terça-feira, 15 de março de 2016

CARTAS PARA OS JORNAIS

Na continuação do III Encontro de Leitores-Escritores que aconteceu no Porto no passado Domingo, gostaria de partilhar com os que não estiveram presentes, uma reflexão pessoal sobre este tema, e a actualidade do mesmo:





Na democracia qual é a margem participativa para o  cidadão comum e anónimo?

No caso português, o cidadão enquanto “homem político” esgota os seus créditos de intervenção, nos actos eleitorais.
A nossa democracia é exercida por grupos musculados de “eleitos”, detentores das chaves, dos códigos, das linguagens intrincadas, que lhes dão acesso a uma total liberdade de movimentações, em círculo fechado, altamente arregimentado, feito por eles e para eles, que omite o cidadão comum do convívio diário.

É uma democracia que se protege, desconfia da novidade, pelo que não se renova.Vive de decretos-lei de leitura vária mas esotéricos para os leigos.

O referendo, interessante em questões que pedem decisões que ultrapassam os níveis de responsabilidade dos políticos, decisões que pedem consensos mais robustos e alargados, de todos nós, é uma prática pouco comum, desvalorizada, e sempre que vem à ordem do dia, remata-se a questão com o enunciado bacoco de que o povo não está preparado nem tem maturidade crítica e intelectual, para entender a questão que lhe é colocada, e ainda menos para dar uma opinião de valor acrescentado sobre a mesma.

Tem assim o cidadão poucas opções “à mão” de manifestar a sua vontade, contribuindo pessoalmente para a afinação dos equilíbrios e harmonias do sistema do regime.

Das instituições públicas oficiais e de Estado (ministérios, repartições, tribunais, escolas, estruturas de saúde, polícia e forças armadas, estruturas autárquicas…) aos serviços públicos ou privados (comunicações, energias, recursos naturais, supermercados…), para além do Livro de Reclamações (documento de que muito pouco se fala, e que não se divulga o hábito de o pedir, nem se faz uma pedagogia da sua importância e utilização correcta, até porque o desfecho de uma reclamação é muitas vezes desconhecido para o reclamante), o cidadão, esgotado o voto e a reclamação por escrito, tem à sua frente um enorme e desértico vazio, pouco podendo fazer para fazer ouvir a sua palavra.

Se a questão que pretende dirimir for do âmbito jurídico, e se tiver meios e recursos, entra automaticamente numa espiral de burocracia, impedimentos, bloqueios, prazos que expiram, convidando-o à desistência por cansaço, ou a um desfecho inútil, totalmente inesperado e por vezes patético.

Se a questão não for de litígio, mas de cidadania, naquilo que se pode considerar como linhas definidoras desse conceito: preocupação e atenção ao bem comum, equidade, igualdade de direitos e deveres, denúncia de imparidades, exigência de esclarecimento credível sobre actuação e boa prática dos agentes do poder (político e outros), correcto funcionamento das instituições, neste ponto, já nada se consegue, nem pagando.

Esgota-se a democracia naquilo que deveria ser a sua essência diferenciadora de outros regimes menos simpáticos: a desvalorização da palavra do cidadão, a sua desconsideração, uma verbalização que não chega ao receptor.

Neste panorama pouco estimulante, restam duas opções: a conversa de café, ou a carta para o jornal (agora também a participação nos fóruns de rádios e canais televisivos).

A conversa de café tem os efeitos que todos reconhecemos e numa ou outra oportunidade, todos a praticamos. O seu impacto é imediato, habitualmente o tom da mensagem é em queixume “português suave” e tem por receptor, um parceiro vizinho, ele também impotente, e que não vai dar seguimento à nossa solicitação.

Uma alternativa contemporânea são as redes sociais, que permitem alargar o espectro das conversas de café a um número quase ilimitado de indivíduos.

Esta opção tem a vantagem sobre o desabafo de pastelaria, no facto de os políticos com carteira profissional e as estruturas de propaganda e comunicação que os aconselham, olharem para este meio no sentido de tomarem o pulso da opinião pública. Não será igualmente de desconfiar que o usem para contaminar e exercer jogos de manipulação das massas.

A cabalística tessitura da informação-contrainformação!

Com isto, os mais irrequietos que não atingiram ainda o ponto da desistência, escrevem cartas para os jornais.
Agarram-se à última esperança de serem lidos. Mas escrever missivas para os jornais é um caminho estreito, de difícil acesso, sem regras que se conheçam, a que só se chega por casualidades fora do controlo pessoal.

Senão vejamos:
·       Quantos meios de comunicação escrita reservam um espaço regular e decente para a publicação da opinião do leitor?
·       Quais são os critérios de selecção e escolha dos textos? (qualidade técnica do escrito? Das ideias apresentadas? A actualidade do assunto? A identificação com a linha editorial? A identificação com o gosto pessoal de que recebe a mensagem e faz a escolha para publicação?

Estas interrogações levam-nos a novas interrogações:
· Se o leitor-escritor se apresenta como o mais fiel leitor do meio em causa, o meio em causa não deve ter isso em consideração?
·       Porque não lhe dá mais espaço de participação?

·       Nos poucos casos em que dá porque não aceita uma relação cristalina, franca, respondendo as suas demandas em vez de se remeter ao silêncio?
·       Aceitar o leitor-escritor como um passivo do jornal, para preencher um espaço morto, considerando o remetente como potencial individuo insano, não é uma desconsideração grosseira?
·       Porque são sempre os mesmos que veem publicados os seus textos? São os que escrevem melhor? Os que pensam e traduzem melhor os pensamentos?
·       Os que estão mais à mão?

As vezes pergunto-me, se:
·       Para ver uma opinião publicada o leitor-escritor deve confiar no texto que escreveu, independentemente da actualidade do tema e da agenda do momento, ou só tem sucesso de publicação, se o que envia coincide com a novidade efémera que se vai esgotar no dia seguinte?
·       Porque razão, na eventual necessidade de um contacto esporádico, o leitor-escritor bate contra uma parede de silêncio? Ninguém responde, os rostos não se dão ao contacto!
·       Responder não é o ingrediente elementar da comunicação e da polidez?

Depois destas considerações porventura enfadonhas, pode eventualmente parecer que a decisão mais sensata que o esforço-necessidade de escrever cartas para os jornais, é uma atitude inconsequente e frustrante, sem retorno que se veja, com riscos de catalogação demencial dos seus praticantes, ainda mais aos que persistem.

Pode ser que o seja, mas pode igualmente servir de “mote” para uma reflexão mais profunda e séria, sobre a eficácia actual dos meios de comunicação, a disponibilidade que devemos ter para abraçar a resiliência como arma de adaptação à novidade, o que nos leva a uma perspectiva que gostaria de enunciar e com ela terminar esta reflexão:

As portas que se abrem, infinitas e inimagináveis, em “canal aberto” dos novos meios de comunicação com alcance imediato e universal (falo da internet) e que podem ser a chave-mestra que vai determinar uma nova postura de cidadania, sem filtros nem cartões de acesso reservado a sócios, permitindo o exercício pleno do acto de cidadania.

Sopram ventos frescos para consolidar projectos como o nosso blogue “A voz da girafa”, talvez o caminho mais credível para que as vozes se ouçam, quando os jornais vivem a negação de não quererem perceber as razões do seu insucesso de vendas.

Público , 16-3-2016

2 comentários:

  1. Pois é! Mas quantos leitores tem o " A Voz da Girafa"? e os outros blogues... Os donos disto tudo, continuam, como dizem os brasileiros, a fazer a cabeça às pessoas. A milhões e milhões delas. E assim, a serem os donos disto tudo.

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  2. Mais uma pérola de bem dizer, escrevendo.
    UM FORTE ABRAÇO

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