Dos sobressaltos da existência...
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Não estavam com ar inteiramente natural, mas eu dizia com
força, para comigo: é um candeeiro, é um marco fontanário, e tentava, pelo
poder do meu olhar, reduzí-los ao seu aspecto quotidiano. Várias vezes
encontrei bares no meu caminho. Parava, hesitava diante das suas cortinas de
tule cor-de-rosa: talvez essas salas bem calafetadas tivessem sido poupadas,
talvez contivessem ainda uma parcela do mundo de ontem, isolada, esquecida. Mas
era preciso empurrar a porta, entrar. Não me atrevia; e continuava a corrida. As
portas das casas, sobretudo, metiam-me medo. Receava que se abrissem sozinhas.
Acabei por andar pelo meio da rua.
Desemboquei bruscamente no cais das docas do Norte. Barcos
de pesca, pequenos iates. Pisei uma argola incrustada na pedra. Ali, longe das
casas, longe das portas, ia conhecer um instante de trégua. Na água, calma e
ponteada de grãos pretos, boiava uma rolha. “E debaixo de água? Não pensaste no
que pode estar debaixo de água?”
Nota – Transcrito do livro anexo.
Amândio G. Martins
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