quarta-feira, 14 de junho de 2017

Vida mesmo atribulada

Dos poucos portugueses que, na saga dos “descobrimentos”, não foram à procura de fortuna a qualquer preço, cometendo todo o tipo de crimes, Luís Vaz de Camões ocupa lugar proeminente. Andou por lá, sim, mas desterrado para cumprir castigos injustos. Gigante entre pigmeus, desabafava a um amigo, pouco antes de morrer, que morria na pátria e com ela, quando se desenhava já a subida de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal.
Filho de fidalgo pobre que se sujeitava a todo o tipo de humilhações, Luís Vaz nunca foi de levar desaforo, feitio que lhe acarretou muitos castigos e perseguições. Um tio paterno na carreira eclesiástica em Coimbra reservava-lhe o mesmo destino, mas depressa se percebeu não ser essa a sua vocação; espadachim com  alcunha de “trica-fortes” ganha entre os estudantes de Coimbra, a sua apetência pelos encantos femininos só lhe granjearam inimigos e sofrimento.
A sua grande ambição era escrever uma obra que enaltecesse os feitos dos portugueses, na senda das epopeias de Homero e Virgílio. O amigo Conde de Vimioso, ao ler a “oitava” hoje  em número três no canto primeiro, ficou tão entusiasmado que lhe disse: se fora rei, só por estes oito versos te perdoaria todos os desmandos da juventude!
Perseguido pelos parasitas da corte, invejosos e ciumentos, não só pela inteligência que demonstrava mas também pelo desassossego em que deixava os corações de fidalgas e princesas a quem dirigia versos apaixonados, foi várias vezes castigado pelo rei, por causa daquele “amor ardente” por D. Caterina de Ataíde, levando D. Afonso III a determinar que fosse combater para Ceuta .
Regressado a Lisboa, recebe ordem de embarcar para a India, mas a morte do pai e doença da mãe adiaram a partida, dedicando-se então ao poema tantas vezes recomeçado e interrompido. Mas continuou a ser perseguido, preso e finalmente despachado para a India, onde voltou a ser preso e difamado pelos inimigos, que até uma carta do amigo D. Manuel Portugal, dando-lhe conta do falecimento de D. Caterina de Ataíde, só lhe foi entregue em Macau dois anos depois. Nessa carta o amigo dava-lhe conta que as últimas palavras da sua amada tinham sido para ele.
Na gruta em Macau, onde compôs grande parte dos Lusíadas, escreveu para D. Caterina o incomparável soneto “Alma minha gentil, que te partiste”. Mas o seu infortúnio continuou até nos esforços para publicar a sua obra. Já reinava D. Sebastião, que de má vontade aceitou ouvir-lhe o poema, que ainda teve de vencer as desconfianças da Inquisição.Já nada o prendia à vida e o desastre de Alcácer-Quibir arrasou-lhe o coração. Terá tido no funeral apenas três pessoas: o poeta António Ribeiro Chiado, amigo de sempre, Febo Moniz e o escravo António.

Amândio G. Martins


3 comentários:

  1. Esta enorme contradição parece que é a nossa sina. Um país que tais filhos tem, e como são tratados. Obrigado, amigo Amândio, por este tão esclarecedor texto. Suponho que não se importe que o partilhe, incluindo, evidentemente, a sua autoria.

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  2. Olá, senhor Ramalho. Tudo que sabemos, ou julgamos saber, aprendemo-lo com alguém ou em algum lugar. Portanto, partilhe à vontade.

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