em evidência é porque existe uma outra parte que está na penumbra, pois só a oposição explica o primeiro sentido. Parabéns também por não ter aderido ao malfadado acordo ortográfico.
ResponderEliminarMeu caro colega blogger, em primeiro lugar peço desculpa pela extensão dos meus artigos, mas tenho uma enorme dificuldade em abordar as coisas pela rama; defeito de formação certamente. O meu anterior artigo não foi muito comentado mas chegou para ser ofendida, algo que nunca imaginei quando aderi a este projecto. Aceito com todo o prazer o contraditório, agora a ofensa gratuita e sem conteúdo não. Dito isto...muito grata pela generosidade das suas palavras - os blogs ara mim são isto mesmo, a possibilidade de podermos partilhar as nossas opiniões e por via da partilha, crescermos uns com os outros. Gosto de reflectir sobre o que se passa à minha volta e como sou mãe acho que tenho essa responsabilidade. Quero ajudar a criar cidadãos responsáveis e interventivos, não anémonas. Quanto ao acordo ortográfico...creio ser clara em relação ao que penso dele ao recusar-me a usá-lo, pelo menos nos locais onde isso ainda me é permitido. Uma boa tarde e obrigada.
EliminarEm relação ao ultimo texto da autora, eu "só" disse que talvez fosse o mais útil que já aqui tinha lido. Quanto a este, idem idem aspas aspas. Por mim, agradeço muito que a nossa amiga nos ofereça estas utilíssimas reflexões. O FB é efectivamente uma faca de dois gumes. Nunca tive criei inimizades com ninguém, agora por causa dele,isso em parte aconteceu, imagine-se, com familiares. Muito obrigado Graça!
ResponderEliminarmuito grata pelas suas palavras e pelo tempo que gasta a "ler-me".
EliminarQualquer forma de comunicação, seja numa esplanada, num grupo, o facebok e afins, deve ser usado q.b. para não cansar e tendo tempre em conta a sã convivência e o civismo. As ferramentas de comunicação da net, por permitirem o anonimato, também permitem a cobardia e a má educação. Mas que isso não sirva para inibir quem pensa e ainda tem opinião. Já basta o que basta!
ResponderEliminarconcordo inteiramente consigo...a "democracia" e a "liberdade de expressão" têm um preço por vezes muito elevado, mas que isso não nos iniba de nos fazermos ouvir, com respeito pelos outros e sobretudo por nós mesmos.
Eliminarobrigada pelo seu contributo.