segunda-feira, 26 de junho de 2017

Figura assombrosa

Jocabed e Amram já tinham dois filhos, Maria e Aarão, quando ela engravidou de novo, no momento em que o Faraó, preocupado com a fertilidade dos judeus, determinou que fossem mortos naquela raça todos os recém-nascidos do sexo masculino a partir daí. Disfarçou a gravidez e quando o menino nasceu engendrou um plano para o salvar: morando próximo do palácio e sabendo que a princesa se costumava banhar nas águas do Nilo, calafetou um cesto e colocou lá a criança; quando a princesa e acompanhantes se aproximavam, pôs o cesto a flutuar e mandou a filha Maria vigiar o que aconteceria.
Despertadas pelo choro do bebé, as companheiras da princesa apanharam o cesto; Maria aproximou-se então e ofereceu-se para arranjar ama que pudesse criá-lo, o que foi aceite, permitindo à mãe reaver o filho, com todo o apoio da princesa para o que necessitasse. Já adolescente, o rapaz foi restituído à salvadora, que o perfilhou, deu-lhe o nome de Moisés (salvo das águas) e educou-o de acordo com as regras da corte; revelando-se, desde muito cedo, o temperamento austero que o predestinava a grandes feitos, nunca se deixou influenciar pelo paganismo dos egípcios; e o sangue hebraico impelia-o a escutar as queixas do seu povo escravizado, que perdera a liberdade e os bens mas conservava um grande orgulho e dignidade.
Tendo visto um da sua raça agredido pelo capataz, num irreprimível impulso matou o agressor, acto que lhe poderia ter custado a vida; mas escapou com uma pena de exílio e casou com a filha de um homem abastado, a quem passou a apascentar os rebanhos; meditando enquanto  deambulava pelo deserto, arranjou inspiração para tirar do cativeiro os seus irmãos.
Com o tempo passado e a morte do Faraó, o delito de Moisés foi esquecido, o que o encorajou naquela aventura de libertar o seu povo; encontrado o irmão Aarão, que se mostrou pronto a ajudá-lo, tentaram negociar a libertação com o novo rei, mas este não prescindia daqueles braços para as obras. Todavia, uma sucessão de pragas e mortes entre os egípcios foram vistos como um castigo de Deus e o Faraó acabou por autorizar a saída daquela multidão de cerca de dois milhões de pessoas, que Moisés comandou na marcha.
Como este temia, o egípcio arrependeu-se e decidiu persegui-los, mas quando chegaram ao Mar Vermelho, que os israelitas já tinham cruzado, foram submersos! Vencida esta etapa, a fome e a sede revoltava o seu próprio povo, que por diversas vezes se amotinou, querendo voltar ao Egipto. Manter unida aquela massa imensa foi tarefa que só mesmo um Moisés, com ajuda de um Deus supremo, teria conseguido, mas os seus 120 anos já não lhe permitiam continuar, sucedendo-lhe Josué para levar até ao fim o empreendimento. Perante tão prodigiosa figura, quando hoje vemos tanto mentecapto alcandorado a líder, são mesmo de temer os caminhos que o mundo leva.


Amândio G. Martins

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