quinta-feira, 25 de abril de 2019

25/Abril/1974: "Bom dia doutores!"

Cidade de Tete, norte de Moçambique. Terraço da "messe" de oficiais. Cinco  médicos militares milicianos bebiam um café. Eu,"desenfiado", e mais quatro colegas do hospital militar local. Bom dia doutores! Esta saudação, tão cordial, fez-nos levantar rapidamente para responder canonicamente ao homem que a proferiu, o coronel comandante da ZOT ( Zona Operacional de Tete). Curta troca de palavras logo seguida dum espanto genuíno que cruzou o nosso olhar civilista. Donde vem tanta informalidade? Aqui "há gato"! Não demorou muito a sabermos o que se estava a passar na "metrópole": era o 25 de ABRIL! Sem pormenores ainda.
Quando uma instituição tão hierarquizada e rígida como o Exército, neste caso simbolizada num comandante de topo, muda pequenos nadas do quotidiano, só podia significar MUDANÇA no cerne. Neste caso, não da instituição ( isso não era trabalho para um dia...), mas no País. Mudança essa que se adivinhava já no suplemento do EXPRESSO com uma recensão sobre o "Portugal e o Futuro", que me tinha chegado às mãos, numa falha da censura que não  amputou esse número da minha assinatura do hebdomadário.
Termino. Era o 25 de Abril  que, pessoalmente, me reduziu a comissão a 15 meses, me permitiu conhecer um filho nascido entretanto, retomar o meu trabalho e carreira e.... libertar-me duma situação de que discordava, numa guerra colonial iníqua e....inexequível. O "curioso" foi que esse Abril foi executado pela mesma instituição que sustentou o antigo regime durante largos anos: as Forças Armadas. Razões? Não cabe aqui analisá-las mas... foram muitas e variadas. Desde que feito só resta dizer enfaticamente: Viva o (abençoado) 25 de Abril!

Fernando Cardoso Rodrigues

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