quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ENTREVISTA A ADONIS



Ali Ahmed Said Esmer, ativista político, e genial poeta e ensaísta sírio com dezenas de obras de poesia e ensaio publicadas em árabe e traduzidas em todo o mundo com o pseudónimo de Adonis. Duas delas, editadas em Portugal: a antologia poética O Arco- Íris do Instante (D.Quixote) e Violência e Islão (Porto Editora). Proposto várias vezes a prémio Nobel da literatura, esteve recentemente no nosso país e deu uma extraordinária entrevista a Ana Sousa Dias, publicada na edição de 15 de Novembro de 2016 do Diário de Notícias, da qual passo a transcrever alguns extratos.

Acredita no homem?

Continuo a acreditar no homem.

E isso é essencial?

As religiões, num sentido lato, inventaram um outro mundo e afastaram o mundo onde nós realmente vivemos. Fizeram dele um símbolo do mal, do pecado. Mas para mim o mundo mais belo que alguma vez existiu é a Terra. É isto, isto aqui. Veja como é belo. Nunca farei parte dos que dizem que tudo isto é falso e inventaram um outro mundo. Não posso aceitar isso. Mas não sou contra uma pessoa que acredita nisso. Não estou contra ela por acreditar nisso, é livre de fazê-lo, mas sou contra quando tenta impor-me aquilo em que acredita.

O que procura para pacificar a sua alma? Chamo-lhe alma como poderia chamar ser.

Este é um momento extraordinário. Escute as ondas: é poesia. O mar tenta abraçar a areia, as poeiras, tudo. É um ser aberto. Não há diferença entre a água e aquele pássaro, olhe para ele. E as rochas e as árvores que conseguem brotar das rochas. Esta unidade quase mística dentro da natureza é simbólica. É preciso que o homem veja e compreenda isso. Na vida política é o oposto: o homem é o lobo do homem, sempre. Porque é mobilizado pelo poder, pelo dinheiro. E as instituições da sociedade, em vez de desencorajá-lo, encoraja-o a isso. A vida é uma floresta, a vida quotidiana das sociedades. Todos estão contra todos.

Na sua tristeza, o que vê de positivo para o presente, para o futuro?

O amor e a poesia. O nosso céu, o nosso oceano, a nossa musicalidade. Escute o ruído das ondas, é música, é poesia.

E as mulheres?

As mulheres são o centro de tudo, porque são o centro do amor.

Perguntei isso por causa do papel da mulher no extremismo muçulmano.

No Islão, a mulher, falando com profundidade, não existe. É um nome, número, um meio, um utensílio para a vida. E não estou a falar no lado sexual. Mas no judaísmo e no cristianismo também. No Islão não existe praticamente, no judaísmo existe teoricamente. E não existe sequer em deus. Imagine um deus, criador que criou o homem macho à sua imagem. Não criou o masculino e o feminino. Criou o homem macho, não criou a mulher à sua imagem. É esse o deus do monoteísmo. O problema é com deus, não é com a religião. É preciso recusar esta visão divina. A mulher deve ser criada também à imagem de deus, não pode vir da costela do homem.. O que é isso?
Continua a escrever poesia?

Escrevo poesia para compreender melhor aquilo de que temos estado a falar, para me compreender melhor a mim mesmo, para compreender melhor a minha relação com o outro, para compreender melhor o outro. Para compreender melhor o mundo. É por isso que escrevo poesia. E se numa cultura inteira, a filosofia, a história, a antropologia, a sociologia, a ciência não tem mais nada a dizer sobre o homem, sobre a natureza, sobre o universo, resta em teoria a arte que tem sempre algo a dizer. E na prática o amor. Que também tem sempre algo a dizer.

Francisco Ramalho
Corroios, 24 de Novembro de 2016





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