segunda-feira, 23 de abril de 2018


Sobre a vida e a morte


De “O livro de San Michele”, de Axel Munthe, respigo o que segue:

“Um conhecido crítico descobriu que na História de Sam Michele há material suficiente para prover de ideias novas até ao fim da vida vários autores de novelas interessantes. Cedo com prazer a tais cavalheiros e senhoras este material, para que o aproveitem como lhes convenha, pois dele não necessito.

Depois de ter utilizado os meus esforços literários no trabalho de fazer receitas durante toda a vida, é pouco provável que, ao declinar da idade, conseguisse escrever “novelas interessantes”. Pena é que não tivesse pensado antes, e assim não me veria reduzido ao que sou agora!  Deve ser muito mais agradável sentarmo-nos comodamente a escrever histórias sensacionais do que a sofrer toda uma vida para reunir o matrerial indispensável que aquelas requerem; mais fácil é descrever enfermidades e mortes do que vencê-las; menos perigoso inventar intrigas horrorosas do que ser vítima delas.

Mas por que razão não recolhem, por si mesmos, esses escritores o seu material? Muito poucos o fazem. Autores que se deleitam a levar os seus leitores aos bairros humildes raras vezes ali vão. Especialistas  nas doenças e na morte raras vezes entram no hospital onde acaba de morrer a sua heroína. Poetas e filósofos que em bons versos e elegante prosa saúdam a morte como libertadora empalidecem muitas vezes só de ouvir o nome dessa sua melhor amiga.

Sempre assim foi; Leopardi, o maior poeta da nova Itália, que desde a infância anelara a morte numa dezena de poesias perfeitas, foi o primeiro a fugir quando em Nápoles apareceu a cólera. Até o insigne Montaigne, cujas reflexões sobre a morte teriam bastado para tornar imortal, deitou a correr como uma lebre no mesmo dia em que se declarou a peste na sua cidade de Bordéus. O velho e intratável Schopenhauer, o maior filósofo dos tempos modernos, que fez da negação da vida a pedra angular do seu sistema, interrompia qualquer conversação em que se falasse da morte. Autores que se comprazem na descrição de orgias sexuais são, por via de regra, péssimos actores em semelhante matéria. Por mim, conheço uma única excepção, Guy de Maupassant, a quem vi acabar vítima de tais excessos”.


Amândio G. Martins



2 comentários:

  1. Curiosa a coincidência de, em dias sucessivos, ter lido coisas sobre Saint Michel! Ontem foi a notícia de que o Monte de St. Michel foi evacuado de gente,momentaneamente,porque houve a suspeita de que um homem podia ser perigoso. Hoje é o Amândio Martins que respiga parte do Livro de St. Michel, de Axel Munthe. Os dois me trazem belas memórias. O segundo pela leitura que, como quase todos nós, dele fiz, em jovem, e onde aprendi, entre outras coisas, que se passou na época das senhoras "chiques" em que a escola de Charcot "inventou" a "colite" que todas elas possuíam pois sempre dava um "toque de classe".O primeiro pelo que me extasiou quando o vi e visitei há cerca de 20 anos. Na fronteira entre a Bretanha e a Normandia, a beleza da sua aparição ao longe, quando nos aproximávamos, só é comparável à aproximação a Toledo, em que o ocre da paisagem seca é a premonição da seguinte proximidade a El Greco! Divagações...

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  2. Traduzido por Jaime Cortesão, este livro foi o primeiro da colecção "Dois Mundos", da "Livros do Brasil", que deixou por cá mais de uma centena de grandes obras.
    O autor dedicou o livro a rainha da Suécia, "protectora dos animais maltratados e amiga de todos os cães".
    Do primeiro prefácio, e escreveu três, retiro esta curiosidade: "Quando perdi o sono, comecei a escrever este livro, depois de ter ensaiado todos os remédios inofensivos. Bendisse muitas vezes Henry James pelo seu conselho; ultimamente tenho dormido muito melhor. E agora já não estranho que em nosso tempo tanta gente se dedique a escrever livros"...

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